Capítulo 68

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Essa história é uma tradução da obra original do perfil PoppyMesh. Todos os direitos da obra vão para ela.

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-«-«- Tão perigoso quanto a Esperança -»-»-

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— Não.

A respiração de At’anau falhou quando as palavras de Ao’nung ecoaram, ancorando-a por um breve instante. O aperto dele em suas mãos era firme, inabalável — uma âncora contra a tempestade que rugia dentro dela. Ainda assim, sua mente fervilhava com as acusações venenosas de Lo’yi, com a forma como suas palavras haviam se infiltrado nas rachaduras de sua determinação.

— Vamos — insistiu Ao’nung novamente, a voz agora mais suave, quase suplicante. Seus olhos procuravam os dela em busca de reconhecimento, de uma confirmação de que ela ainda estava ali.

Ela não tinha certeza se estava.

At’anau soltou as mãos dele e deu um passo para trás, fitando a água que batia contra a costa rochosa. Nas reflexões cambiantes, captou fragmentos de si mesma — olhos dourados, ombros largos, quatro dedos, pele cortada, sangue seco, sangue de demônio. Ela fechou os olhos.

Lo’yi era um tolo. Tinha que ser. Ainda assim, suas palavras pairavam no ar, pesadas como o céu antes de uma tempestade.

— Devia ter sido eu. — Sua voz saiu plana num sussurro, em nítido contraste com o furacão de emoções dentro dela.

Ao’nung paralisou. Não esperava que ela falasse — muito menos que dissesse aquilo.

— At’anau—

Ela se virou bruscamente, a trança chicoteando sobre o ombro.

— Em vez de todos, devia ter sid- —Ela respirou fundo. — Eu não devia ter deixado ninguém morrer.

— “Você não pertence mais à floresta”, disse ele por fim, virando-se de costas para o sol que desaparecia. Seus olhos estavam duros, deixando claro que ele não lhe dizia o que ela queria ouvir. Ele falava com ela — não com seus sentimentos, não com seu ego — e Ao’nung sabia que havia tocado em algo profundo pelo modo como voltou a capturar a atenção em seus olhos.

— Seu irmão repousa entre nós — disse mais suavemente. — Ele é um de nós agora. — Os ombros de At’anau se tensionaram. — Você é uma de nós agora.

Ela cerrou os punhos, as unhas afundando nas palmas das mãos.

— Eu não preciso de um lugar ao qual pertencer. — Criou distância entre eles. Dizia a verdade: não precisava de um lugar ao qual pertencer. Por mais que viajasse por Pandora, nunca encontraria outro lar, porque já tinha um. Um que agora estava enterrado entre as anêmonas de Awa’atlu.

O silêncio se estendeu entre eles, quebrado apenas pelos gritos distantes das aves marinhas e pelo suave bater das ondas contra as rochas.

Então, no meio da quietude, o pensamento de Lo’yi atingiu-a como um raio.

— Se Ateyo não está na embarcação — disse lentamente, virando-se para Ao’nung —, então onde ele está?

Ao’nung franziu o cenho.

— At’anau—

— Não. — Sua voz agora era cortante, carregada de uma urgência repentina. — Se existe ao menos uma chance—

— Não faça isso com você mesma — interrompeu Ao’nung, o tom pesado de advertência.

Enquanto os dois se preparavam para partir, At’anau sentiu uma faísca acender dentro de si — uma coisa frágil e perigosa. Não era esperança, ainda não. Mas era suficiente para mantê-la em movimento.

Through the Valley¹ | Ao'nungOnde histórias criam vida. Descubra agora