Letícia continuou caindo por um bom tempo.
Era uma queda estranha, sem peso algum, como se ela fosse uma pena lutando contra a gravidade, rodopiando de um lado para o outro contra a sua vontade. Fora a brisa gelada que a envolvia, a moça não conseguia sentir mais nada; flutuava em um vácuo isolado do resto do universo, os olhos fechados, a mente ainda sem funcionar.
Pedacinhos de pensamento tentavam desabrochar em seu cérebro, murchando antes mesmo de nascerem.
"On..."
Letícia tremia, se esforçando demais apenas para pensar.
"Onde...?"
Seu corpo então colidiu com uma superfície gelada, mas sólida. A dor do impacto devolveu seus sentidos, que ficaram dez vezes mais fortes. Seus ouvidos latejavam. Sua pele ardia. Seu nariz queimava, invadido pelo aroma ferroso de sangue.
Ao abrir os olhos, sua visão foi agredida por um espetáculo de cores e brilho.
Enormes tendas coloridas se erguiam diante dela, a cercando por todos os lados, suas figuras dançando ao ritmo do vento. Estava deitada sobre uma estradinha de tijolos cor de rosa, manchada em alguns pontos, que se dividia e se espichava em tantos caminhos diferentes que era impossível dizer onde ela começava e onde terminava. Luzinhas piscantes flutuavam acima da sua cabeça, estrelas artificiais contra um céu vermelho sangue.
Um festival que mesclava violência com entretenimento.
Letícia absorveu tudo à sua volta bem lentamente. Aquele cenário não tinha o brilho embaçado de uma memória, e sim o resplendor de um show que estava prestes a começar.
Ela estava tendo um pesadelo novo.
"Não... não, não, NÃO!"
A moça apoiou as mãos no chão, prestes a se levantar, mas seu choque apenas aumentou. Luvas brancas cobriam seus braços até os cotovelos, tão cintilantes que pareciam mágicas. Seus olhos, inevitavelmente, passearam pelo resto do seu corpo. Ao invés do pijama que havia botado naquela noite, Letícia estava usando um elegante vestido de bailarina. O tecido era de um violeta suave, decorado com espirais prateadas que se esticavam ao redor de um tutu roxo e salpicado de glitter. Ergueu as mãos até a cabeça, sentindo seu cabelo preso em um coque firme, mantido no lugar por uma fina fita de seda. Finalmente, seus olhos pousaram sobre seus próprios pés, escondidos dentro de lindas sapatilhas brancas, os laços se enrolando até seus joelhos.
Letícia reconhecia aquela roupa, como esqueceria? Tal vestimenta aparecia apenas em ocasiões muito especiais.
A moça desabou de joelhos no chão. Seus olhos começaram a arder, as lágrimas já brotando.
— Eu falhei...
Cobriu a boca com as mãos, tentando segurar o choro, mas o desespero a devorava de dentro para fora. Sua mente estava em frangalhos; ela era um vaso remendado prestes a se quebrar de novo.
— Mesmo com todo o meu esforço, eu ainda falhei.
Tudo que a moça planejou nos últimos meses, tudo que ela fez desde que começou a investigar o sobrenatural, foi para não ter que ver aquele lugar outra vez. Letícia não podia apagar as memórias que tinha dele, mas ao menos podia viver com o conforto de que elas eram só isso: memórias de um passado que não iria se repetir.
Mas ali estava ela, presa novamente em um labirinto colorido e sanguinolento, prestes a reviver os horrores que tanto a assombravam.
Letícia voltou a tremer, as lágrimas caindo sobre o tutu tão radiante; arrepios rastejavam pela sua espinha.
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Oneirofobia
HorrorOneirofobia: o medo extremo de sonhar. Três jovens adultos, atormentados por pesadelos terríveis, se juntam para investigar e deter as estranhas entidades que assombram seus sonhos. No processo, eles aprendem que seus medos podem ser muito mais pr...
