Coração Azul

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O corpo do pálido estremece um pouco. Estava desacordado a quase uma hora completa. Seus olhos abrem gradativamente, numa velocidade sonolenta e cansada. Encontra o rosto de Alexander Grace fitando-o com preocupação no olhar. A cabeça do menor estava apoiada na perna de Alex, este estando com suas costas escoradas na parede. Solta um leve sorriso quando seus olhares se encontram.

Um olhar de cores diferentes, um azul e outro âmbar.

Um olhar que jamais cansava Grace.

- O que aconteceu? - A voz do menor sai fraca e muito relutante.

Ainda estavam na mesma jaula de vidro reforçado.

- Você desmaiou assim que entrou aqui - O loiro inicia, tentando se afastar um pouco daquele efeito dos olhos coloridos - Vitae foi chamado para uma apresentação de sua "Cura" para os poderosos do país.

Vendo o olhar estranho que o menino fez ao ouvir a expressão, Alexander continua:

- A Casa Branca - Finaliza, sendo direto.

- E o que devemos fazer?

O loiro olha para cima, diretamente para as inalcançáveis tubulações.

- Eu... realmente não sei.

Queria esconder ao máximo o fato de possuírem apenas mais algumas horas de vida. Queria aproveitar seu tempo com o menino ali na sua frente, sem medos ou receios. Queria estar perto dele sem que algo mudasse seu futuro.

Queria que aquilo tudo não estivesse acontecendo.

Batidas repetidas e ocas na parede transparente são perfeitamente ouvidas pelos dois.

Então a porta é aberta.

- Ei aberrações! - A grossa voz de um dos homens engravatados de Theodore Vitae chama a atenção dos garotos expostos naquela prisão transparente. Ao lado do secretário, outros dois que mais pareciam uma muralha seguravam, cada um, uma espécie de coleira com um cristal azulado no centro - Espero que tenham aproveitado seus últimos momentos. Senhores, tragam nossos convidados para fora.

Theodore não respeitou as duas horas.

Os homens entraram rapidamente e, impossibilitados de reagir devido a energia que o gás ainda fazia, Charlie e Alexander são agressivamente agarrados. Grace até tenta algum golpe de soco em um deles mas não tem força suficiente para algo mais potente. Ao invés disso, o homem transfere um chute no estômago do rapaz, que o leva ao chão. As tais coleiras são postas, tornando a visão turva e uma dor na cabeça ainda mais consistente.

Os garotos são levados para fora e Alex vê, ao longe, um homem de jaleco que segura uma seringa nas mãos.

A visão embaraçada não possibilitava nenhum dos dois ver o sorriso maldoso na boca de Vitae.

Meia hora antes...
Alguns andares acima da A42n, um grupo de renomados médicos e cientistas buscavam respostas para o Projeto Lune. O corpo de um espécime do vale branco além do espelho foi trazido para aquela mesa de operações. Agulhas de radiação nuclear destruíram seu cérebro, dando permissão para que a equipe iniciasse o trabalho. Após ter seu tórax aberto cuidadosamente, seu coração azul ainda batia, mesmo morto.

- Espero que tenham um bom motivo para me tirarem da Casa Branca - Vitae entra na sala esterilizada, trazendo a atenção de todos. James Hunt, seu secretário gordo, entra logo em seguida.

Uma enfermeira se aproxima rapidamente do homem com terno branco.

- Senhor, acreditamos que gostará da próxima informação - Ela retira a máscara descartavel para pronunciar melhor - O coração do Lune bombeia apenas Material Relativo. É isso que o torna mais veloz, mais forte e praticamente imortal.

O queixo do homem sem cabelos grisalhos cai. Dá pequenos passos em direção ao corpo pálido.

- Parabéns, senhor Vitae - Um médico põe a mão direita no ombro do chefe - O senhor acaba de descobrir uma cura genética para a morte.

A expressão de espanto logo é trocada por uma de conquista. Teria como construir seu império perfeito.

Teria como colocar o Plano B em ação.

- Comecem os testes. Digam ao presidente que tenho a cura para seu filho, mas quero o controle parcial do exército americano. Digam que é para a vacinação contra alguma nova doença, vírus ou algo assim. Convencam-no que isso fortalecerá o poder norte-americano para a segurança mundial.

James Hunk corre em direção ao elevador por onde veio, tendo anotado tudo o que seu chefe mandou.

O homem joga seu jaleco no chão e entra no elevador mais próximo, deixando que sua equipe de médicos retirasse o coração azul.

Quando vê o rosto do homem segurando a seringa, Alexander percebe que já é tarde demais. Tenta, mas não consegue nem se mover daqueles braços fortes. Ainda conseguia sentir a dor no estômago.

Theodore dá um sinal para o homem gigante que segura Charlie, que aparentava estar passando mal pela coleira. Seu subordinado empurra o pálido em direção ao chefe, caindo de joelhos. O homem puxa a cabeça de Rain pelos cabelos. A dor é demonstrada pela expressão desconfortável do menino.

Uma agulha é apontada para a pele clara do menino. Um olhar destruidor é apontado para outro amedrontado de um loiro.

Um chute é dado por trás das pernas de Alex, levando seus joelhos ao chão, mas sem ter a liberdade em seus braços. Com um olhar de lado, percebe que foi dado por Clarisse Grace, sua irmã traidora.

Os olhos tenebrantes de Alexander chegam aos coloridos de Charlie. Queria buscar paz de alguma forma. Queria os braços do menino para descansar. Queria o proteger dos pesadelos noturnos. Queria ver aquele sorriso contagiante. Queria um toque de vida.

Queria que aquilo tudo não estivesse acontecendo.

- Aproveite o show, Grace - São as palavras alegres de Vitae.

Então toda a A42n tem sua energia desligada. Como todos os andares da torre.







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