Cabra Cabrês

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Há muito tempo atrás, em uma toca no meio de um matagal, vivia um coelho.
Certa manhã, o coelho resolveu sair para colher algumas cenouras que cresciam em uma campina próxima. Ao voltar, carregando um saco cheio de cenouras sobre as costas, tentou entrar em sua toca e ficou surpreso ao notar que a porta estava trancada. Tentou abrir a porta novamente, e nada.
"Puxa, vida... será que alguém entrou em minha casa?" - pensou o coelho, preocupado.

Sem outra opção, o coelho bateu à porta para ver se havia mesmo alguém ali dentro. E ficou aterrorizado ao ouvir uma voz cavernosa responder:
- Quem é que veio me incomodar?!
- D-desculpe... - gaguejou o pobre coelho, com medo. - É q-que esta é minha casa...
- Pois agora é minha! - irrompeu a estranha voz, com ferocidade. - Vá embora já, que eu sou o Cabra Cabrês, e de um coelho faço três!

Tremendo de pavor, o coelhinho largou ali mesmo suas cenouras e correu para longe. Após recuperar a calma, foi até um sítio próximo, às pressas, onde encontrou seu amigo bode pastando tranquilamente. Ao vê-lo chegar, o bode o saudou, preocupado:
- Bom dia, amigo coelho! Você parece um tanto assustado hoje... o que foi que aconteceu?
- Estou em apuros, amigo bode! - começou o coelho, ainda bastante abalado. - Voltei para casa hoje e descobri que ela foi tomada por um tal de Cabra Cabrês! Então vim perguntar se, por acaso, você é parente dele. Pois se for, talvez pudesse convencê-lo a ir embora!
- Cabra Cabrês? - estranhou o bode. - Nunca ouvi esse nome antes. Mas não se preocupe, coelho. Pela nossa amizade, vou ver o que posso fazer para ajudar!

Dito isso, o bode foi até a toca do amigo e bateu à porta.
- Quem é que veio me incomodar?! - urrou novamente o ser lá dentro.
- Eu... eu sou amigo do coelho que mora aqui... - começou o bode, intimidado pela voz do invasor. - E queria saber se...
- Vá embora já, seu miserável! - interrompeu o invasor, com ferocidade. - Pois eu sou o Cabra Cabrês, e de um bode faço três!

Tão assustado quanto o coelho ficara, o bode trotou para longe dali, balindo de medo.

Mais preocupado ainda, o coelho foi ter com o cachorro, que descansava na varanda da casa de seu dono. Ao ouvir a história, o corajoso cão se prontificou a ajudar e marchou até a toca do coelho. Chegando lá, ordenou:
- Esta casa é de meu amigo coelho! Vá embora daqui agora mesmo!
- Vá embora, você, seu safado! - retrucou o vilão, lá de dentro. - Pois eu sou o Cabra Cabrês, e de um cachorro faço três!

Ao escutar aquela voz pavorosa, o cachorro ganiu e fugiu dali com o rabo entre as pernas.

Em desespero, o coelho pediu ajuda a vários animais. Contudo, nenhum conseguiu solucionar o problema. O porco, o cavalo, o boi, o gato e todos os outros amigos que tentaram ajudar acabaram afugentados pela voz horrorosa do Cabra Cabrês.

Alguns até sugeriram que o coelho pedisse ajuda a algum animal selvagem que pudesse dar cabo da medonha criatura na toca, como o lobo ou o urso. No entanto, o coelho teve medo de acabar virando comida de algum destes em seguida.

Sem mais esperança alguma, o coelho se sentou sob a sombra de uma árvore e murmurou, choramingando:
- E agora? Com aquele monstro em minha toca, onde poderei viver?

Foi então que ele escutou uma vozinha bem aguda lhe falar:
- Não desanime, amigo! Eu posso ajudar!

Assustado, o coelho olhou ao redor, porém não viu ninguém.
- Aqui! Em cima da flor à sua frente! - chamou aquela vozinha.

Ao olhar para a frente, o coelho notou, sobre a flor, um pequeno mosquito.
- Olá, senhor mosquito! - cumprimentou o coelho. - O senhor sabe mesmo como me ajudar?
- Pode apostar que sei, meu caro! - assegurou o inseto, sorridente. - Este Cabra Cabrês não é de nada! Já ouvi falar das maldades dele! Mas ele não é tão forte como diz ser!

O coelho não se animou tanto a princípio. Afinal, se nem mesmo animais grandes e fortes haviam sido páreos para o malvado em sua toca, como é que aquele bichinho minúsculo poderia ajudar?

Mesmo assim, como não tinha outra solução em mente, aceitou levar o mosquito até sua toca. Chegando lá, o mosquito voou até a entrada e pousou no batente da porta. Em seguida, exclamou com toda a força que tinha:
- Esta casa é do senhor coelho! Vá embora daqui antes que eu me irrite!

Ao ouvir aquela vozinha tão aguda dizer aquilo, o Cabra Cabrês até deixou escapar uma gargalhada. Em seguida, urrou:
- Voe para longe, mosquitinho atrevido! Pois eu sou o Cabra Cabrês, e de um mosquito faço três!
- Vamos ver se você consegue me pegar, então! - desafiou o mosquito, rindo do monstro.

Dito isso, o mosquito voou através da fechadura da porta e adentrou o recinto. Em seguida, começou a zunir em volta do monstro lá dentro, que começou a ficar irritado, vociferando:
- Ora, seu pestinha! Eu já não disse para me deixar em paz?!
- Tente me fazer em três, se é que você consegue mesmo! - alfinetou o insetinho, se divertindo.

Ao ouvir aquela afronta, o Cabrês ficou mais zangado ainda. No entanto, não conseguia apanhar o oponente de jeito nenhum, de tão pequeno e ágil que este era.

Foi aí que o mosquito investiu sobre o inimigo e lhe aplicou uma forte picada bem no traseiro.

Os urros de dor do monstro foram ouvidos por toda a região. Do lado de fora da toca, o coelho deu até um pulo de susto. Em seguida, a porta se escancarou, e de lá de dentro, saiu Cabra Cabrês, correndo.

E qual não foi a surpresa do coelho ao ver que o vilão era na verdade, uma criaturinha miúda e cor-de-rosa com dois chifres na cabeça, pouco maior que o próprio coelho. Sua aparência em nada lembrava sua voz pavorosa.

Ainda berrando de dor devido à ferroada que levara, Cabra Cabrês partiu dali em disparada, arrastando seu traseiro no chão, tentando aliviar o ardor da picada.

Daquele dia em diante, o coelho e o mosquito se tornaram grandes amigos, e todos na região aprenderam que, muitas vezes, alguém não é bem quem diz ou parece ser.

FIM

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