Capítulo 3

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—Droga, que frio. Que ser humano que tem Deus no coração, deixa um gato assim, no frio e na chuva? —Resmungo comigo mesmo, olhando a minha volta.

Continuo procurando a fonte do miado e à medida que me aproximo, tenho mais certeza de que vem do lixo. Corro para perto da lixeira e procuro com os olhos algo que se assemelhe a um gato. Vejo uma caixa de sapatos suja e tenho a impressão de ter visto a tampa se mexer. Pego a caixa na mão e balanço fracamente.

Escuto um miado semelhante a um gemido fraco vir de dentro da caixa. Abaixo-me e a coloco no chão. Tiro meu roupão e abro a tampa me preparando para apanhar o gato caso ele tentasse fugir assustado. Mas pelo contrário; me deparo com uma das coisas mais chocantes que já vi em toda a minha vida.

—Oh, meu Deus, é u-um bebê! —Exclamo assustada.

O bebê ainda sujo começa a ficar roxo e se eu não agisse rapidamente, ele com certeza morreria. Cubro o pequeno corpinho com meu roupão e apanho o bebê da caixa. A única pessoa no meio da madrugada com uma chuva já forte e um frio congelante provavelmente era eu. Meus braços ficam dormente ao sentir um vento gelado eriçar meus pelos, mas ignoro totalmente. Entro na casa escura, e acidentalmente derrubo um vaso do criado mudo em minha procura pelo interruptor. O estrondo faz o pequeno bebê chorar, e o desespero em mim se aflorar ainda mais.

Ouço passos contra o carpete no andar de cima, mas me concentro em sentar no sofá e transmitir o calor do meu corpo para o bebê.

—O que você está fazendo, caralho? É madrugada e minha cabeça está latejando! —Kiki aparece no alto da escada visivelmente irritada, com Xubs logo atrás.

—ME AJUDEM! PEGUEM O MÁXIMO DE LENÇÓIS QUE VOCÊS CONSEGUIREM CARREGAR, RÁPIDO. —Grito para as duas despertarem totalmente do estado sonolento, e me ajudarem com aquela situação embaraçosa.

—O que é isso aí? —Xubs desce os degraus e se aproxima me analisando quase despida, com um pacote na mão. —MEU DEUS! É UM BEBEZINHO! QUANDO VOCÊ TEVE UM BEBÊ? VOCÊ TEVE UM BEBÊ? KIKI ELA TEVE UM BEBÊ! —Ela sobe as escadas correndo.

O QUÊ? —Responde Kiki do andar de cima.

Ela desce os degraus aos tropeços, com metros de pano e mãos.

—CLARO QUE NÃO! ACABEI DE ACHAR ESSE BEBÊ LÁ FORA. —Falo com a respiração entrecortada, sentindo a adrenalina tomar meu corpo. — Que ser humano tem a coragem de fazer uma maldade tão grande?

Tiro meu roupão do bebê, e ele resmunga. Enrolo-o em vários lençóis, e o vejo clareando por estar mais quente.

—Tome Xubs, vá para o quarto com ele e o mantenha aquecido. Vou ligar pra minha mãe e avisar que vou para o hospital. —Coloco o bebê em seus braços, com extremo cuidado.

Saio correndo, enquanto vejo Xubs ir com o neném para o quarto. Disco o número da casa dos meus pais rapidamente e segundos depois minha mãe atende com uma voz sonolenta.

Alô?

—Mãe? Mamãe, sou eu, Lana. Liguei para avisar que estou indo para o hospital Lenox Hill, aconteceu uma coisa e, por favor, me encontre lá com meu pai.

Ai meu Deus. O que aconteceu Lana? São três e quarenta e nove da manhã!

—Mamãe, não é nada comigo, eu juro. Só vá, já estou saindo.

Frances, Frances acorde seu velho podre sua filha está pre...

Desligo o telefone e vou para o quarto. Vejo dois pares de olhos atentos, olhando um embrulho pequeno. Seria até fofo, se não fosse pela situação de urgência.

—Kiki, você vai ficar em casa com essa ressaca horrorosa, enquanto eu e Xubs, que está bem menos bêbada que você, levamos o pequeno para o hospital

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—Kiki, você vai ficar em casa com essa ressaca horrorosa, enquanto eu e Xubs, que está bem menos bêbada que você, levamos o pequeno para o hospital. —Falo apressada.

—Não é pequeno, é pequena. —Responde emburrada.

Tomo o bebê de seus braços, e calço os primeiros sapatos que encontro, caminhando para fora.

—Não precisa se preocupar, não vou deixar nada de ruim te acontecer. —Sussurro olhando o rostinho avermelhado. Em resposta, recebo um aperto no dedo em que sua pequena mão está enlaçada.

Meu coração se enche de amor. Olho melhor para o bebê e afasto um pouco o lençol de sua barriga, encontrando o cordão umbilical. Mal nasceu e já foi abandonada, pobrezinha. Xubs senta no banco do carona com meu casaco em mãos. A adrenalina era tanta que eu nem tinha me lembrado do frio.

—Segure-a. —Entrego-lhe o bebê, e apalpo os bolsos do meu casaco.

Acho a caixinha do fio dental, e arranco um longo pedaço do fio azul. Coloco três dedos meus deitados na base do cordão, e em seguida posiciono o fio acima da marcação mental. Peço para Xubs segurar o cordão umbilical, enquanto eu "serrava" com a tesoura improvisada. Demorou vários minutos para acalmar o bebê.

Chego na frente do hospital, e estaciono de qualquer jeito. Pego o bebê do colo de Xubs e saio correndo, como se minha própria vida dependesse disso. A mulher da recepção arregala os olhos ao ver minha situação. Cabelos emaranhados, molhados por conta da chuva, e as mãos sujas de sangue com um recém-nascido nos braços.

—Eu a encontrei na lixeira da minha casa. Por favor, me ajude, ela pode estar morrendo. —Digo com os olhos marejados.

Então a mesma percebendo a gravidade da situação, não pergunta mais nada. Apenas providencia uma maca e médicos habilidosos, fazendo-me entregar o bebê que em tão pouco tempo esquentou meus braços e aqueceu minha alma, deixando-me com uma sensação de vazio.

Vejo de longe meu pai e minha mãe correndo em minha direção.

—O que aconteceu filha? —Os dois falam juntos, com os rostos transbordando preocupação.

Após explicar o ocorrido aos meus pais, avisto dois policiais caminhando em nossa direção.

—Olá. Meu nome é Alaric. —Um homem que aparenta ter seus trinta anos, alto, branco, magro e um pouco careca, estende a mão para nós. — E esse é meu parceiro.

Ele aponta para um policial gorducho e baixo, provavelmente da mesma idade.

—Policial Craig. —Estende a mão para nós logo atrás de Alaric.

—Bom... Pode nos informar onde, em que horas e como encontrou aquele bebê, senhora? —Alaric diz se dirigindo a mim.

Respondo essas e mais algumas longas perguntas. Quando me dei conta, o relógio marcava cinco horas da manhã. Sentia meu corpo dolorido por conta das cadeiras nada confortáveis da recepção do hospital.

—Não se preocupe princesa, tudo irá dar certo com a bebezinha. —Papai diz acariciando meus cabelos. —Descanse um pouco, quando chegarem notícias te acordamos.

E são as últimas palavras que ouço antes de cair no sono. 

Apesar de VocêOnde histórias criam vida. Descubra agora