Eu Sou SoL
O Natal começa como sempre,a cidade coberta de luzes, o cheiro doce de rabanada escapando pelas janelas e o som distante dos sinos da igreja.
É a minha primeira vez sem meus pais.
Nunca fazíamos ceia, sempre viajávamos para a casa dos meus avós maternos — a única data que realmente celebrávamos juntos.
Mas hoje eles não se fazem tão presentes.
Acredito que tenham dificuldade em me olhar, de me verem em uma cadeira... em ver , na neta, o rosto da filha morta refletido.
Eu entendo. Às vezes, nem eu mesma suporto o espelho, por tamanha semelhança que tenho com ela. Mas entender não significa que não doa.
Eu também sinto falta deles.
Desejo, de coração, que um dia percebam que eu ainda sou a neta deles — e que ainda os amo.
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— Bom dia, meu amor — diz meu tio, entrando no quarto com duas xícaras, uma de café e outra de chá. São 8h30.
— Bom dia, tio… por que me acordou tão cedo?
Ele se senta na minha cadeira de rodas, como quem ignora o limite entre o que é dele e o que é meu.
— Vou levar seus avós à igreja. Hoje é dia de distribuir marmitas. Não quer vir conosco? Achei que você já tivesse superado o medo de andar de carro.
— Não faço muita questão — digo, ainda sonolenta. — Prefiro ficar aqui. Não sei como poderia ser útil pra eles.
Dou um gole no chá e imediatamente cuspo de volta na xícara.
— É chá de boldo — ele ri. — Não gosta? Quis surpreender seu paladar logo cedo. Seu pai fazia isso comigo no Natal, antes da gente sair pra beber todas.
— Vocês não faziam ceia? Só saíam o dia inteiro e voltavam pra comer? — pergunto, curiosa.
— Seus avós cuidavam de tudo. Eu e o Gio ficávamos em casa… e a gente se divertia pra caramba — ele pausa, a voz embargada. — Sinto tanta saudade do meu irmão.
— Podemos fazer alguma coisa, se o senhor quiser. Desde que não envolva bebidas alcoólicas — digo, num tom mais de lamento do que de convite.
— Não sou bom cozinheiro — responde com um meio sorriso. — Mas podemos assistir uns filmes ruins de Natal e pedir lanche. Você chama a Lumar, eu chamo o Lions. Vocês assistem, e eu e ele fazemos coisas de homem.
— Coisas de homem? — pergunto, arqueando a sobrancelha. — E eles não vão querer passar o Natal com a família?
— Não acho que o Lions prefira os pais a você. Ele tem uma queda imensa por você — ele diz, tentando me medir pelo olhar.
— Mas eu não sinto nada por ele. Já deixei isso claro. Então, se ele vier, é porque o senhor chamou — aponto pra ele.
— E a Lumar? Ela viria por quê? Porque é sua melhor amiga... ou tem algo a mais?
Ele está cavando um buraco. Eu só não sei se é pra mim ou pra ele mesmo.
— Temos uma boa amizade. Ela tem me ajudado a enfrentar algumas turbulências.
— Minha sobrinha, a cidade fala. Mato tem olho, parede tem ouvido. Não minta pra mim.
Definitivamente, ele sabe de algo.
— Acho melhor você se afastar dela — continua. — Tem boatos… dizem que ela é... — ele pausa, como se cuspisse algo podre. — Dizem que ela é sapatão. Se seus avós descobrirem que deixei esse tipo de gente frequentar nossa casa, eles me matam. E matam você também.
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Eu Sou SoL
RomanceSoL, uma jovem de 17 anos, tornou-se paraplégica aos 16 e, desde então, encontra refúgio em seu quarto, isolando-se do mundo exterior. A ausência de afeto romântico e a inexperiência de um primeiro beijo pesam sobre ela. No entanto, o destino reserv...
