Estou aqui.
Ainda não acredito que estou aqui.
O tronco da árvore pressiona minhas costas, áspero, lembrando que eu deveria ir embora. Minhas mãos estão sujas de terra; não lembro quando me abaixei tanto para me esconder.
Respiro devagar, temendo que o próprio ar me denuncie.
Há algo errado em estar tão perto e, ao mesmo tempo, distante.
Errado observar sem ser visto.
O lago se estende à minha frente, quieto demais. A água reflete o céu pálido e as copas das árvores sem pressa. O cheiro de mato úmido se mistura ao de madeira velha e folhas secas. A fazenda é bonita, quase enganosa — verde aberto, vento leve, o som distante de insetos.
Ainda assim, nada aqui transmite calma.
Será que sinto isso por causa dela?
A garota está sentada perto da margem. Integrada ao lugar, a ponto de o lago parecer existir ao redor dela. Um livro aberto repousa em seu colo; a página não muda há pelo menos trinta minutos. Contei. Os dedos permanecem imóveis nas bordas amareladas do papel, o livro reduzido a um pretexto. O cabelo preto cai solto pelos ombros, acompanhando a brisa.
À distância, ela parece tranquila.
De perto, não.
Deve ser os olhos.
Negros. Não apenas escuros — negros a ponto de engolir a luz. Mesmo escondido, sinto o peso que carregam, excessivo para alguém da idade dela. Não há brilho, curiosidade ou conforto. Ela lê sem ver, presa em algo muito mais profundo do que a história que finge acompanhar.
O Morro dos Ventos Uivantes.
Clássico. Sombrio.
Vim por curiosidade. Só isso. Curiosidade suficiente para atravessar caminhos desconhecidos, para ignorar avisos que sussurravam distância.
Para descobrir se o que ouvi era verdade.
Parece que é.
Cruel. Desprezível.
Maldoso.
Ao seu lado, a pitbull permanece deitada, vigilante. Negra como a noite, o corpo forte relaxado, atento. Os olhos azuis percorrem o ambiente com calma calculada, como se o silêncio aqui guardasse ameaças.
A pitbull fareja com mais dedicação.
Por um instante, tenho certeza de que ela sabe que estou aqui, presente, um cheiro novo, desconhecido.
Meu coração acelera.
Só que a cadela não se move. Apenas observa, paciente, protetora.
Quem sabe o perigo não seja eu.
A garota inclina levemente a cabeça. Os lábios se apertam num gesto mínimo. Não é tristeza visível. É algo mais fundo. Antigo. Um cansaço que não pede socorro, apenas existe.
Isso me incomoda mais do que qualquer dor escancarada.
Ela é infeliz. Não de forma óbvia. A infelicidade mora nela, acomodada, natural.
Como se fosse parte do que ela é.
Olho ao redor, tentando afastar essa sensação. A casa antiga não fica longe do lago. Pequena, desgastada, com a pintura descascada revelando um passado esquecido. As janelas parecem sempre fechadas, mesmo quando abertas ou quebradas.
Não há risos, música, sinais de presença. A casa existe, mas não respira.
Nada aqui vive de verdade.
Muito menos ela.
Volto meu olhar para a garota. Ela finalmente vira a página, num gesto lento, automático.
A pitbull se aproxima, encostando o focinho em sua perna. A garota não sorri, apenas desliza os dedos por seu pelo escuro num carinho distraído.
A conexão entre elas é silenciosa, profunda.
Alguma coisa se move dentro de mim. Não é medo. Também não é só curiosidade.
É uma inquietação estranha, uma atração desconfortável.
Há algo errado com ela.
E... comigo.
O vento agita o lago, distorcendo o reflexo na água. A imagem se quebra por um instante.
Meu estômago se aperta.
Ainda penso que deveria ir embora, mas meus pés permanecem presos ao chão, agindo contra a razão, dando voz ao coração.
Não sei o que sinto.
O que quero.
O que devo fazer.
Só sei que algo mudou no momento em que a vi.
Silencioso. Definitivo.
E enquanto ela permanece ali, à beira do lago, eu continuo observando — certo de que esse primeiro olhar carrega um peso que não pertence apenas ao agora.
Não sei se consigo deixar para lá.
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GAROTA INDOMÁVEL
RomanceArabelle Werneck já sentiu a dor em sua forma mais cruel: a que corrói o corpo, e a que destrói a alma. E tudo isso sem nunca ter tido escolha. Seus atos de bondade não a salvaram - apenas a levaram a um caminho sombrio, beirando a morte. Quem dever...
