A tempestade que nos arrasta...

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Eu Sou SoL.               Capítulo 20

Os raios de sol atravessavam a janela… um lembrete gentil de que o dia já tinha começado e de que nós havíamos dormido demais. A luz entrava devagar, espalhando um brilho quente pelo quarto, e eu podia ver as partículas de poeira suspensas no ar — pequenas faíscas douradas que dançavam como se celebrassem algum segredo nosso. O sol tocava minha pele com um calor suave, quase tímido, e, quando escorregava pela cama, iluminava o rosto dela de um jeito que fazia tudo parecer mais delicado. O contorno da boca, o desenho das pálpebras, a respiração lenta… tudo brilhava como se o próprio dia estivesse tentando memorizar a Lumar também.

O cheiro de café e chá subiam pelo ar, invadindo minhas narinas como um aviso claro de que o resto da casa já estava de pé. Ainda assim, não tive pressa em despertá-la. Pela primeira vez, eu não queria que ela saísse às pressas.

Enquanto ela dormia na minha cama, deixei meus olhos percorrerem cada detalhe do rosto dela. Toquei sua pele com a ponta dos dedos, como se pudesse gravar minhas digitais ali para sempre. E, nesse gesto pequeno, um futuro inteiro se desenhou na minha mente.

Pensei em todas as possibilidades e se hoje fosse o dia em que eu finalmente a apresentasse como minha namorada? A minha família chamaria ela para o café da manhã? Eles aceitariam o que somos? Meu tio deixaria o preconceito de lado o suficiente para chamá-la de sobrinha? E se eu contasse que me entreguei para ela... será que fariam aquela coisa antiga dos anos 30 e nos obrigariam a casar? Ou isso só vale quando é um homem com uma mulher?

— O que você tanto pensa? — pergunta a pessoa ao meu lado, com a voz rouca de quem acabou de acordar.

Ela abriu os olhos, e eu nem percebi... meu devaneio se desfaz.

— Estava pensando em nós... no que vai ser daqui pra frente. Não dá mais pra andar por aí fingindo que somos só amigas. Não depois de ontem — confesso.

Enquanto digo isso, sinto o ar no quarto mudar. Como se o próprio silêncio prestasse atenção.
Meu peito aperta um pouco — não de dor, mas daquela coragem que chega tremendo, pedindo espaço devagar.
E ela ali, tão próxima… tão real… tão minha de um jeito que eu ainda não sei como segurar.

Ela não muda de expressão. Continua tranquila, serena... a Lumar não vai fugir, não é? Eu a afastei tantas vezes, e mesmo assim ela encontrou um motivo pra ficar. Se eu disser que enfrento o mundo por nós duas, sei que ela também enfrentará.

O jeito que ela me olha… é como se o tempo desse um passo para trás só pra vê-la melhor.
A luz do sol toca o rosto dela, repousa na curva da bochecha e deixa um brilho quente no canto dos olhos.
A respiração dela é tão calma que parece contrariar tudo dentro de mim.

— Só depende de você — diz ela, com aquele jeito seguro que me desmonta. — Tudo no seu tempo, amor. Se estiver pronta pra se assumir, eu tô contigo. Mas se ainda não quiser... a gente dá um jeito de ficar juntas mesmo assim. Tô contigo e não abro.

A palavra amor sai da boca dela como algo que paira no ar, quase visível.
Ela me abraça forte antes de levantar e começar a vestir a roupa.
Sinto o calor do corpo dela partir aos poucos, como se a cama guardasse um pouco do abraço para mim.

— Eu sei... — solto o ar devagar. — Eu sempre digo que vou falar, mas parece que nunca é o momento certo. Sempre que olho pros meus avós, as palavras somem da minha boca.

Eu Sou SoLOnde histórias criam vida. Descubra agora