Caminho pela calçada enquanto os pingos da chuva caem suaves, quase tímidos, molhando minha roupa como quem pede licença. O céu, pesado e cinzento, ameaça desabar – e, ainda assim, esse é o meu clima favorito.
É poético estar miseravelmente infeliz num dia tão bonito.
Eu queria poder voltar no tempo só para desfazer o passado. Se isso fosse possível, com certeza evitaria a idiotice que foi dormir no mesmo quarto que Colin Miller. Coitado. Se ele pudesse ler minha mente, ficaria magoado. Acharia que odiei o calor do seu corpo – aquele corpo que parece ter sido esculpido pelo mais meticuloso dos artistas – ou o cafuné que recebi por horas, como se o toque dele fosse a única forma de me manter viva.
Longe disso, querido.
O homem misterioso surgiu na minha vida como uma tempestade: repentina, devastadora, impossível de ignorar. Mudou tudo – meus sentimentos, minhas ações e, principalmente, meus pensamentos, que passaram a orbitar apenas ao redor dele. E, por um tempo, foi bom. Porque enquanto ele existia dentro de mim, não sobrava espaço para o que era escuro. Se não fosse por Colin Miller, eu ainda odiaria cada pedaço do meu corpo – este corpo marcado, ferido por dentro e por fora.
Com ele, o ódio adormeceu.
Por alguns dias, talvez até tenha esquecido de como é sentir nojo de mim mesma.
Mas nada bom dura para sempre. O reencontro com aquela que insiste em dizer que é minha mãe trouxe de volta as noites que eu fingia ter esquecido. Noites longas, cruéis e silenciosas – onde a dor não tinha nome, só peso.
Se eu pudesse dizer que foram apenas os tapas, quem sabe eu me sentisse menos destruída. Só que houve muito mais que isso. Perdi a dignidade aos doze, se bem me lembro. Não foram tantas vezes – mas bastou uma para me quebrar inteira.
Com o tempo, aprendi a fingir que as lembranças eram apenas pesadelos. Aprendi a lidar com o corpo que treme sozinho – como se quisesse me fazer recordar do que aconteceu –, com as lágrimas que caem do nada, com o peito que aperta durante meus banhos e com as noites, na sua maioria, pavorosas.
Mas há algo que nunca aprendi.
Lidar com o medo de ser descoberta.
E se alguém souber? E se me olhar com pena?
A pena é a pior forma de crueldade – o disfarce educado do desprezo. Quem sente pena revive comigo o que tento enterrar, e me faz sentir, de novo, insignificante.
Spoiler: preciso aprender a lidar.
Imaginei muitos cenários em que meu segredo fosse revelado. Em nenhum deles, pensei que fingiria demência – mas foi exatamente o que fiz. Fui cruel por suportar ouvir o homem que amo se odiando por não ter percebido antes. Agi como se estivesse tudo bem. E agora não sei o que dói mais: fingir que não sinto, ou ver o sorriso falso de Colin tentando esconder a raiva que o consome.
Esse, querido, é o verdadeiro motivo pelo qual me arrependo de ter passado a noite com você. Meu momento de fraqueza te empurrou para um canto escuro do meu passado – um lugar onde ninguém deveria entrar.
Principalmente, você.
Meu noivo não consegue disfarçar a angústia, e o fato de eu não saber o quanto isso o fere me deixa frustrada.
É remorso ou piedade?
Pouco importa. São dois sentimentos ridículos.
Mas, se existe algo que eu jamais poderei negar, é que dormir com meu noivo foi o que me manteve de pé. Naquela noite, o mundo finalmente silenciou. Meu corpo parou de lutar contra a própria existência, e por algumas horas eu pude simplesmente... existir. Você me deu paz, Colin. Mas toda paz tem um preço – e a minha custou caro. Custou a leveza dos seus olhos, o brilho que se apagou quando descobriu o que escondi.
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GAROTA INDOMÁVEL
RomanceArabelle Werneck já sentiu a dor em sua forma mais cruel: a que corrói o corpo, e a que destrói a alma. E tudo isso sem nunca ter tido escolha. Seus atos de bondade não a salvaram - apenas a levaram a um caminho sombrio, beirando a morte. Quem dever...
