Isabel POV
Nick ainda lutava com Scanor um pouco mais à frente, golpes secos, precisos, dois predadores medindo forças. Eu mal conseguia tirar os olhos de Pietro. Ele estava parado, firme, a arma ainda jogada a alguns metros, como se não precisasse dela.
A tensão entre nós era quase palpável.
Ele respirava com calma, enquanto eu sentia meu coração bater no ritmo da dor.
— Vai continuar só me olhando? — provoquei, com a voz rouca.
Ele não respondeu. Apenas se moveu.
Rápido demais.
O primeiro golpe veio de surpresa. Um soco direto que quase atingiu meu rosto; desviei por instinto, girei o corpo e tentei contra-atacar com um chute baixo. Ele recuou com facilidade, como se previsse cada movimento meu.
— Rápida — disse ele, com a voz firme, quase sem emoção.
— E você fala demais. — Sorri, mas o sangue que escorreu do canto da boca tirou um pouco do efeito.
Avancei de novo, determinada. Ele bloqueou cada ataque meu com uma precisão irritante, como se a luta fosse apenas um treino pra ele. O som dos golpes, o estalo seco de impacto, o eco dos passos sobre o concreto molhado, tudo se misturava à chuva fina que começava a cair com mais força.
Meu corpo doía. O ombro queimava onde ele havia acertado antes. Mesmo assim, continuei.
Um golpe, dois, três. Nenhum realmente o atingiu.
Pietro desviava, bloqueava, contra-atacava.
O punho dele acertou meu abdômen e o ar escapou dos meus pulmões num gemido dolorido. Cambaleei pra trás, mas ele não esperou. Um chute lateral me acertou no torso e me jogou contra a parede. A dor explodiu, intensa, e por um instante tudo ficou embaçado.
Mas eu ainda estava de pé.
— Você devia ter ficado fora disso — ele disse, se aproximando devagar.
Pietro pareceu conter um suspiro. Aproximou-se mais.
Levantei o olhar, ofegante, e vi o rosto dele de perto, o olhar frio, mas não vazio. Tinha algo ali. Algo que ele tentava esconder.
Ele moveu o braço, e dessa vez o soco veio certeiro. Atingiu meu rosto de lado, e o impacto me fez ver tudo girar. O gosto metálico do sangue se espalhou pela boca. Cai de joelhos, o corpo sem força pra reagir.
A chuva caía mais forte agora, lavando parte do sangue que escorria pelo meu rosto.
— Acabou, Isabel — ele disse.
Mesmo sem forças, ergui a cabeça e o encarei. — Só acaba quando eu falar.
Ele hesitou por um segundo.
Talvez tivesse dito aquilo antes pra mim, em algum outro contexto.
O golpe seguinte foi o fim. Um chute no abdômen, forte o bastante pra me jogar no chão.
O corpo cedeu. A dor queimava por dentro, e o ar parecia não voltar.
Cai de lado, o rosto contra o concreto molhado. Vi as gotas de chuva formarem pequenos círculos na poça de sangue ao meu lado.
Tentei levantar, mas as pernas não responderam.
Tudo tremia.
Ao fundo, ouvi Nick gritar meu nome.
Tentei virar o rosto, e vi entre flashes de luz e sombras, ele enfrentando Scanor. Nick era rápido, mas Scanor, mesmo ferido, parecia movido por pura raiva.
Eles trocavam golpes brutais, e cada impacto fazia o chão vibrar.
Nick acertou um soco, Scanor respondeu com um chute. Por um segundo, achei que Nick fosse vencer. Mas Scanor era mais resistente do que parecia.
Um movimento em falso.
Um erro mínimo.
O punho de Scanor acertou Nick em cheio, no rosto. Ele cambaleou pra trás, atordoado, e Scanor aproveitou a brecha pra desferir outro golpe, um cruzado pesado que o fez cair.
— Nick! — tentei gritar, mas a voz saiu como um sussurro.
Nick ainda tentou se levantar, mas Pietro já estava ao lado de Scanor.
Vi quando ele agarrou o colarinho de Nick e o atingiu com um soco brutal.
Nick caiu de vez, desacordado.
O silêncio que veio depois foi o mais doloroso.
Apenas o som da chuva e o meu próprio coração batendo no peito.
Elleanor continuava caída, imóvel, o corpo frágil em meio à lama.
Pietro e Scanor trocaram um olhar rápido.
— Pegue ela — disse Scanor.
Senti mãos firmes me puxarem pelo braço. Meu corpo reagiu com dor, o sangue escorrendo quente pela lateral da cabeça. Tentei lutar, mas não consegui.
— Solta… — murmurei, mas o som morreu na garganta.
Fui arrastada. Cada passo era um golpe novo. O chão parecia girar.
A chuva caía mais forte, batendo no meu rosto, misturando-se ao sangue.
Nick estava caído no chão, a alguns metros.
O rosto coberto de lama, as mãos abertas, imóveis.
Ver ele assim fez algo dentro de mim se partir.
— Vamos logo, Pietro — rosnou Scanor. — Antes que apareça mais alguém.
Pietro não respondeu. Apenas me ergueu com força e continuou andando.
Mesmo machucada, eu sentia o jeito como ele me segurava, não era brutalidade. Era como se estivesse dividido entre me arrastar e me proteger.
Quando chegamos ao fim do beco, vi o carro preto esperando com o motor ligado. As portas traseiras abertas. Luzes distantes piscavam, talvez sirenes, talvez só relâmpagos.
— O que estão fazendo? — consegui perguntar, quase sem voz.
Scanor apenas riu. — O que sempre fazemos. Acabando o serviço.
Fui empurrada pro banco de trás. O impacto me fez gemer de dor.
O metal frio da porta bateu atrás de mim com força.
Antes de entrar no carro, Pietro olhou pra trás.
Por um instante, nossos olhos se encontraram.
Ele parecia... tenso.
Como se algo naquela cena também o ferisse.
Mas ele entrou, fechou a porta e o carro arrancou.
As luzes do beco ficaram pra trás, pequenas e distantes.
Nick e Elleanor continuavam lá, caídos, inconscientes, sob a chuva.
Tentei levantar a cabeça, mas meu corpo não obedecia.
O som do motor misturado ao da tempestade criava um zumbido constante.
Doía respirar, doía pensar.
Olhei para o vidro embaçado, vendo as luzes passarem em borrões.
Pietro estava no banco da frente, imóvel, o rosto iluminado pelo painel.
Não dizia nada.
Fechei os olhos por um instante, tentando conter a dor, mas as imagens voltavam, Nick caindo, Elleanor imóvel, o som dos golpes, o gosto de sangue.
Senti lágrimas quentes se misturarem à chuva no meu rosto.
Não era medo. Era raiva.
Raiva de mim por ter perdido.
Raiva deles por levarem tudo.
Ninguém naquele carro falou mais nada.
O silêncio era pesado, sufocante, e eu sabia que não importava pra onde estavam me levando, a partir daquele momento, eu não era mais apenas uma caçadora.
Eu era a presa.
Continua...
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RED ZONE
Fiksi PenggemarEm um mundo onde sombras se entrelaçam com a luz e segredos são a moeda mais valiosa, Isabel Romanov e Elleanor Nicolay se destacam. Unidas desde a infância por laços indestrutíveis, estas melhores amigas enfrentaram a vida lado a lado, forjando um...
