Civil

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Filas e mais filas de homens.

Este era o resumo para todos os andares da Torre Sede. Milhões de homens, militares, recebendo uma dose do soro de cura genética. O líquido de tom levemente azulado entrava rapidamente pela agulha nos pescoços daqueles soldados.

Vitae estava satisfeito com o número. Era suficiente para o Plano B. A movimentação na Torre durou quase sete horas completas. Todos os soldados norte-americanos receberam sua dose. Agora bastava um simples comando no painel de controle que se encontrava na Área 42 negativo ou simplesmente, A42n. Caso houvesse algum tipo de explosão contra a torre, qualquer andar acima do solo pode ser facilmente destruído.

O mundo é dos estrategistas.

- Boa tarde senhoras e senhores - Ellen Jinkiee, a apresentadora do programa The Biologic Virus, o maior e mais renomado programa televisivo não só do país, mas de todo o mundo, anuncia o início de seu show. A loira lança um enorme sorriso para uma das câmeras - Esta tarde estaremos com mais experiências loucas e destrutivas, as notícias mais explosivas possíveis do mundo, a previsão do tempo com a participação de Jane Ann, uma apresentação inédita do novo álbum da banda Heavy Molotov, vários vídeos de fofos gatinhos entrando em caixas de papelão, dentre muitos outros quadros!

Ela manda o olhar para outra câmera e sorri novamente, então continua:

- Mas antes de tudo, uma entrevista mais que especial com o cientista e doutor em nano tecnologia e genética humana, Theodore Vitae!

Um feixe de luz é lançado para a enorme cortina vermelha de veludo no palco. O homem vestido com um maravilhoso e fino terno branco sai daquela entrada, sendo seguido com uma salva de palmas da platéia ali presente. Aproxima-se de Ellen e a abraça levemente, depois senta-se à cadeira ao lado da apresentadora.

- Obrigada pela presença em nosso programa, senhor Vitae - Ela lança um aperto de mão para o homem, que o aceita de imediato. Então ela se volta para as câmeras - Como todos estamos sabendo, Vitae recentemente anunciou na Casa Branca o sucesso de sua mais recente pesquisa, o Projeto Lune. Senhor Vitae, poderia nos apresentar seu projeto?

- Claro que sim, Ellen - Ele abre um tremendo sorriso e olha em direção à cativante platéia - Já imaginaram poder viver o quanto quiserem? Um organismo imune a todas as doenças ou vírus do mundo? Resistência infinita, leveza, destreza, habilidade, força? Basicamente, o soro desenvolvido por meus laboratórios destrói o gene que transforma os humanos em mortais. Espero que em alguns dias, estejamos distribuindo para o público civil, primeiramente nas grandes cidades, depois nos interiores e localidades mais pobres.

Uma salva de palmas invade o estúdio do programa. A platéia presente vai à loucura com a notícia.

E Vitae sorri com isso.

- E seus laboratórios têm suporte de criação suficiente para a população global, senhor Vitae? - A pergunta da apresentadora põe o ambiente no completo silêncio.

- Na verdade sim, Ellen - O homem diz com completa calma - Podemos dizer que a Torre Sede tem uma produção infinita do soro genético e tenho certeza que posso vacinar a população mundial completa com ele, transformando a humanidade em uma nova evolução desde o primeiro Homo Sapiens. Então podem ficar tranquilos que todos receberão a dose do soro, inclusive você Ellen.

A platéia aplaude enquanto a jovem loira ri graciosamente.

Vitae tem uma fonte infinita de corações mutantes para si no último andar da Torre. O portal para o Mundo Relativo está em pleno funcionamento e são explorados milhares de Lunes por hora pelas gigantescas e poderosas máquinas de ferro, totalmente equipadas, para ter a certeza que os habitantes sejam mortos e dilacerados.

É um verdadeiro massacre dimensional.

Tudo pela ambição de poder. O Homovitae Sapiens, a nova e primeira evolução humana sintética da humanidade, guarda dor, desespero e morte de toda uma dimensão inocente.

Aplausos esses que são sentidos até mesmo na cafeteria onde Charlie Rain e Alexander Grace estão. Depois de correrem em plena luz da manhã por quase meia hora sem descanso, encontraram um estabelecimento aberto e seguro, onde poderiam parar para respirar e reorganizar forças. E assim fizeram.

- A culpa disso tudo é minha - Charlie quebra o silêncio antes formado pelos garotos. Sua visão está concentrada na pequena xícara de café em sua frente - Ele não devia ter finalizado esse projeto e fui eu quem o deu a entrada do Mundo Relativo.

Alexander deixa de prestar atenção na pequena e velha televisão presa ao teto da cafeteria e olha de imediato para o garoto ao seu lado. Triste e pensativo é o estado do olhar do menor para os simples itens de porcelana.

- Nada disso é sua culpa, Charlie - O loiro pousa a mão nas costas do rapaz, como forma de o estimulá-lo - Você sabe disso.

O menino suspira lentamente.

- Mas se eu tivesse sido mais corajoso...

- Não existe um nível de coragem maior que o seu - Grace o corta rapidamente - Olhe por tudo o que já passou nessas duas semanas. Tudo que aconteceu e conseguiu superar. Você é a pessoa mais corajosa que eu já tive a oportunidade de conhecer.

O menino assente várias vezes e fita o garoto maior. Alexander tem sido seu melhor amigo desde o começo, mesmo com os erros que cometeu, permaneceu firme em continuar guiando e apoiando Charlie em tudo. Em momentos de felicidade, tristeza e medo.

- E o que nós iremos fazer? - O menino pálido pergunta enquanto Alex termina de tomar seu café.

- Nós? - Alexander pergunta - Você acha que vou permitir que você entre em perigo novamente? Já cometi esse erro mais de uma vez e jamais me perdoaria se algo acontecesse contra você de novo.

Charlie lança um olhar pesado para o maior. Um olhar carregado de culpa, raiva e adrenalina.

- Eu vou com você - Diz simplesmente - Não quero que se arrisque completamente por algo que foi erro meu. 

- Você não está entendendo, Charlie? - Ele aumenta o tom de voz - Não quero que se machuque. Estou tentando fazer isso para o seu bem.

- Eu não vou ficar parado enquanto arrisca sua vida por mi...

O menino é interrompido por um forte estrondo vindo do lado de fora da cafeteria, seguido por um estilhaçar da janela próxima a eles. Uma bomba havia sido explodida e o corpo de um homem civil fora lançado contra o fino vidro. A atendente e os outros poucos clientes gritam com o susto e Alexander rapidamente puxa o menor e o leva para detrás do balcão, próximos a uma porta para a saída dos fundos. O loiro checa a presença do revolver carregado preso á bainha de sua calça.

Estavam perdendo tempo ali e Grace percebeu isso quando já era tarde demais.

Duas filas de vinte homens armados estavam marchando na rua. Todos aparentavam um estado de obediência controlada, como uma forte hipnose ou controle mental.

E todos usavam o fardamento militar dos Estados Unidos da América.

Tinham que ir para a Torre.

Agora.


O homem de terno dá rápidos passos em direção ao elevador executivo, sendo seguido por seu gordo secretário, James Hunk.

Quais são as estimativas, Hunk? - Theodore pergunta sem nem mesmo olhar para os olhos do homem, aguardando que as portas de metal reforçado abrissem.

- Todos os militares receberam suas doses do soro com nano-chips há cerca de quinze minutos - O homem lia as informações de sua prancheta com velocidade - Ligamos os sistemas e funcionaram perfeitamente. As primeiras ordas já estão sendo liberadas em vários pontos da cidade, enquanto o restante é levado uniformemente para todo o Estado. 

Um sorriso doentio e maligno escapa dos lábios do homem de 54 anos de idade. 

- Perfeito - Ele diz, simplesmente, num baixo tom de voz como um sussurro

Que o Plano B comece.





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