Colin: Presente de Natal

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Sair da fazenda é como atravessar um limiar entre o que já aconteceu e tudo aquilo que ainda não sei se vou conseguir suportar. Cada passo com Arabelle nos meus braços reforça o quanto ela consegue ser delicada e, ao mesmo tempo, absurdamente forte — mesmo agora, quieta demais, ausente demais, com o corpo entregue ao meu como se confiasse que eu ainda saiba o que estou fazendo. Conrado vem logo atrás, os pés pesados, o olhar carregado de expectativa e medo. Will caminha ao meu lado em silêncio, o maxilar rígido, os ombros tensos, oferecendo apoio apenas por permanecer ali, respirando no mesmo ritmo que eu e, ainda assim, cada segundo que nos separa do carro pesa de uma maneira impiedosa.

Ao alcançarmos a saída da fazenda, meus pais surgem diante de nós, imóveis. Tudo se reduz àquele instante. O ar ao redor deles se adensa quando percebem Belle desacordada em meus braços.

Todo o afeto que existe por ela parece se concentrar naquele silêncio abrupto, carregado de pavor.

— O que aconteceu, Colin? — meu pai pergunta, a voz quebrando antes mesmo de terminar a frase.

Engulo em seco.

— Eu... não sei ao certo — admito, sentindo a impotência se espalhar amarga pela boca.

Mas agora não me permito fraquejar.

— Precisamos levá-la ao hospital — diz minha mãe, já se movendo.

Ela abre a porta do carro deles, os gestos rápidos demais, denunciando o desespero que tenta conter.

— Não — respondo de imediato. — Eu vou no meu.

— Queremos... — James começa.

Ergo a mão, pedindo silêncio, e baixo o olhar para Arabelle, para o rosto pálido, os lábios entreabertos, a respiração tênue a ponto de assustar.

A garganta se fecha com força.

— Pai... eu sei o quanto o senhor está preocupado. Nós todos estamos. Mas preciso que vá com o Willian e o Conrado até a delegacia — digo, sustentando a firmeza apenas por necessidade. — O que aconteceu aqui precisa ser resolvido, sabe disso. Ele lhe deve isso — James hesita, dividido, até finalmente assentir, vencido. — Mamãe vem comigo — concluo, sem abrir espaço para discussão.

Sei que preciso dela agora, da atenção cuidadosa, da serenidade que só Dona Amélia consegue sustentar quando tudo ameaça desabar.

Felizmente, ninguém se opõe.

Deixo os três para trás e sigo com minha mãe até o meu carro, cada inspiração assumida como um compromisso silencioso com o que ainda está por vir.

O caminho pede cautela. Os movimentos são precisos, Arabelle aninhada contra o meu peito, o corpo leve, quase irreal, e o perfume dela — ainda presente, apesar do cheiro da fazenda — traz conforto e inquietação na mesma medida. Abro a porta com firmeza, consciente de que nada pode ser feito de forma descuidada, e quando me acomodo no banco do motorista, ajustando-a com suavidade sobre mim, percebo minha mãe ocupar o assento ao lado. A expressão dela permanece contida, atenta, e um peso difícil de definir se instala em mim, uma mistura incômoda de expectativa e apreensão, tudo intenso, suspenso naquele breve intervalo entre dar a partida e avançar.

À frente, a estrada se estende como uma fronteira frágil. Segurança e incerteza. Nunca foi tão difícil conduzir; cada sinal, cada curva, cada irregularidade do asfalto exige de mim uma concentração absoluta. Pelo retrovisor, busco o rosto de Belle e noto sua delicadeza, o leve estremecer do corpo, o ritmo contido da respiração frágil.

Uma angústia persistente me sufoca.

Amélia percebe algo que meus olhos ainda não alcançam. Sua fisionomia se altera por um instante, um vinco discreto entre as sobrancelhas, o olhar ponderando o que pode ser dito e o que precisa permanecer guardado.

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