capítulo 11

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"Depois do barulho, o que resta é aprender a escutar o que o silêncio não diz."

-Eu Sou SoL

                                    Capítulo 11

Com o fim do festival, minha rotina cansativa voltou com todo o vapor. Não que eu sentisse falta das cores e dos ruídos da praça — mas o silêncio também pesa, às vezes. Agora tudo gira em torno do esforço: levantar, respirar, suportar. Não há plateia, só o tempo passando devagar demais.

As manhãs recomeçaram com Dona Celeste na sala de casa, com seu vestido florido, a lousa portátil encostada na parede e a mesa repleta de livros abertos.

— Hoje vamos revisar o Romantismo, Sol. Mas se preferir, podemos ler aquele conto do Machado que você tanto gosta.

Eu forcei um sorriso, ajeitando a manta sobre as pernas.

— Podemos ler o conto. Eu gosto quando ele é sarcástico.

— Pois então, vamos rir com inteligência — ela disse, rindo também.

Dona Celeste tem um jeito de transformar tudo em literatura. Até o meu cansaço. Às vezes me perco olhando para o teto, e ela apenas vira a página e me espera. Me dá espaço sem dizer uma palavra. Talvez porque agora ela entenda que não é preguiça — é só o mundo sendo demais pra mim.

Depois das aulas, vem Ana Clara. Ela chega sempre animada, batendo palmas na porta antes de entrar.

— Bora, Sol? Hoje a gente vai focar na estabilidade da sua coluna, principalmente na T12. A gente vai conseguir mais equilíbrio.

— Mais equilíbrio físico ou mental? — pergunto, com um meio sorriso cansado.

— Se tudo der certo, os dois — ela responde, e pisca pra mim.

Ela me ajuda a deitar no tapete especial da sala. O exercício começa com movimentos lentos de fortalecimento do tronco. Meu corpo dói. Sinto cada músculo como se estivesse sendo acordado à força.

— Você está indo bem — ela diz, firme. — Se sentir dor aguda, me avisa. Mas essa dor que está aí agora é da sua força voltando.

— Às vezes, parece que nunca vai voltar.

— Parece. Mas volta. Não do jeito que era antes, mas do jeito que você precisa agora.

As palavras dela ficam ecoando. Do jeito que eu preciso agora.

À tarde, tenho a sessão com o Dr. Lucas. Os cinco passos. A gente repete toda semana:

1. Identifique os sintomas.

2. Dê nome a eles.

3. Respire fundo.

4. Questione os pensamentos.

5. Aja apesar do medo.

Parece simples quando ele fala, como se fosse um manual de instruções para viver. Mas na prática, é como atravessar um rio gelado com as pernas dormentes. Às vezes eu identifico os sintomas, dou nome a eles, respiro fundo… e fico ali. Estagnada no terceiro passo.

— Você não precisa vencer todos os dias — ele disse uma vez. — Só precisa tentar não fugir.

Tentar não fugir. Às vezes, levantar da cama já é isso.

Depois da sessão, volto pro quarto. O sol da tarde entra pela janela, riscando o chão com listras quentes. Fico olhando aquilo por um tempo, pensando na palavra ação.
Aja apesar do medo.

Será que ir à festa da Lumar, daqui a algumas semanas, pode ser isso? Uma pequena ação? Um gesto de coragem?

Ainda não sei. Mas pensar nisso me faz respirar diferente.

E por hoje, talvez, isso seja o bastante.

Mais tarde, abro o notebook. A tela ilumina o quarto escurecido, e entro novamente no site da Amazon. Minha lista de buscas é confusa: colares com pingentes de estrela, livros de poesia, luminárias em forma de lua, pulseiras com frases clichês. Nada parece suficiente. Nada parece Lumar.

Quero algo que diga o que eu não consigo dizer. Algo que diga você me atravessa inteira sem usar essas palavras. Algo que seja bonito como ela — mas bonito de um jeito secreto, silencioso, como um bilhete guardado entre as páginas de um livro.

Mas como transformar isso em presente?

Digito “presentes para garotas misteriosas” e depois apago. “Presentes que dizem o que sinto por alguém” — também apago. Tudo soa bobo. E ela não é boba.
Lumar é como um fantasma. Inalcançável, mas presente demais.

Fecho os olhos por um instante e penso:
Se fosse uma história, o que a personagem daria para a outra?

Talvez um livro. Não qualquer livro. Um com frases sublinhadas, anotações nas margens, dobraduras nas páginas que mais doem. Um livro com um bilhete escondido lá dentro.

Volto à busca. Penso em Clarice. Penso em Dickinson. Machado não. Machado é meu.

Mas ainda não escolho. Ainda não consigo.

Porque, talvez, o que eu quero mesmo dar não se vende.
O que eu quero dar é tudo o que não sei como dizer.

Fecho o notebook e me viro lentamente até o criado-mudo. Abro a gaveta de cima.
Ali, repousa o canivete da Lumar.

Ela esqueceu no dia em que invadiu meu quarto — e, sem pedir licença, revirou meu mundo. Não consigo esquecer o jeito como me olhou. Aqueles olhos…
Mesmo fugindo, ainda brilhavam.
Como se dissessem: “eu volto”, mesmo quando o corpo dizia: “não posso ficar”.
Quando foi embora, ao amanhecer, deixou o canivete ali. Sobre a cama.Perto o bastante pra que eu não precisasse me mover. Como se soubesse que, dali em diante, qualquer movimento custaria demais.

Guardei como quem esconde um segredo.
Como quem protege uma parte de alguém que talvez nunca volte exatamente igual.

Como quem segura um fragmento de um instante que já começou a desaparecer.

É pequeno, prateado, com detalhes gravados na lâmina — uma flor quase apagada, talvez um hibisco. Toquei o metal frio com a ponta dos dedos, devagar. Não sei se ela deu falta. Não sei se lembrar disso faria com que voltasse. Mas ali, na gaveta, ele descansa ao lado do diário que minha mãe me deu no meu último aniversário com ela.

A capa do diário é azul-marinho, de tecido, com uma fita para amarrar. Escrevi pouco nele — tenho medo de manchar com as palavras o que ela me deu com tanto amor. Mas às vezes abro só pra sentir o cheiro do papel, como se ali ainda morasse um pouco da voz dela.

As duas coisas estão lado a lado: o diário e o canivete. Uma herança de amor, outra de presença.

Fico alguns minutos olhando a gaveta ainda entreaberta. O silêncio do quarto é tão espesso que parece uma presença. Penso no meu passado e em como tudo tem peso agora: sair de casa, cruzar a praça, olhar nos olho de quem se ama. Antes, as coisas só aconteciam — agora, cada gesto exige escolha, preparo, quase um rito.

O tempo também pesa. Os dias se arrastam entre o que ainda dói e o que ainda não chegou. Mas, de vez em quando, alguma coisa dentro de mim se move, como se uma parte esquecida espreguiçasse devagar. É pequena, quase imperceptível, mas é algo. Uma semente de vontade. Um início.

Talvez o que eu sinto por Lumar não seja apenas um sentimento pequeno . Talvez seja memória de algo que ainda nem aconteceu. Uma saudade futura. Uma falta inventada. Um desejo de permanecer onde ela encosta.

Fecho a gaveta devagar.
Respiro.

Talvez, no fundo, o presente já exista. Só falta coragem para entregá-lo.

                         
                             Continua....

Eu Sou SoLOnde histórias criam vida. Descubra agora