Abro os olhos e minha visão está turva. Não consigo sustentar por muito tempo e os fecho novamente, caindo mais uma vez no sono.
Acordo mais uma vez. Minhas costas estão doloridas. O colchão não é dos melhores. É melhor do que nada, digo para mim mesma.
Não sei que cheiro estou sentindo. Sinto falta dos meus cremes, do meu hidratante com aroma de morango.
Mal cheguei aqui e já sinto falta da Capital.
Mas espere... onde estou exatamente?
Levanto da cama e sinto minha cabeça latejar. Não faço ideia de quanto tempo passei dormindo, se chegaram a ser dias, mas quando a minha barriga ronca, tenho a resposta de que faz muito tempo.
Tenho alguns lapsos e lembro de ter aberto a porta e dado de cara com um soldado, que me entrega algumas roupas e, mais tarde, alguém me traz comida. Quando pergunto quem mandou, ele apenas responde "Heavensbee" e sai.
Olho para as roupas que ele me entregou e suspiro. Não sei exatamente o que estou sentindo em relação a isso agora, mas se aproxima bastante de nojo.
Quando estendo uma peça a minha frente, percebo que se trata de uma "farda" que me lembra roupas militares, mas ainda pior. Seu tom verde acinzentado deixa tudo num tom depressivo. Fico alguns minutos em silêncio pela falta de criatividade dos que vivem aqui.
Jogo as roupas em cima da cama. Preciso de um banho imediatamente, digo para mim mesma. Mas antes de qualquer coisa, me apresso a tomar a sopa que me trouxeram, saciando a fome que, até então, estava me consumindo.
Agora minha peruca está guardada no armário ao lado da cama. O espaço que tenho neste cômodo é mínimo, mal posso me movimentar a não ser para a mesinha que fica entre a cama e a porta.
Ainda estou com o vestido que usava quando fugimos. Mas há uma diferença: há alguns rasgões em algumas regiões da peça. Suspiro em pensar que isso pode ter sido de propósito. Eles possuem um ódio mortal pela Capital. Parecem ter descontado uma ponta desse ódio em mim.
Decido fazer algo que torne essas roupas horrendas ao menos usáveis. Não consigo me imaginar usando o mesmo que outras centenas de pessoas. Tudo igual, tudo repetitivo, tudo tão normal... Não posso ser assim. Não quero ser assim.
Abro o armário e noto que há vários objetos de costura. Franzo o cenho, desconfiada. Quem colocaria isso aqui? Aposto que não faz parte do "kit sobrevivência do Distrito 13".
Há um envelope próximo a porta do armário. Retiro-o para ler e vejo meu nome escrito nele.
Para que possa se sentir você mesma até aqui.
Plutarch.
Um pequeno sorriso me escapa quando leio o que ele escreveu. Me alivia saber que ainda tenho amigos até aqui. Sorrio e ponho o envelope de volta no armário. Então pego todos os acessórios de costura e começo a trabalhar na farda.
Não levo tanto tempo até perceber que está até aceitável. Logo após o banho decido colocar uma das roupas que me foram entregues, a que eu acabara de personalizar. A calça me incomoda bastante.
Há um pequeno espelho no meu compartimento onde paro para me olhar. Minha maquiagem está gasta e o que tenho não é o suficiente. Sem contar que não posso exagerar aqui. Minhas vestes me impedem de fazê-lo. Me impedem de ser eu mesma.
Suspiro e me volto para o restante das roupas, jogadas na cama. Entre elas há algo parecido com um mapa. Franzo o cenho e o seguro nas mãos, notando que não é papel, e sim tecido. Ótimo, penso. Isto aqui vai ter sua serventia. E sem pensar duas vezes, prendo meus cabelos com alguns grampos e faço do mapa um lenço. Cubro todo o meu cabelo com ele e começo a me dedicar ao vestido, percebendo logo em seguida que ele está bastante prejudicado. Há rasgões por toda a sua extensão, mas o que me "alivia" é ver que o mesmo não está sujo, então posso trabalhar na reforma dele de imediato.
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You're Always Here - Hayffie
Storie d'amoreExistem coisas que apenas o tempo pode nos mostrar. Coisas que estão na nossa frente o tempo inteiro, mas não conseguimos enxergar. Precisávamos um do outro cada vez mais, e essa necessidade de companheirismo acabou se transformando em algo maior.