Isabel POV
O silêncio depois que a porta bateu me envolveu como um peso.
Um peso que não vinha só do porão, mas do que Scanor tinha deixado atrás.
Minha respiração estava trêmula, e eu ainda sentia o gosto amargo da lembrança presa na garganta.
Eu não devia ter deixado ele me levar lá.
Eu sabia disso.
Mas saber não adiantava nada quando meu próprio corpo reagia antes de mim.
Eu forcei a mente a voltar.
Focar.
Respirar.
A maçaneta girou.
Meu coração disparou por um instante — mas não era Scanor.
Era Pietro.
Ele entrou sem olhar diretamente pra mim, como se eu fosse apenas mais um item no ambiente. Fechou a porta com calma, sem pressa, como se tivesse todo o tempo do mundo.
Não disse nada.
Ficou ali, perto da mesa, como se avaliasse o estrago.
O dele?
O meu?
Impossível saber.
— Ele demorou mais do que eu esperava — disse enfim, a voz baixa, quase um comentário pra si mesmo.
— Geralmente monstros têm muito o que falar — respondi, áspera.
Ele nem piscou.
— Você provocou — disse apenas, como se fosse óbvio.
— Eu sobrevivi.
Ele deu um pequeno sorriso rápido, quase imperceptível.
Um sorriso que não tinha nada de humor.
Tinha… algo que eu não queria nomear.
— Temporariamente — murmurou.
Meu estômago revirou. Pietro sempre soube como desmontar alguém sem levantar a voz.
— Veio fazer o quê? Conferir se ainda respiro? — perguntei, amarga. — Ou dar continuidade ao show?
Ele finalmente me encarou. Aquele olhar direto, firme, que parecia atravessar pele, osso e qualquer mentira.
— Se eu quisesse continuar, você não estaria consciente — disse, calmo demais.
Arrogante.
Convicto.
E, de alguma forma, isso mexia comigo mais do que as ameaças de Scanor.
Pietro deu dois passos em minha direção.
Lentos.
Precisos.
Como se estivesse medindo minha reação.
— O que aconteceu aqui não é problema meu — falou, com a frieza habitual. — Contanto que você ainda sirva ao propósito.
— Qual propósito? — cuspi, irritada.
Ele inclinou a cabeça, apenas um centímetro.
— O que te mantém viva.
Eu odiava quando ele falava assim.
Vago.
Cru.
Como se soubesse mais de mim do que eu permitia.
— Se quer algo, fala logo — rosnei. — Estou cansada de enigmas.
Ele suspirou pelo nariz. Não de cansaço, nem de irritação.
De… impaciência contida.
Como se eu estivesse atrapalhando algum plano na cabeça dele.
— Você precisa estar inteira quando Leonid perguntar por você — disse.
Meu sangue gelou por um instante.
— Então ele já sabe? — perguntei, tentando manter a voz firme.
Pietro me analisou por longos segundos.
O suficiente para eu querer chutar alguma coisa.
Ou chutar ele.
— Leonid sempre sabe. Mas você ainda não é prioridade. — Ele fez uma pausa, observando meu rosto. — Ainda.
O “ainda” caiu como uma ameaça velada.
Ou como aviso.
Ou como os dois.
Com Pietro nunca dava pra saber.
Ele se aproximou mais um passo. Ficou perto o suficiente para que eu sentisse o cheiro de fumaça e metal que sempre acompanhava ele.
— Você está pior do que deveria — disse. — Scanor passou dos limites.
Foi a primeira frase que soou… quase pessoal.
Mas ele percebeu.
E fechou a expressão na mesma hora.
— E isso deveria te importar por quê? — perguntei, cética.
Pietro não respondeu de imediato. Apenas ficou me olhando daquele jeito que me irritava, como se estivesse analisando um quebra-cabeça que só ele sabia montar.
O silêncio dele me pressionava mais do que qualquer grito.
— Você parece surpresa — disse enfim, a voz baixa, quase entediada. — Não deveria estar. Você sempre foi… complicada de derrubar.
A frase não era elogio.
Também não era crítica.
Era só uma constatação fria, como se ele estivesse comentando o clima.
— O que isso quer dizer? — perguntei, tentando decifrar.
Ele desviou o olhar, apenas por um segundo, como se não valesse a pena explicar.
Quando voltou a me encarar, havia algo diferente ali. Algo restrito, controlado. Algo que queimava por trás da calmaria.
— Quer dizer que você não deveria dar motivos para ele ir tão fundo — disse. — Scanor não sabe quando parar. Mas você… — seus olhos passaram pelos meus pulsos machucados — …também sabe provocar além da conta.
O tom era estranho.
Nem acusação.
Nem preocupação.
Era… irritação.
Pura e simples.
— Se ele passou do limite, não é culpa minha — respondi, a voz tensa.
Um músculo no maxilar de Pietro se contraiu, mínimo, mas suficiente para mostrar que eu tinha tocado em algum ponto.
— Você sempre acha que não é responsável pelo que causa — murmurou.
— Isso é ridículo.
Ele deu um pequeno sorriso torto.
Não bonito.
Não gentil.
Um sorriso de alguém que sabe mais do que deveria.
— Ridículo? — repetiu. — Talvez. Mas continua sendo verdade.
Ele deu um passo em minha direção.
A lâmpada fraca destacou a sombra dele contra o chão, longa, pesada, como se me cercasse mesmo sem tocar.
Quando parou perto o bastante, pude sentir o cheiro familiar de pólvora e fumaça que sempre parecia acompanhar ele.
— A questão é simples, Isabel — disse, firme, impaciente. — Você não pode desmoronar agora. Não por ele.
Eu pisquei.
— Por que isso te incomoda tanto? — perguntei, a voz falhando no final.
Ele me encarou como se eu fosse lenta.
Ou ingênua.
Ou as duas coisas.
— Porque quando você perde o controle, todo o resto sai do eixo — respondeu, seco. — E eu detesto quando as coisas saem do eixo.
Era o mais perto de “importa” que ele jamais chegaria.
E mesmo assim… não era sobre mim.
Era sobre ele.
Sempre foi.
Ele deu outro passo, não para me tocar, mas para que eu entendesse que ele podia, se quisesse.
E ele não queria.
Não agora.
O que era quase pior.
A voz dele saiu baixa, firme, autoritária:
— Se mantenha inteira. É só isso que eu estou dizendo.
Nada de toque.
Nada de promessa.
Nada de posse explícita.
Só aquela tensão invisível, sufocante, que sempre ficava entre nós.
Ele virou de costas como se a conversa tivesse terminado antes mesmo de começar.
A porta se fechou devagar.
E o silêncio voltou a me envolver, não mais pesado, mas… inquieto.
Como se Pietro tivesse deixado algo ali sem dizer.
Ou sem querer dizer.
Continua...
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RED ZONE
Fiksi PenggemarEm um mundo onde sombras se entrelaçam com a luz e segredos são a moeda mais valiosa, Isabel Romanov e Elleanor Nicolay se destacam. Unidas desde a infância por laços indestrutíveis, estas melhores amigas enfrentaram a vida lado a lado, forjando um...
