A colheita

456 27 0
                                    

Estamos no trem indo em direção ao Distrito 12. Tento manter meu entusiasmo rotineiro, mas desde que o Massacre Quaternário foi anunciado não tenho mais razões para isso. Uma voz dentro da minha cabeça grita pedindo por justiça, mas eu nada posso fazer além de cumprir o papel que me foi designado.

Mais uma vez serei escolta dos tributos do Distrito 12, mas dessa vez irei acompanhar os mesmos do ano passado, sendo que um deles pode ser Haymitch e isso é o que está acabando comigo.

Nunca tivemos algum tipo de relação a não ser profissional, mas de uns tempos para cá Haymitch e eu nos aproximamos mais do que esperávamos e isso acabou criando um elo entre nós, mesmo que continuássemos brigando como sempre, mas aprendi a confiar nele mais do que em qualquer outra pessoa.

E agora estou eu mais uma vez neste trem, em direção do seu Distrito, prestes a retirar o seu nome ou o de Peeta na colheita. E Katniss, oh Katniss, sem ao menos ter o direito de uma chance, de ter mais uma vitoriosa viva do seu Distrito, simplesmente não tem saída. Ela é a única.

Lágrimas enchem novamente os meus olhos e me controlo para não deixá-las cair. Mantenho a postura e vou até uma janela próxima, percebendo que já estamos chegando e estaremos no nosso destino dentro de alguns minutos.

Cinna se aproxima de mim e para ao meu lado, olhando para o que há lá fora também. Tudo parece estar diferente, o ar diferente, frio e deserto. Triste e vazio.

– Você precisa ser forte agora, Effie - ele diz, ainda mantendo o olhar para lá fora.

– Não posso te garantir isso, Cinna - respondo. - Não mais.

Cinna suspira antes de prosseguir.

– Sinto muito por perceber tudo dessa forma - ele diz. - Esta visão que você está tendo sobre os Jogos eu já tenho há muito tempo.

– Que horrível... Eu deveria ter ouvido você ou quem quer que tenha tentado me fazer entender.

– Haymitch, na verdade - Cinna diz e neste momento eu dou de ombros, franzindo o cenho. - Todas aquelas vezes que ele dizia que você não entendia nada e que tinha que ouvi-lo, mesmo bêbado, ele estava tentando fazer você enxergar. E, bom, ele é quem mais entende entre nós.

– Achei que era só implicância dele.

– Ele dá mesmo essa impressão - Cinna comenta. - Mas você tem que entender que ele só queria abrir os seus olhos.

– E você também - completo. - Não sei o que eu seria sem você.

– Quer que eu repita? - Cinna indaga, me fazendo rir.

– Uma solteirona sem amigos?

– Talvez - ele diz, voltando a olhar para além da janela. - Mas agora você tem ele.

– Ah, Cinna... eu queria muito abraçá-lo, mas esse vestido me impede de fazer isso - digo, apontando para as borboletas que compõem o meu vestido. Monarcas, para ser mais exata.

Cinna segura minhas mãos nas suas e deposita um beijo em cada uma delas. Continuamos de mãos dadas por um bom tempo enquanto tento encontrar coragem para a colheita.

~*~

O portão principal do Edifício da Justiça se abre e então passo por ele, indo em direção ao microfone que está bem no meio entre os dois recipientes com os papéis que tirarei com os nomes dos tributos. Meu coração bate cada vez mais forte com o meu nervosismo e vejo todos os moradores em pé, em fila, olhando para mim como se eu fosse a culpada de tudo isso que está acontecendo. Mal sabem eles que a única coisa que faço, neste momento, é informar os tributos que já estão praticamente escolhidos. Mal sabem eles, também, que eu quero que tudo isso acabe.

You're Always Here - HayffieOnde histórias criam vida. Descubra agora