Isabel POV
A primeira coisa que senti foi o frio.
Um frio cortante, úmido, que grudava na pele e fazia cada ferimento arder como fogo.
Abri os olhos com dificuldade. O teto acima de mim era baixo, coberto de rachaduras e infiltrações. O cheiro de ferrugem e óleo queimado enchia o ar, misturado à tensão que parecia impregnar cada parede.
Estava deitada num colchão velho, o corpo doendo em cada músculo.
Os pulsos estavam amarrados com uma fita grossa; o gosto metálico do sangue ainda na boca.
Tudo parecia girar por um instante - até que as lembranças voltaram como uma pancada: o beco, a chuva, Nick caindo, Elleanor imóvel.
Nick.
Meu peito apertou.
Tentei me sentar, mas a dor me obrigou a parar. O abdômen latejava, o rosto ardia, a cabeça parecia prestes a explodir. Cada respiração era uma lâmina atravessando meus pulmões.
- Finalmente acordou.
A voz veio da porta.
Levantei o olhar e vi Pietro encostado no batente, braços cruzados, o rosto parcialmente coberto pela sombra. A luz fraca da lâmpada oscilava sobre ele, destacando o sangue seco na roupa. A presença dele era gelada, pesada, impossível de ignorar.
Fiquei em silêncio. Só o encarei.
Ele deu alguns passos, aproximando-se, o olhar calculando cada reação minha.
- Achei que não fosse resistir.
- Decepcionei você? - arrastei, a voz rouca, falhando, mais de raiva do que provocação.
Ele parou, sem responder. Colocou um copo d'água sobre a mesa próxima e se manteve em silêncio, a frieza absoluta emanando de cada gesto. O olhar dele não vacilava.
- Onde estamos? - perguntei, tentando controlar a voz que tremia.
- Lugar seguro - respondeu apenas, sem emoção.
- Pra quem?
Nenhuma resposta. Pietro desviou o olhar, como se evitasse a pergunta. Ficou ali por um tempo, observando minhas mãos presas, depois virou de costas, indo até a porta.
Antes de sair, parou, sem me encarar:
- Você devia descansar.
- E você devia ter terminado o trabalho - murmurei, a voz falhando, o orgulho queimando junto com a dor.
Ele ficou imóvel por alguns segundos, e então saiu, fechando a porta atrás de si. O som do trinco ecoou no pequeno espaço, pesado, quase ensurdecedor.
Fiquei ali, sentindo o corpo latejar, tentando conter o tremor que percorria minhas mãos. A raiva se misturava com a dor, queimando como fogo interno. Uma parte de mim queria desabar. Outra parte estava viva, faminta, ainda queimando.
O som da porta se abrindo marcou tudo, um corte no silêncio pesado do porão.
Não era Pietro desta vez. Era Scanor.
Ele entrou devagar, os passos arrastando o chão de concreto, e o ar pareceu encolher. Tinha algo no modo como ele olhava: calculado, frio, sem pressa. Ele não veio para conversar. Veio para destruir o que restava de mim.
A cadeira rangeu quando ele a puxou. O som era irritante, quase proposital. Ficou parado na minha frente, os olhos fixos como quem observa uma ferida aberta.
- Levanta - disse, simples, sem emoção.
As pernas obedeceram antes da cabeça. Ele me segurou pelos braços e me fez sentar na cadeira de madeira. O toque foi firme, impessoal, mas doeu mais do que se tivesse sido violento. Amarrar foi apenas o detalhe, o verdadeiro controle estava no olhar dele, e na certeza de que não havia saída.
Scanor não era como Pietro. Ele não precisava de fúria, nem de ameaças. Era o tipo que destrói com calma.
Sentou de frente pra mim, ajeitou o casaco, cruzou as pernas e pousou o envelope na mesa. O som do papel sendo aberto me fez estremecer.
- Você tem um passado interessante, Isabel - começou, a voz baixa, quase didática. - Eu diria... cheio de rachaduras.
Não respondi. O silêncio foi minha única defesa.
Ele tirou uma folha de dentro do envelope, olhou de relance e sorriu de canto. - Dezesseis anos... uma escola de bairro, uma noite.
Meu estômago revirou.
- Isso te diz alguma coisa, não? - continuou. - Eu li os relatórios. A versão oficial é que nada foi provado. Que você inventou tudo.
A respiração ficou curta. Eu sabia o que ele estava fazendo, mas o corpo reagia mesmo assim.
Scanor se inclinou para frente, os cotovelos apoiados na mesa. O tom dele mudou - suave, venenoso:
- Devia ter sido difícil. Sozinha, desacreditada. Todo mundo olhando pra você como se fosse a culpada...
As palavras entravam devagar, ferindo como agulhas.
- Aposto que foi ali que você aprendeu a mentir bem - disse ele. - Porque, se não soubesse mentir, não teria sobrevivido.
Meu coração batia tão alto que abafava o resto. A cadeira parecia menor, o ar mais denso.
Eu tentei desviar o olhar, mas ele insistiu.
- Você se lembra, não lembra? - sussurrou. - Dos risos, das vozes... de ninguém ter vindo te ajudar.
A lembrança veio com um gosto metálico. O corredor da escola, o frio, o som das próprias lágrimas abafadas. Eu engoli em seco.
- Cala a boca - foi tudo o que consegui dizer.
Ele se recostou, satisfeito, como se tivesse alcançado exatamente o que queria.
- É aí que mora a verdade - murmurou. - No ponto em que você tenta esconder.
Cada palavra dele parecia rasgar o ar. Ele não precisava tocar em mim para ferir, bastava falar, e eu sentia tudo de novo: o abandono, o medo, o peso de uma culpa que não era minha.
Scanor sabia disso. E usava como arma.
Quando ele finalmente se calou, o silêncio pareceu mais cruel que a própria dor.
Eu estava de volta ao porão, mas a sensação era de ter caído em um buraco mais fundo, o da lembrança que nunca parou de doer.
Scanor ficou em silêncio por um tempo, apenas me observando. O som do relógio no canto do porão marcava cada segundo como uma sentença.
Então, ele pegou outro envelope, mais fino, e jogou sobre a mesa.
- Vamos parar de fingir, Isabel. Você sabe por que está aqui.
O papel deslizou até mim, parando perto das minhas mãos presas.
- O contrato - disse ele, frio. - Onde está?
Eu o encarei, sem responder.
Ele bateu o punho na mesa, o som seco ecoando nas paredes.
- Onde. Está. O. Contrato?
O ar pareceu sumir. O olhar dele atravessava o meu, procurando fraqueza, medo, qualquer sinal de rendição.
Mas eu só respirei fundo, firmei o maxilar e respondi baixo, quase num sussurro:
- Vai ter que me matar pra saber.
Um silêncio denso se espalhou. Por um segundo, nem ele nem eu respiramos.
Scanor se levantou devagar, os olhos ainda presos nos meus.
- Eu pretendo fazer pior que isso - disse, e saiu, deixando o eco da promessa pairando no ar.
Continua...
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RED ZONE
Fiksi PenggemarEm um mundo onde sombras se entrelaçam com a luz e segredos são a moeda mais valiosa, Isabel Romanov e Elleanor Nicolay se destacam. Unidas desde a infância por laços indestrutíveis, estas melhores amigas enfrentaram a vida lado a lado, forjando um...
