Capítulo 23- Um passo Além.
Tudo o que eu conhecia estava ficando para trás de novo. É como se eu fosse feita de despedidas. Obedeço ao pedido do meu nono, mas mergulhar no desconhecido mais uma vez está sendo cansativo demais.
Cabeça colada no vidro da janela do quarto. Sinto o toque frio contra a testa. Uma pergunta insiste, martela: o que estou fazendo aqui?
— Aqui é o único lugar que talvez me faça andar de novo — a voz dentro de mim responde, quase gritando.
Respiro devagar. Cada inspiração pesa. Cada expiração demora mais do que deveria. Os dias passam lentos demais. Não ouso desfazer as malas. Meu corpo está aqui, presente, mas meu coração ainda está lá, preso a Salinas e à sua brisa. Eu queria não ter que perder alguma coisa apenas para realizar um sonho. Queria que fosse possível avançar sem abandonar nada pelo caminho.
À minha frente, um campo vasto. Uma piscina redonda. Plantas artificiais ocupam alguns espaços vazios — tentam, como eu, parecer vivas. Mas sei que nenhuma de nós consegue realmente.
Minha mão toca o braço da cadeira. O couro range levemente. Seguro-me em qualquer coisa que me dê a ilusão de estabilidade, que não me deixe cair — mesmo sabendo que já estou no chão há muito tempo.
Lumar cumpriu a promessa. Ligou. Mandou mensagens todos os dias. E eu cumpri a minha: respondi todas as mensagens, atendi todas as ligações.
“Amor, se você quiser fugir, é só dizer… eu pego o primeiro voo e fujo contigo, sem nem piscar.”
Ouvir essa mensagem me fez rir. Ela nunca ousou me pedir para ficar, mas sempre se apresentava disposta a fugir comigo.
Existem quatro porta-retratos com o rosto da minha mãe espalhados pelo quarto. É irônico. Há poucos dias eu ainda dormia no antigo quarto do meu pai; agora ocupo o antigo quarto dela. Talvez seja a forma deles me lembrarem que ainda estão comigo.
Essa presença não preenche o vazio, mas me dá coragem. Coragem suficiente para desfazer as malas. E, quando começo, entendo: agora não tem mais volta.
Retiro os livros dos meus pais da mala. Cada um pesa mais do que deveria. Não pelo papel, mas pelo que carrega. Arrumo-os em uma estante chique demais para eles. Livros velhos, páginas gastas, marcadas por digitais de pessoas que já não existem.
Meu corpo se curva. Cada gesto é lento, quase ritual. Cada livro encaixado é um esforço silencioso para me prender ao mundo, para não flutuar para longe de mim mesma.
Este quarto é diferente. Grande demais para alguém como eu, que aprendeu a ocupar pouco espaço. As paredes são amarelas. A cama parece boa. Tudo respira riqueza — e eu me sinto pequena, deslocada, quase indevida ali.
Os prédios altos ignoram meus pensamentos. Disputam espaço com o céu. Não há calma. São Paulo é cinza, mas ainda há arte nos muros. Música atravessa as ruas, mesmo quando as pessoas caminham como se cada passo fosse apressado demais para sentir.
O ar aqui não tem gosto de sal. Tem gosto de gasolina e de chuva que evapora rápido demais no asfalto quente. Às vezes sinto cheiro de café vindo de alguma casa próxima, misturado com fumaça de ônibus. Nada é puro. Tudo é mistura.
As janelas dos prédios refletem o céu como se quisessem roubá-lo. Não há horizonte. Só concreto empilhado, disputando espaço com nuvens cansadas. Em Salinas, o vento tocava meu rosto como se soubesse meu nome. Aqui o ar passa por mim sem pedir licença — pesado, apressado, indiferente.
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Eu Sou SoL
RomanceSoL, uma jovem de 17 anos, tornou-se paraplégica aos 16 e, desde então, encontra refúgio em seu quarto, isolando-se do mundo exterior. A ausência de afeto romântico e a inexperiência de um primeiro beijo pesam sobre ela. No entanto, o destino reserv...
