cap 24

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Elleanor POV

O som da chuva foi a primeira coisa que me atingiu.
Não o frio, não a dor... O som.
Pesado, constante, como se o céu inteiro desabasse em cima de nós.

Cada gota que caía parecia bater direto na minha pele rasgada.
A cabeça latejava, o gosto de sangue amargo preenchia a boca, e por um instante, não consegui entender onde eu estava.
Tudo era borrado, luzes, sombras, o cheiro de pólvora e ferrugem no ar.

Tentei mover o braço, e um gemido escapou antes que eu conseguisse conter.
Foi aí que ouvi uma respiração do meu lado.
Irregular. Fraca.
- ...Nick?

Demorou alguns segundos até ele responder, a voz rouca, distante:
- Elleanor... tô aqui.

Arrastei o corpo na direção dele. O chão do beco estava encharcado, frio, misturado com sangue e lama. Quando cheguei perto, o vi tentando se erguer, as mãos trêmulas, o rosto coberto de ferimentos.

- Não se mexe - falei, a voz falhando. - Você tá machucado.

- E você não? - ele tentou rir, mas virou tosse. - A gente parece um desastre.

A palavra ecoou dentro de mim.
Desastre. Era exatamente o que aquilo era.

Olhei em volta, os corpos caídos, as marcas de tiro nas paredes, o cheiro de fumaça ainda recente.
Mas o que me deixou sem ar não foi nada disso.
Foi o vazio.

Ela não estava ali.

- Isabel... - o nome saiu num sussurro, quase uma oração. - Cadê ela?

Nick fechou os olhos por um instante, o maxilar trincando.
- Levaram.

Meu corpo inteiro gelou.
Levaram.
As palavras se repetiram na minha mente como uma sentença.

Me ajoelhei no chão, ignorando a dor, o corpo tremendo, o coração batendo tão forte que parecia querer rasgar o peito. A imagem dela veio de novo, Isabel caindo, o olhar confuso, o sangue se misturando à chuva. E eu... eu não consegui impedir.

- Pietro tava com eles - Nick continuou, a voz falha. - Acho que foi ele quem mandou.

Por um instante, tudo sumiu. Som, frio, chuva, nada mais existia. Só a fúria crescendo dentro de mim, quente, viva.
A raiva de ter deixado acontecer.
A culpa de ainda estar viva enquanto ela...

Fechei os olhos, respirei fundo, e deixei que a dor virasse foco.
Ela não ia morrer.
Não Isabel.

- A gente precisa achá-la - falei, firme, mesmo com a voz trêmula. - Agora.

Nick assentiu, respirando com dificuldade.
- Antes que ele faça o que sempre faz.

Sabíamos o que isso significava.
Scanor não torturava corpos, ele desmontava pessoas. Parte por parte, até não sobrar nada.

O vento cortava a pele, e a chuva lavava o sangue, mas nada limpava o peso que grudava em mim.
Apertei a mão de Nick, e por um momento, só existimos ali, dois sobreviventes no meio daquele inferno.

- Ela tá viva - sussurrei, mais pra me convencer do que pra ele. - E enquanto eu respirar, eu juro... ninguém toca nela de novo.

O chão parecia girar.
Cada vez que eu tentava me levantar, o mundo escurecia nas bordas, e o sangue escorria quente pelas costas da minha mão. Mas eu não podia parar.

- Vem, Nick - murmurei, passando o braço dele por cima do meu ombro. - A gente precisa sair daqui.

Ele gemeu baixo, o corpo pesando contra o meu. Estava fraco, cada passo arrastado como se o chão puxasse ele de volta. O rosto dele estava pálido demais, e o sangue manchava o lado da camisa.

- Deixa eu... - ele tentou falar, tossindo logo em seguida. - Eu consigo.

- Cala a boca - interrompi, apertando mais firme a cintura dele. - Só anda.

A chuva batia com força, e o som dos trovões abafava nossos passos. O beco era estreito, as luzes piscando, o cheiro de gasolina e ferrugem grudado no ar. Cada esquina parecia um labirinto, e a qualquer momento eu esperava ver alguém sair das sombras.

O coração batia rápido demais, o medo empurrando a dor pra longe.

Quando finalmente alcançamos a rua principal, o carro ainda estava lá, inclinado, o vidro quebrado, faróis apagados. Parecia morto, mas era nossa única chance.

- Quase lá, Nick... só mais um pouco.

Ele tropeçou, e eu o segurei com força, sentindo o peso dele quase me derrubar junto.
Meu corpo gritava pra parar, mas a cabeça não deixava. Eu só via a imagem da Isabel, o olhar dela antes de sumir. Era isso que me mantinha de pé.

Chegamos até o carro. Abri a porta com um empurrão, o som metálico ecoando alto demais.
- Entra.

- Você vai... - ele tentou argumentar, mas eu o empurrei pro banco. - Entra logo, Nick!

Ele cedeu, exausto. As mãos tremiam, e o sangue escorria pela lateral do corpo.
Corri pro outro lado, abrindo a porta do motorista. O assento estava molhado, frio, e o cheiro de fumaça ainda impregnava tudo.

Girei a chave.
Nada.

De novo.
O motor engasgou, tossiu, morreu.

- Vamos, por favor... - sussurrei, batendo no volante.

Na terceira tentativa, o carro deu um estalo e ligou. Um barulho feio, mas vivo.
Suspirei, aliviada, e olhei pra Nick. Ele mal conseguia manter os olhos abertos.

- Aguenta firme - pedi, acelerando. - Eu prometo que vou tirar a gente daqui.

A chuva batia no vidro, as luzes da cidade passavam borradas. O volante tremia nas minhas mãos, e o sangue escorria do corte no meu braço, pingando no tecido do banco.

Tudo doía.
Mas a dor era o que me mantinha desperta.

Enquanto dirigia, uma única imagem não saía da minha mente: o olhar da Isabel antes de ser levada.
E a voz dela, firme, mesmo machucada.

Você devia ter terminado o trabalho.

Pietro não tinha terminado.
Mas eu ia.

Continua...

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