cap 25

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Elleanor POV

O silêncio da casa era quase ensurdecedor.
Depois de tanto barulho, tiros, chuva e gritos, o som da respiração do Nick parecia alto demais.
Cada passo que eu dava deixava um rastro de sangue no chão, misturado à água da rua.

- Senta aí - murmurei, puxando uma cadeira pra ele.

Ele obedeceu, sem discutir, o rosto pálido, os olhos pesados. A camisa grudava no corpo, manchada de sangue seco. Peguei a maleta de primeiros socorros que ficava no armário, uma velha companheira de guerra, e tentei não pensar em nada.

As mãos tremiam, mas continuei. Limpei o corte no ombro dele, o som do álcool queimando o silêncio.

- Ahn - ele prendeu o ar, os dedos apertando a borda da mesa. - Pega leve, Elleanor.

- Se eu pegar leve, você morre. - A voz saiu fria, automática. - Então fica quieto.

Por um instante, ele só me olhou. Aquele olhar que dizia tudo o que ele não falava: medo, dor... e o que vinha depois disso.
Quando terminei, ele pegou o pano da minha mão.
- Agora é minha vez.

- Tô bem. - Menti.

Mas ele já puxava minha manga, revelando o corte profundo no braço. O sangue escuro, a pele aberta.
- Isso não parece "bem".

O toque dele era cuidadoso demais.
Nick sempre tentava disfarçar o quanto se importava, mas ali, com as mãos trêmulas tentando limpar meu ferimento, era impossível esconder.

Por um instante, deixei.
Deixei o silêncio tomar conta, o som da chuva lá fora servindo de fundo.

Até que a realidade voltou, cruel.

- O plano falhou. - As palavras escaparam antes que eu conseguisse segurar.

Nick parou de cuidar do ferimento, o pano ainda nas mãos.
- A gente ainda pode dar um jeito.

- Pode? - levantei os olhos pra ele. - Isabel foi levada, metade da equipe tá morta, e Scanor tá solto. Quer me dizer onde é que "a gente pode dar um jeito"?

Ele desviou o olhar, apertando o pano nas mãos, mas não respondeu.

A dor latejava no braço, mas o incômodo era pequeno perto do que fervia dentro da cabeça. O corpo queria descanso, mas a mente só conseguia girar em volta de um nome: Leonid.

O contratante.
O homem que nunca aceitava falhas.

- Ele vai saber, Elleanor - Nick disse, a voz baixa. - Mais cedo ou mais tarde, vai saber.

Respirei fundo, apoiando o cotovelo na mesa, os olhos fixos no chão.
- Eu sei. - Murmurei. - Só não sei se é melhor contar... ou desaparecer antes que ele descubra.

Silêncio.
O tipo de silêncio que pesa no ar, que parece ter som próprio.

Nick se aproximou, a mão dele parando sobre a minha.
- Você não é do tipo que foge.

Eu o encarei por um momento. Quis acreditar nisso.
Mas a imagem de Isabel sendo levada me atravessou como uma lâmina.

- Não é sobre fugir - sussurrei. - É sobre o que ele vai fazer quando descobrir que a gente perdeu alguém que ele precisava viva.

Nick apertou minha mão, firme, o olhar cansado, mas decidido.
- Então a gente não perdeu. Ainda não.

As palavras dele ficaram ali, pairando no ar, aquecendo algo dentro de mim que eu achava que tinha morrido junto com aquele beco.

Suspirei, tentando forçar um sorriso cansado.
- Amanhã cedo a gente começa a procurar. Mas hoje...
Peguei o pano de volta e continuei limpando o corte no braço, como se o simples ato de cuidar de algo me mantivesse sã.
- Hoje a gente só tenta sobreviver.

A noite se arrastava como um eco.
A chuva tinha parado há horas, mas o som ainda parecia preso dentro da minha cabeça.
Cada vez que o vento batia na janela, eu sentia o corpo inteiro reagir , como se esperasse o próximo tiro, o próximo passo, o próximo desastre.

Nick dormia no sofá, o corpo coberto por um lençol manchado de sangue e remendos de fita. A respiração dele era pesada, irregular, mas viva. Isso era o que importava.
Por enquanto.

Eu fiquei ali, sentada na mesa, com uma caneca de café frio nas mãos.
O relógio marcava quase quatro da manhã.
E eu ainda não tinha coragem de encarar o celular sobre a mesa.

A tela apagada parecia me desafiar.
Leonid.
O nome que eu evitava pensar desde o beco.
Se eu ligasse agora, ele não gritaria. Leonid nunca gritava.
Ele só olhava.
E quando ele olhava, você sabia que algo, ou alguém, estava prestes a sumir do mapa.

A responsabilidade era minha.
Eu montei o plano, eu liderei a operação, eu prometi que traria o corpo deles e Isabel de volta.
E falhei.

Passei a mão pelo rosto, sentindo a pele quente, os olhos ardendo. O corte no braço ainda latejava, e o cheiro de álcool e sangue não deixava o ar.
Cada respiração parecia um lembrete do que eu tinha perdido.

Olhei pra Nick mais uma vez.
Ele se mexeu, murmurando algo dormindo, o rosto franzido em dor.
Mesmo ferido, ele ainda tinha aquela teimosia viva nele, a mesma que sempre me irritou e, no fundo, me salvou.

Suspirei.
Levantei da cadeira devagar, sentindo as pernas fraquejarem. O corpo queria cair, mas a cabeça não deixava.
Fui até a janela. O reflexo me encarou de volta, olhos fundos, o cabelo grudado pelo suor, uma cicatriz nova cruzando a sobrancelha.

Eu mal me reconhecia.

Continua...

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