Capítulo 17
Hoje completa um mês desde que fui pedida em namoro, e hoje a ideia de ser namorada e de ter uma namorada não me assusta mais. O medo que antes sufocava cada respiração se desfez como gelo exposto ao calor, dando espaço a algo leve, quente e pulsante. Todo dia 10 de cada mês terá um significado, será sempre o dia em que começamos nossa história. Um dia que vibra dentro de mim como vento batendo nas folhas, firme e constante, ecoando nos ossos, nos ouvidos, na pele.
Não contamos a ninguém. Não que não precisem saber, mas haverá um tempo certo para isso. Um tempo em que cada palavra, cada gesto, possa ser vivido com segurança, sem pressa.
Passávamos os dias juntas. Ela frequentava mais minha casa do que a própria. Meus avós nos observavam em silêncio, percebendo cada toque de mão, cada risada mais alta, cada piscadela de canto de olho, cada vibração silenciosa que passava entre nós. À noite, era sempre o mesmo ritual , Lumar vinha dormir comigo. Nunca passávamos de beijos ou pelo menos nunca oficialmente mas às vezes a empolgação dela transformava a noite inteira em toques suaves, risadas abafadas e sussurros que escapavam do mundo, deixando rastros de calor e cumplicidade pelo quarto.
Mas hoje, a rotina mudou. Lumar entrou com aquele sorriso confiante que sempre me deixa sem fôlego, iluminando até a parede mais escura e irradiando calor suficiente para aquecer meu coração inteiro. Meu peito subiu e desceu em um ritmo próprio, acelerado e doce.
— Sol! — chamou, animada — vamos para a praia! Agora mesmo!
— Praia? — minha voz falhou, surpresa, envergonhada. — Eu… não sei…
Ela segurou minhas mãos, dedos entrelaçados com delicadeza, e me abraçou levemente. A suavidade do toque atravessou minha pele, e um formigamento gostoso subiu pelos braços.
— Confia em mim. Quero fazer algo especial hoje — disse, os olhos azuis brilhando como faróis. — Hoje fazemos um mês — sussurrou, tremendo ligeiramente, e minha mente quase parou com a delicadeza daquele instante.
Sempre foi assim… intensa, impossível de resistir. O coração disparou, as mãos suaram, e o mundo inteiro se resumiu àquelas mãos entrelaçadas, ao toque que criava pequenas faíscas de vida dentro de mim, iluminando cada nervo, cada suspiro.
Apesar de ter 18 anos, Lumar não dirige. Então meu tio Tito nos levou à praia, tentando ser discreto, mas eu sentia seus olhos me queimando enquanto puxava assunto com ela no banco de trás. O movimento do carro, o som da estrada, a brisa que entrava pela janela… tudo amplificava a expectativa e o calor que se acumulava no peito, pensando que há poucos meses eu mal suportava sair de casa, e agora estava a caminho do mar.
— Por que não apareceu no seu aniversário? — perguntou Tito, curioso. — Seus pais fizeram um festão… pena você não ter ido.
O semblante de Lumar mudou. O sorriso leve desapareceu, substituído por uma frieza quase impenetrável. Ela apoiou o rosto no vidro, olhando a estrada, e percebi cada linha de tensão em seu rosto perfeito. Meu coração se apertou, uma pontada de preocupação misturada ao desejo de protegê-la.
— Desde os 16 anos não participo da minha festa. Eles deveriam estar acostumados. Continuam gastando dinheiro porque querem. Já pedi pra pararem — disse, firme, quase glacial.
Tito apenas assentiu, tentando quebrar o clima com sua naturalidade sarcástica: — E você, Sol? O Lions se afastou… então, nada de romance?
Minha mente gritou: aumenta a música, reza para chegarmos logo.
Desviei o olhar para o mar, mas não pude deixar de notar como Lumar mantinha o semblante fechado, atento, medindo cada gesto meu, como se nos conhecesse de um modo que ninguém mais conhecia.
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Eu Sou SoL
RomanceSoL, uma jovem de 17 anos, tornou-se paraplégica aos 16 e, desde então, encontra refúgio em seu quarto, isolando-se do mundo exterior. A ausência de afeto romântico e a inexperiência de um primeiro beijo pesam sobre ela. No entanto, o destino reserv...
