Terminamos a turnê com menos caos que começamos e isso parece ser um bom sinal. Até então, sempre que cruzo com Haymitch pelos corredores ou quando vamos falar com os garotos, nenhum dos dois direcionam uma palavra sequer ao outro. E isso acaba me consumindo totalmente. Tento reunir coragem para falar sobre qualquer assunto que seja, mas não consigo. E a cada vez que nos vemos, minha coragem parece estar mais distante.
Mas isso não dura por muito tempo. Na última noite depois da turnê, quando o trem já está a caminho da Capital, vou a cozinha para fazer um café. Pego os ingredientes e coloco no bule, então encosto-me no balcão, aguardando que ferva para poder tomar. Cruzo os braços e sinto minhas pálpebras começarem a pesar com o sono, então esfrego as costas das mãos nos olhos, tentando me despertar. Só depois do café, digo a mim mesma e acabo deixando um bocejo escapar.
– Ah, é você - ouço uma voz bastante conhecida vinda da entrada do vagão. Viro rapidamente o rosto para ver Haymitch e ponho uma mão na boca para disfarçar o bocejo.
– É, sou eu - digo apenas e volto a me concentrar no bule que já está expelindo fumaça. Desligo o fogão e tiro a tampa do bule para sentir o cheiro.
– Tá fazendo o que? - Haymitch pergunta.
– Café - respondo enquanto me sirvo numa xícara. - Você quer? - ofereço, parando para finalmente olhá-lo nos olhos. Haymitch parece estar um pouco indeciso, mas acaba aceitando e eu sirvo outra xícara para ele. Deposito-a no balcão e o deixo pegá-la, então sirvo-me com a minha.
Não ousamos trocar uma palavra sequer enquanto nos servimos com café, então vou até uma das janelas e me encosto nela, observando as luzes lá fora até terminar de beber. Volto-me para a pia e vejo Haymitch ainda parado no mesmo lugar, me observando.
– Me desculpe por... - começo a dizer, hesitantemente - você sabe... pelo que aconteceu.
– Não precisa se desculpar.
– Preciso sim - insisto. - Não deveria tê-lo tratado daquela forma.
– Já me acostumei - ele diz, forçando uma risada que não foi nada convincente.
Vejo Haymitch pousar sua xícara na pia e dar dois passos para frente. Não ouso recuar, mas também não consigo levantar meu olhar tão facilmente, então continuo com a cabeça abaixada. Percebo nossas mãos próximas uma da outra e, lentamente, aproximo a minha ainda mais da dele, tocando-a de leve, até entrelaçar um pouco os nossos dedos. Continuo prendendo minha atenção apenas nisso e parece que ele faz o mesmo. Aos poucos, encosto minha cabeça no seu peito e assim permaneço, em silêncio, ouvindo apenas as nossas respirações. Em pouco tempo sinto-o afagar meus cabelos com sua outra mão, passando os dedos para cima e para baixo lentamente, o que acaba me deixando com mais sono do que estava anteriormente.
Quando nos afastamos um pouco, finalmente encontro o seu olhar e fico presa a ele por alguns instantes, até que desvio para os seus lábios e quando volto a olhá-lo nos olhos, percebo que
ele também estava olhando para os meus. Mas um impulso faz com que eu me afaste um pouco ao percebê-lo se aproximar.
– Preciso dormir - murmuro. Haymitch não protesta e apenas assente com a cabeça. Mordo o lábio e, um pouco arrependida, rumo de volta para a minha cabine, em busca do sono que até então estava me consumindo.
Não demoro até cair no sono, e ainda não lembro se tive algum sonho, porque quando abro os olhos vejo que já são um pouco mais de seis da manhã e então me adianto em me arrumar. Mais tarde chegaremos a Capital para a grande festa.
Após escolher um vestido verde e colocar uma peruca cor-de-rosa, saio do quarto bocejando, em direção ao vagão-restaurante que, assim como já esperava, está vazio. Sento-me à mesa e me sirvo com um pouco de leite. Olho para o que tem no café da manhã e pego um pão, colocando-o no meu prato. Estico um braço para pegar a geleia, mas alguém parece ter se adiantado. mas não preciso pensar duas vezes antes de certeza de que se trata de Haymitch. Ele segura o pote de geleia e se senta numa cadeira de frente para mim. Ele ri um pouco brincalhão e me sinto bem por não começar o dia vendo sua carranca de ressaca. Sorrio de volta e então percebo que está será a última vez. Haymitch não será mais mentor, e consequentemente não virá mais neste trem para os próximos jogos, e sim Katniss e Peeta. Ele agora poderá escolher ficar no Distrito 12 e sei que essa será a decisão dele.
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You're Always Here - Hayffie
RomanceExistem coisas que apenas o tempo pode nos mostrar. Coisas que estão na nossa frente o tempo inteiro, mas não conseguimos enxergar. Precisávamos um do outro cada vez mais, e essa necessidade de companheirismo acabou se transformando em algo maior.