CINZAS

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KATHERINE POV

O silêncio do quarto me sufocava.

A claridade que passava pelas cortinas era pálida, como se o próprio sol estivesse com pena. Eu estava sentada na beira da cama há horas, vestindo a camisola branca que agora parecia grande demais para o meu corpo. Os lençóis ainda tinham o cheiro de hospital, de remédio, de dor. Doía até respirar.

Tudo estava quieto… mas dentro de mim, o grito era ensurdecedor.

A ponta dos dedos traçava distraidamente a curva da minha barriga. Um gesto automático, inconsciente, como se ele ainda estivesse ali. Como se eu pudesse senti-lo. Mas não havia mais nada. Nenhuma presença. Nenhum calor. Apenas o vazio.

Meu bebê se foi.

E eu me odiava por isso.

Tentei comer no café da manhã. Duas colheradas de sopa fria. Mas a garganta travava, recusava. O estômago parecia ter sido costurado por dentro. Jeon deixou a bandeja no criado-mudo e saiu em silêncio. Eu sabia que ele estava preocupado, mas... não tinha como explicar o que estava sentindo.

Levantei com dificuldade. As pernas tremiam, mas eu precisava me ver. Precisava ver o que sobrou de mim.

Fui até o espelho grande no canto do quarto. Cada passo era uma luta. E quando finalmente me encarei…

Quebrada.

Havia um corte acima da sobrancelha. Os hematomas nas costelas formavam manchas roxas, como tinta derramada. O olho direito ainda levemente inchado. Lábios rachados. A camisola pendia solta nos ombros. Era como olhar para outra pessoa. Uma estranha. Uma mulher que tinha falhado.

Minha mão deslizou até a barriga. Ainda estava ali, o formato, a lembrança. Mas era só isso: uma lembrança.

As lágrimas vieram sem que eu pudesse impedir. Primeiro baixas, depois em soluços desesperados. Apertei os braços ao redor do próprio corpo, me curvando como se pudesse me esconder de mim mesma. Como se pudesse encolher até sumir.

— Eu perdi você… — sussurrei, afundando no choro. — Me perdoa… me perdoa, meu amor…

A porta rangeu.

Eu não precisei olhar pra saber quem era.

Jeon estava ali.

Não disse nada. Só entrou e me olhou. E naquele momento, o som do meu choro parecia ecoar por cada parede da mansão. Eu tentei limpar as lágrimas, tentei esconder a dor… mas era impossível. Eu estava despedaçada.

— Kat… — a voz dele soou baixa, como se tivesse medo de quebrar ainda mais o que já estava em ruínas.

Quando nossos olhos se encontraram pelo espelho, vi. Vi a mudança no olhar dele. Não era pena. Era algo mais fundo. Algo mais escuro.

Dor.

Raiva.

Fúria.

Ele me encarava como se tivesse sido atingido por mil balas. Como se minha dor tivesse atravessado o peito dele sem pedir licença.

— Sai, Jeon — murmurei, com a voz embargada. — Eu não quero que você me veja assim.

Ele ignorou.

Deu um passo à frente, depois outro. Quando vi, estava atrás de mim, suas mãos hesitantes pairando sobre meus ombros, sem tocar.

— Você precisa comer… descansar. O médico disse que...

— Eu perdi o nosso filho, Jeon — minha voz saiu afiada, trêmula, rachada. — Você acha que eu consigo descansar?

Ele fechou os olhos por um momento. A respiração dele estava pesada, controlada por um fio.

— Eu sei que tá doendo. Tá doendo em mim também, mesmo que de outro jeito. Eu vi aquele vídeo, Kat. Eu vi o que aquele desgraçado fez com você.

— E eu não pude fazer nada — sussurrei, virando pra ele. — Eu só consegui implorar. Proteger minha barriga com os braços. E mesmo assim… — minha voz falhou. — Ele me chutou. E eu senti. Eu sabia que tinha perdido. Naquela hora.

A mão dele fechou-se num punho. Os olhos ardiam com uma intensidade que eu nunca tinha visto antes. Não era só raiva. Era uma promessa silenciosa.

— Ele vai pagar, Kat. Com cada gota de sangue. Com cada osso quebrado. Eu juro pela sua dor, pelo nosso bebê… que ele vai implorar por misericórdia. E não vai ter.

Senti o calor da mão dele envolver a minha. Por um segundo, me permiti aquele toque. Aquele refúgio.

— Eu não queria me apaixonar por esse bebê tão rápido — falei, fungando. — Mas eu já imaginava o quarto, o nome… os passos pequenos correndo pela casa. E agora eu não tenho nada disso. Só… um corpo machucado e um coração vazio.

— Você não está sozinha — Jeon disse, firme. — Não importa o que aconteça entre nós… eu tô aqui. E ninguém vai te encostar de novo.

Os olhos dele estavam marejados. Jeon não era um homem de lágrimas. Mas ali, naquele quarto cheio de silêncio e dor, ele sangrava por dentro. Assim como eu.

Me deitei de volta na cama, sentindo a exaustão tomar conta. Jeon puxou o cobertor até meus ombros. Antes de sair, ele se virou mais uma vez.

— Descansa. Você precisa recuperar suas forças. Porque quando isso acabar… você vai olhar no espelho e ver uma mulher mais forte do que nunca. E eles vão se arrepender de tudo.

Ele saiu, fechando a porta devagar.

E eu, entre lágrimas e sussurros, prometi ao meu bebê… que nunca esqueceria.

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