A última noite.

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Sentei-me, pela última vez, na velha varanda.
O jardim do meu nono se estendia diante de mim…
uma pintura viva que o tempo se recusava a apagar.
Margaridas e rosas inclinavam-se ao vento, delicadas, indiferentes ao silêncio da rua.
O vento balançava meu cabelo — por uma última vez.

E a brisa trouxe memórias: o sabor de quando me apaixonei por ela…
o calor de cada instante que parecia iluminar tudo ao redor… e aqueles olhos — azuis, acinzentados —
que me fitavam da varanda, como se guardassem todo o mundo.

Tudo parecia mais bonito quando transformado em lembrança.

— O senhor poderia plantar dália? Eu amo — murmurei, segurando a xícara de chá.

Ele sorriu com os lábios, discreto, mas os olhos…
os olhos carregavam histórias inteiras.

— Sou alérgico…
— Era a flor preferida do seu pai.
Quando ele ainda era garoto, trouxe uma muda, um tubérculo — gesticulou lentamente, como se tocasse a memória — disse que havia ganhado.
Assim que encostei para plantar, fiquei todo inchado.
Foi assim que descobri que uma flor podia me matar.

— Ele sempre comprava essas flores para minha mãe…
— E às vezes nem era em datas importantes.

— É… ele era um bom homem.
Sua nona fez um bom trabalho — disse ele, e a verdade dessas palavras parecia pairar no ar, pesada e terna.

Olhei para ele.
A mão enrugada segurando a xícara.
Os olhos cansados que ainda brilhavam.
As pernas inquietas.

— Vocês fizeram um bom trabalho…
— E o senhor não deveria se sentir culpado pelo acidente — meu peito apertou, doído, silencioso.
Naquele dia… meu pai… ele estava feliz.
Como sempre foi.
E, se hoje estou aqui, foi porque ele virou o volante para ele…
Tomou todo o impacto antes do carro revirar.

— Você não precisa reviver isso, mi neta — disse ele, baixinho.
— Já foi. O Gio e a Isabela estão bem… livres das dores mundanas.
Eu, você e sua nona os carregaremos para sempre.
Eles estão congelados na memória…
Como flores que jamais murcham.
Serão os filhos que não vi envelhecer.

— É… e eles serão os pais que não me verão envelhecer — sussurrei, a voz falhando, o chá quente misturando-se às lágrimas.

Não escondi o choro. Era a primeira vez que falava com ele, sobre eles…
sobre o acidente… sobre tudo que ficou preso nas lembranças.
Mas era a última noite. E cada instante parecia quebrar-se em fragmentos de silêncio e memória…
Deixando no ar o perfume das flores…
A dor do passado… e uma saudade que nunca passaria.

Era 21:20.
Eu terminava de guardar os livros da estante nas malas quando ela entrou.

— Pela porta? — perguntei, surpresa.
Ela não respondeu de imediato.

Apenas observou a estante vazia, como se entendesse, antes mesmo de eu dizer, que aquela seria a nossa última vez naquele quarto.

— Seu avô me mandou entrar — disse, por fim.
Os olhos dela estavam cinzentos.
A roupa… uma camisa preta de manga longa e uma calça escura.

Ela sempre foi assim: simples, silenciosa, inteira.

— Ele ainda está na varanda? — perguntei.

— Sim… com o seu tio.

Fiz uma expressão de surpresa ao ouvir isso.
Ela não falou mais nada.
Parecia querer guardar as palavras, como quem economiza o que sente.

— Quer me ajudar a terminar de guardar? — perguntei, querendo puxá‑la para perto, mesmo sem tocá‑la.

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