Colin: O monstro e o Devoto Passional

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A sala é sufocante. O ar parece gasto, saturado por urgências que morreram ali dentro. As paredes avançam devagar, silenciosas, testando até onde eu aguento antes de ceder.

Antes de explodir.

Porque eu vou. Isso é certo.

O cheiro de café frio, papel velho e suor contido se mistura até virar uma coisa só, espessa, impossível de ignorar. O silêncio entre uma resposta e outra não descansa. Ele empurra, oprime, pesa mais do que qualquer grito que ainda não saiu.

Eu continuo parado, embora nada em mim esteja quieto.

O coração dispara sem ritmo, o pensamento se atropela, a raiva bate no peito procurando uma saída que não existe.

Seguro o fôlego tempo demais, sabendo que, em algum momento, alguém vai ter que respirar no compasso que me escapa. Logo, deixo de fingir racionalidade — um pedido da minha mãe — e abraço o lado que sempre esteve aqui, comigo, desde que a perdi.

Um lado feio.

Cruel.

Por enquanto, papai tenta me manter inteiro. James insiste, assume o controle mais uma vez, endireita o corpo, escolhe as palavras, força uma calma que não combina com a urgência em que estamos, como se ainda houvesse espaço para lógica ali dentro, mas o cretino do delegado não se move de verdade, recosta na cadeira, evita meu olhar, empilha desculpas com a tranquilidade confortável de quem não perdeu nada.

A ausência dela vira papel, protocolo, espera.

Sou puxado de volta para uma semana atrás, para o instante exato em que a perdi sem saber que estava perdendo.

Fui buscá-la na biblioteca dez minutos depois do horário combinado, repetindo mentalmente o que diria quando ela reclamasse do atraso, do frio, do cansaço.

Mas não havia ninguém.

O banco do lado de fora, onde sempre esperava, vazio. As luzes dos postes, mínimas, acesas.

O relógio avançando sem ela.

Esperei. Minutos que viraram horas.

Saí, voltei, rodei o quarteirão, esperando tropeçar nela a qualquer momento.

Nada.

O celular mudo.

O silêncio, gritante, crescendo.

Quando voltei para casa, ainda carregava a esperança idiota de que ela tivesse conseguido carona, de que estivesse lá, sentada no sofá, me esperando com alguma explicação simples. Em vez disso, encontrei apenas olhares atravessados, perguntas que não faziam sentido, gente que não entendia por que eu demorava tanto para chegar ao meu próprio aniversário e a ausência dela.

De Arabelle não estar onde deveria — ao meu lado.

Não entendiam o vazio aberto no meio da sala, nem o desespero estampado no meu rosto.

Quando perguntei se alguém sabia onde minha noiva estava, o ar mudou. Um a um, os sorrisos morreram, as conversas cessaram, o pânico se espalhou rápido. Todos sabiam. Sempre souberam do risco, do perigo que a rondava havia tempo demais para ser ignorado.

Desde aquele dia, do meu fatídico, maldito aniversário, ninguém voltou a viver de verdade.

Mas eu… eu não acordei mais.

Tudo desde então é um pesadelo contínuo, em que eu caminho, falo, respiro, mas nunca consigo alcançá-la.

Pensar nisso, enquanto presencio todos aqui nesta delegacia — em especial esse delegado idiota — fazendo pouco caso do amor da minha vida, faz meus dentes rangerem antes que eu perceba.

GAROTA INDOMÁVEL Histórias para pegar e não largar. Descubra agora