cap 28

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Elleanor POV

Leonnid já estava impaciente quando cheguei. O clima dava pra sentir de longe: Ninck de braços cruzados, maxilar travado; Leonnid andando de um lado pro outro, coisa que ele só fazia quando estava no limite.

- Finalmente - ele disse, sem desviar o olhar da mesa. - Vamos começar. Já perdemos tempo demais.

Me sentei, e Ninck veio logo:

- Alguma pista nova?

Balancei a cabeça.

- Nada. Pietro sumiu com ela. Não deixou rastro, não fez movimentação grande, não colocou ninguém diferente na rua. Ele escondeu bem dessa vez.

Leonnid bateu a palma da mão na mesa. Não forte. Mas o suficiente pra deixar claro que a paciência dele tinha acabado há horas.

- Dois dias. - Ele olhou para nós como se fosse uma acusação. - Dois dias e vocês não têm nada?

Ninck rebateu de imediato:

- Pietro não é idiota. Ele sabe que você está no rastro. É óbvio que ele ia esconder ela no lugar mais protegido que tem.

- O problema - acrescentei - é descobrir onde é esse lugar.

Leonnid respirou fundo, como se estivesse contendo a vontade de quebrar alguma coisa.

- Eu não quero possibilidades. Eu quero um plano.
Parou.
- E quero os dois mortos. Pietro e Scanor.

O silêncio caiu pesado.

Ninck foi o primeiro a falar:

- Podemos rastrear os carregamentos dele. Tudo que entra e sai. Ele não vai deixar Isabel em qualquer canto. Tem que ser um lugar estável, com abastecimento, vigilância-

Leonnid o interrompeu:

- Já fez isso. E?

- E nada apareceu - Ninck admitiu. - O que significa que o lugar não está na rota oficial.

Olhei para os dois.

- Então precisamos achar o que não está na rota oficial.
Locais antigos, propriedades esquecidas, galpões que não funcionam mais... tudo que ele manteve só pra si.

Leonnid se recostou na cadeira, olhando pra mim.

- Você viveu com ela mais tempo do que qualquer um aqui.
- Por que ela?
- Por que Pietro arriscaria tudo por alguém que ele nem deveria conhecer?

Engoli seco.

- Tem história aí. - respondi. - Eles estudaram com a gente, mas nunca tivemos nada, nem amizade. Isso significa que tem algum significado pra ele.
Meu olhar cruzou com o de Ninck.
- E se tem significado... ele vai esconder no lugar que ele considera mais seguro. O mais íntimo.

Ninck franziu o cenho.

- O porão.

Leonnid estreitou os olhos.

- O quê?

- Pietro tem um porão - Ninck explicou. - Mas não é em casa, não é no galpão principal, não é no território. É antigo, quase ninguém sabe. Usado quando ele não quer que ninguém descubra.

Meu coração bateu mais rápido.

- Você sabe onde fica?

Ninck hesitou.

- Mais ou menos. Pietro nunca deixou ninguém entrar lá. Mas ouvi alguns capangas dele mencionar "o subsolo velho". Só falou uma vez.
Pausou.
- Pode ser lá.

Leonnid parou de respirar por um segundo. A expressão dele mudou. Ficou fria. Decidida.

- Então é isso.
Levantou da cadeira.
- Vamos encontrar esse lugar. E quando encontrarmos...
Olhou para mim, depois para Ninck.
- Pietro e Scanor caem. Na mesma noite.

- E a Isabel? - perguntei.

- A gente tira ela de lá viva - Leonid respondeu. - E inteira.
Apertou o maxilar.
- Ou eu acabo com o Alekseeva com as minhas mãos.

Ninck assentiu, já pegando o celular.

- Vou puxar mapas antigos, rotas desativadas, propriedades abandonadas. A gente vai achar esse subsolo.

Leonnid concluiu com a voz baixa, mas firme o suficiente para gelar o ar:

- A partir de agora, é guerra.
E Pietro não faz ideia do que está vindo.

Quando a porta fechou atrás do Leonnid, o silêncio que ficou era pesado. Ninck ainda estava ali, mas não parecia disposto a fingir que estava tudo normal.

Ele me observou por alguns segundos, como se tentasse ler algo no meu rosto.

- Você ficou estranha quando ele falou dela - disse enfim. - Estranha de um jeito que eu não vejo faz tempo.

Suspirei.

- Eu só estou preocupada.

- Não, Elleanor. - Ele puxou uma cadeira e sentou de frente pra mim. - Preocupada você sempre fica. Hoje foi diferente.
Apoiou os cotovelos na mesa.
- Então me explica. Me explica o que tinha entre vocês duas.

Passei a mão no cabelo, respirando devagar.

- Não tinha romance, se é isso que você está pensando.

- Não perguntei isso - ele retrucou. - Perguntei o que tinha. Porque tinha alguma coisa.

Fechei os olhos por um momento. As memórias vieram como sempre vinham quando eu deixava: claras, vivas, dolorosas e boas demais ao mesmo tempo.

- Ela era meu porto seguro- respondi. - Quando a gente era mais nova. É isso.

Ninck esperou. Ele queria mais. E, honestamente, talvez eu devesse falar.

- Eu passei por umas coisas naquela época - continuei. - Coisas que ninguém percebia. E a Isabel... ela percebeu. Ela viu antes de todo mundo.
Fiz uma pausa curta.
- E não virou o rosto. Nunca virou.

Ninck ergueu uma sobrancelha.

- Então ela te defendeu?

Soltei uma risada curta.

- Defendeu, brigou, arrumou confusão, tomou detenção no meu lugar...
Minha boca quase sorriu.
- Ela era fogo. Sempre foi. Não deixava ninguém encostar em mim. Principalmente aqueles idiotas do colégio.

Os olhos de Ninck afiaram.

- Pietro e Scanor?

Assenti.

- Eles e mais alguns....
Apoiei as mãos na mesa.
- Eram todos uns idiotas, sempre naquele joguinho de poder, mesmo sendo adolescentes.
Suspirei.
- E a Isabel? Ela enfrentava todos. Sem medo.

Ninck deu um sorriso de canto.

- Ela sempre teve essa coragem suicida.

- Não é suicida - corrigi. - É instinto. Ela protege as pessoas que ama, mesmo quando não deveria.

Ele me encarou fundo.

- Por isso você está tão desesperada pra achar ela. Porque ela faria o mesmo por você?

Assenti devagar.

- Exatamente.
Passei a mão no rosto.
- E é isso que eu preciso que o Leonnid entenda: a Isabel não traiu ele. Não escolheu lado. Não "se afastou".
Olhei para Ninck com firmeza.
- Ela foi levada. Só isso.

Ele ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo.

- Vamos achá-la, o mais rápido possível.

Continua...

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⏰ Última atualização: Dec 10, 2025 ⏰

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