Medo

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Estou no sofá novamente. Portia disse que não iria aguentar passar a noite aqui depois de tudo que aconteceu e foi para casa. Por sorte ela também mora perto daqui, então ela ficou de voltar amanhã pela manhã.

A TV ainda está ligada, mas não faço ideia do que está passando, assim como também não faço ideia de que horas sejam agora. Meu olhar está preso no colete de Cinna, deixado em cima do centro na minha frente. Quando volto a mim, procuro rapidamente por Haymitch e o encontro na varanda, com um copo na mão. Suspiro desapontada ao ver que ele está bebendo de novo, mas deixo isso de lado. Essa é a forma dele de fugir da realidade. É o que o mantem distante da insanidade até hoje.

Não sei por quanto tempo estou olhando para ele, mas quando percebo, Haymitch também está olhando para mim. Desvio o olhar enquanto ele volta para a sala, para, o que acredito, encher seu copo com mais uma dose. E é isso o que ele faz. Mas ao invés de voltar para a varanda, como eu esperava, Haymitch se senta no outro extremo do sofá. Ele toma um gole e pousa seu copo no centro, voltando a se encostar no sofá. O sono está me consumindo. Meus olhos ainda estão inchados de tanto que já chorei. Me encosto, também, no sofá e dou de ombros, olhando para Haymitch, até ele virar a cabeça e também olhar para mim. Assim permanecemos por alguns instantes, em silêncio, apenas nos observando, até que ele estende uma mão na minha direção. Sem hesitar, estendo a minha e a seguro, então ele me puxa de leve, até que eu me sente ao seu lado. Ele passa um braço ao meu redor, passando os dedos levemente pelo meu braço. Fecho os olhos e aproveito a sensação de tranquilidade que ele me passa.

- Está assustada, não está?

Assinto com a cabeça, ainda com o olhar distante.

- Quer saber de uma coisa? - ele indaga. - Eu também estou.

Fico surpresa com o que ele acabara de dizer. Até então Haymitch não tinha apresentado um sinal sequer de medo ou algo parecido e agora ele simplesmente está confessando isso.

Levanto a cabeça lentamente e encontro os seus olhos. Nos encaramos por alguns instantes e então ele encosta sua mão livre no meu rosto, aproximando-se cada vez mais. Quando sinto seus lábios tocarem os meus, parece desesperador. Ele leva a mão até a minha nuca e me segura enquanto o beijo se intensifica. Começo a ser tomada pelo medo. Imagino o maior número de possibilidades do que possa acontecer daqui para frente e então sinto uma lágrima se formar, caindo pelo meu rosto.

Haymitch se afasta um pouco e olha para mim. Ele enxuga a lágrima com seu polegar.

- O que foi?

- Eu só... estou com medo do que pode acontecer agora.

- Calma, Effie - ele diz. - Não vou deixar nada de ruim acontecer a vocês.

- E a você também - corrijo-o.

Haymitch prende o riso rapidamente e olha para baixo.

- Não, não. Ninguém precisa de mim.

Ponho a mão no seu queixo e ergo seu rosto, fazendo-o me olhar novamente.

- Eu preciso.

Há um breve momento em que apenas nos olhamos, em silêncio, até que nossos lábios se tocam levemente. Ele me envolve em um abraço e assim permanecemos.

- Eu não posso perder você - sussurro.

- Você não vai.

Sinto uma necessidade inexplicável de tê-lo por perto, agora mais do que em qualquer outro momento.

Consigo convencer Haymitch a não dormirmos mais separados, então nos direcionamos ao meu quarto. E quando finalmente me deito ao lado dele, sinto meu sono ir embora.

You're Always Here - HayffieOnde histórias criam vida. Descubra agora