Enquanto desço ao lounge, com minha noiva adormecida em meus braços, volto a sentir — a reviver — o desespero que me trouxe até aqui. Acredito que o universo tem uma dificuldade absurda em compreender o limite da dor humana. Ele jamais se contenta com o suficiente. Está sempre exigindo mais.
Mais e mais dessa merda de emoções sombrias que surgem das circunstâncias tortas e devastadoras da vida.
E sim, estou revoltado com esse cosmo que, provavelmente, se diverte às minhas custas. Não porque Arabelle descobriu a verdade da forma mais cruel possível. Não porque ela fugiu, horrorizada, para um destino incerto depois de mentir que estaria segura — enganando o motorista, enganando a mim, ridicularizando minha dedicação em protegê-la.
Nada disso.
Entendo que, por pior que tudo tenha sido, eu mereci.
Mereci por ter sido covarde.
Esta experiência me mostrou que não há honra alguma em esconder a verdade — mesmo a mais dura, a mais triste — de quem se ama. Agarrar-se à ideia idiota de que uma mentira piedosa poupará o outro do sofrimento é ingenuidade. Não funciona. Nunca funciona. Porque, cedo ou tarde, a realidade aparece à porta — no meu caso, encarnada em uma avó terrível — e empurra todos para dentro do abismo criado pela “boa intenção”.
E então você se torna, sem misericórdia alguma, o responsável por mais um tipo de dor a ser somado àquele instante.
Existe palavra que descreva melhor essa benevolência equivocada?
Sim. Traição.
Uma palavra dura, com veracidade implacável — mas autêntica.
Embora admitindo meu erro, ainda ouso me ressentir do destino. Esse destino que, exagerado como sempre — cheguei a acreditar que fôssemos parecidos na tendência de ampliar tudo, mas ele, claro, se limita ao infortúnio — decidiu que meu estado catatônico não bastava.
Que era necessária mais melancolia.
E ela veio. Rápida. Feroz.
O nome “James” ecoou pela sala, intensificando a agonia de Teresa. Não foi preciso nenhuma explicação. No instante em que seu olhar confuso me alcançou, papai enxergou — com uma clareza dolorosa — a culpa me envolvendo por inteiro. Jurei, naquele segundo, que a cena renderia incontáveis maneiras de me julgar. Condenar. Crucificar. Mas James Miller, o mesmo homem que por anos me fez rotulá-lo de egoísta, não me apontou o dedo.
Não porque não pudesse… mas porque se recusou.
Meu pai foi indiferente e impassível — de forma absoluta — apenas perante aquela que, nós dois sabíamos, era a verdadeira raiz de todo o problema.
Houve, sem dúvida, uma batalha sangrenta entre eles. As palavras foram suas armas — letais, afiadas, tão cortantes quanto qualquer lâmina real. Mas, ao contrário dos que lutam em guerras em busca de vitória, nenhum deles parecia almejar o triunfo. No turbilhão de acusações que feririam até a mim, quase alheio à disputa, o uso de escudos se tornou irrelevante, pois não existia a intenção de amenizar a dor. Pelo contrário: eles queriam — ansiavam — ser feridos.
Talvez fosse essa a forma que encontraram para reafirmar a culpa que já lhes corroía o coração.
Ainda assim, embora James se sinta profundamente responsável por boa parte da infelicidade na vida de Arabelle, torço, egoísta que sou, para que minha noiva não compartilhe dessa certeza. Sei que ela é a única com a espada em punho, incumbida de decidir a quem apontá-la, julgando seus transgressores. Mas… desde que descobri o envolvimento de meu pai nessa história, um desconforto imensurável me acompanha, por ter nutrido ressentimentos por tantos anos.
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GAROTA INDOMÁVEL
RomanceArabelle Werneck já sentiu a dor em sua forma mais cruel: a que corrói o corpo, e a que destrói a alma. E tudo isso sem nunca ter tido escolha. Seus atos de bondade não a salvaram - apenas a levaram a um caminho sombrio, beirando a morte. Quem dever...
