Capítulo 35

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Enrico Niccolo

04 de abril

Madison e eu comemos as pizzas. Eu comi duas fatias da pizza portuguesa, quatro fatias de pizza calabresa e duas fatias de pizza de chocolate. Ela comeu uma fatia e meia de pizza portuguesa, com muita dificuldade, meia fatia de pizza calabresa e uma fatia de pizza de chocolate. O que me deixou muito feliz, já que geralmente, ela mal come.

Madison adorou o suco que eu comprei para ela. Ela tomou mais da metade da bebida, o que me deixou ainda mais feliz.

Agora, estamos deitados na minha cama. Eu estou deitado com a barriga para cima e Madison está deitada ao meu lado, com o corpo virado na minha direção. Ela está com a cabeça em meu peitoral, e sua mão apoiada em minha barriga.

Meu braço direito está passando pelas suas costas e minha mão está na curvatura da sua bela cintura. A minha mão esquerda está pousada em cima da minha barriga, próxima à mão de Madison.

O nosso silêncio é confortável, até que eu o quebro; retomando o assunto de hoje de manhã.

- Começou antes de eu nascer. - Eu começo a falar, e Madison vira a cabeça, para poder me olhar. - Eu era gêmeo. No ventre da minha genitora havia eu e mais um bebê. Era uma menina, Hellena, que sempre foi o sonho da minha genitora. O problema começou quando a minha gêmea morreu, ainda no ventre. No quarto mês de gestação, ocorreu a síndrome do gêmeo desaparecido. A minha possível irmã tinha trissomia do cromossomo dezesseis. Sabe o que é? - Madison balança a cabeça, negativamente. - É uma condição genética, em que ela tinha três cópias do cromossomo dezesseis, que fez com que ela parasse de se desenvolver. Por fim, o corpo da minha genitora reabsorveu o tecido fetal e o saco gestacional. Isso destruiu ela. Como ela não me queria, já que, para ela, por culpa minha a filha que ela tanto sonhou morreu, ela se jogou de uma escada, fazendo questão de bater a sua barriga no chão inúmeras vezes, para tentar me matar. - Digo com a voz fraca. - Nem eu mesmo sei como fiquei vivo depois daquilo, mas eu sobrevivi. Durante o resto da gravidez, meu pai não saiu do lado dela, nem por um segundo, por medo do que ela pudesse fazer comigo e consigo mesma, e, com ajuda psicológica, a gestação foi completada. Durante os meus primeiros quatro anos foi tudo quase maravilhoso, mas depois que completei meus cinco anos, as coisas viraram um inferno para mim. - Uma lágrima escorreu pela minha bochecha, e a Madison a secou, em seguida, deixando um beijo longo no canto do meu olho, onde a lágrima tinha passado, me fazendo fechar os olhos.

- Quer parar por aqui? - Ela me pergunta, e só agora olho no rosto dela.

O seu olhar grita por preocupação.

- Não, eu quero continuar. - Respiro fundo. - O meu pai passava alguns dias fora de casa, por conta de viagens de trabalho, e ela aproveitava esses dias para me bater. Sem nenhum motivo. E quando meu pai estava em casa e queria ficar na piscina comigo, eu tinha que negar, dizer que não queria e não gostava, se não, ele veria os hematomas e descobriria o que ela fazia. - Sinto um gosto salgado em minha boca, e, só então, percebo que algumas lágrimas voltaram a escorrer pelo meu rosto. Mas não me importo com elas. - Ela me chantageava emocionalmente. Dizia que, se eu contasse ou mostrasse algo para o meu pai, ele iria ficar decepcionado comigo, iria me bater, junto com ela, iria nos abandonar e eu nunca mais iria o ver. - Só de lembrar, travei levemente o meu maxilar.

- Isso é terrível! Que tipo de mãe é essa!?- Ela deixa escapar, com os olhos cheios de lágrimas. Quando percebe, arregala os olhos e cobre a boca com as mãos. - Me desculpa, Enri! - Pede, depois de tirar as mãos de sua boca.

Sorrio levemente, para tranquilizá-la.

- Sem problemas. Hoje em dia, eu não a considero como minha mãe, mas foi difícil para uma criança de sete anos entender que aquilo não era uma mãe.

Mia SoleOnde histórias criam vida. Descubra agora