Posso ser seu presente?

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- Eu Sou SoL

Eu queria capturar aquele instante e guardá-lo para sempre. Ela estava deitada na minha cama, como um anjo caído. A pouca luz revelava cada detalhe,os lábios rosados, o rosto perfeito, os cachos bagunçados como sempre. Eu precisava tocá-la. Aproximei-me devagar e afastei um fio de cabelo de seu rosto, mas minha mão fria a despertou. Nossos olhos se encontraram, e de repente tudo se tornou mais intenso. O silêncio era tão profundo que só consegui ouvir os batimentos do meu coração.

— Respira, Sol. Aproveite. Sinta. Este é o momento. Minha mente sussurrava, firme e insistente.

Ela não deveria querer me ver, não depois do nosso primeiro beijo. Talvez essa seja a minha única chance de consertar as coisas.

— Por que demorou tanto? — perguntou, a voz rouca, apertando de leve minha mão.

— Eu estava na sua festa... no lugar em que você deveria estar. — respondi, mantendo a mão em seu rosto, mais por instinto do que coragem.

— Se viu que eu não estava... por que ainda assim ficou? — retrucou, com um meio sorriso que me desmontou.

Ela tinha razão. Se eu soubesse que o meu quarto era o refúgio dela, eu nunca teria saído de casa.

— Eu esperei porque queria te entregar o presente pessoalmente. Mas você não apareceu. — Afastei a mão devagar, percebendo que a toquei por tempo demais.

— Não pare agora, Sol. Mostre que se importa, mesmo que doa. me lembrava minha voz interna.

Os olhos dela desceram até meus lábios e permaneceram ali. Senti o calor tomar conta do meu rosto ,a respiração falhou, como se todo o quarto nos empurrasse para um segundo beijo.

— Estamos aqui agora... me entregue o presente. — disse, abrindo as mãos.

— Já entreguei. Deixei no seu quarto. — bati de leve nas mãos dela, tentando disfarçar a vertigem que me consumia.

Ela se surpreendeu. Não imaginava que eu tivesse entrado em seu espaço. Talvez agora estivéssemos quites.

— Eu não sabia que você era artista... e poetisa. Você tem muito talento. Seu quarto é um céu particular, lindo em cada detalhe. — falei, a voz escapando mais suave do que eu queria.

— Humm... e qual foi o meu presente? — ela provocou, os olhos ainda brincando entre os meus e minha boca. — Pode me contar um pouco sobre ele? Estou ansiosa para saber o que você me deu.

— Se estivesse mesmo ansiosa, teria ido à sua festa... — desviei o olhar, tentando recuperar o fôlego. — Me ajuda a deitar? — pedi, fazendo esforço para sair da cadeira.

Ela me ajudou com uma delicadeza que quase me quebrou inteira. Por um segundo, tive a certeza de que se eu me inclinasse só um pouco mais, nossos lábios se encontrariam. Mas ela recuou. Um sinal claro de que ainda estava chateada.

— Sol, você consegue. Apenas respira. Este é o momento de se abrir. minha mente sussurrava, urgente e calma ao mesmo tempo.

Me virei para ela, e estávamos tão próximas, dividindo a mesma cama, o mesmo silêncio.

— O seu presente é um livro. — disse, sentindo meu coração acelerar. — Um romance, intitulado "As estrelas mortas em teus olhos". Mas não é apenas o livro em si... é o que escrevi nele.

Ela virou-se para mim e, mesmo com a pouca luz, percebi sua pupila dilatar.

— Um romance? Mas por que um romance?

— Você não vai querer saber o que escrevi nele? — perguntei, espantada. Ela parecia mais curiosa pelo livro do que pelas palavras que eu havia escrito. Me senti indignada.

Eu Sou SoLOnde histórias criam vida. Descubra agora