Alex Holbrook
Vejo a pequena pedra achatada sair de minha mão e deslizar sobre a superfície do lago e é como se eu voltasse no tempo. Voltasse para a época em que eu e meu pai vínhamos para a cabana para passar os fins de semana. Pescar, fazer uma fogueira, contar histórias bobas ou, então, jogar pedrinhas no lago que fica atrás da pequena casa de madeira.
Mas as coisas mudaram agora. Meu pai não está mais aqui, e me dói toda vez que penso que o motivo de sua morte ainda perambula por aí, sem punição alguma. Foi por isso que fiz uma promessa para mim mesmo, para o meu pai, para Jo, para todo mundo que já sofreu por causa de George Wright. Eu vou fazer ele pagar por tudo.
O único problema é que a peça que eu pensei ser essencial para o meu quebra-cabeça, agora não se encaixa em lugar algum: Emma.
Ela me faz duvidar de mim mesmo, me faz fazer coisas que eu nunca faria. Me faz querer desistir de meu plano só para poder deixá-la ir. Mas não posso deixar que isso aconteça. E é por esse motivo que permiti que Jo descontasse sua raiva nela. Eu precisava provar para mim mesmo que ela não me afeta, que ela é só mais uma peça no meu plano de vingança.
Mas eu me enganei. Emma é muito mais que isso. Cada soco que ela levava eu também recebia, e, mesmo assim, deixei acontecer. Quando eu finalmente pedi que Jo parasse, já era tarde. Eu já havia estragado tudo e agora eu sei que Emma nunca vai me perdoar.
Solto um grunhido abafado enquanto jogo mais uma pedra no lago. Dessa vez, ela não desliza, mas afunda, causando pequenas ondas na superfície da água. Vejo meu rosto, ali refletido, aos poucos ficar deformado. Uma boa representação de tudo o que eu sou. Um erro completo.
Fecho os olhos, esperando até que minha imagem volte a sua forma original, na esperança de que tudo volte ao normal também.
Quando volto a abrir os olhos, há mais de um rosto refletido na água. Os olhos de Jo estão me encarando, vazios. Ela terminou de fazer o trabalho de Emma e cortou seu cabelo todo, o que o faz ficar só um pouco maior que o meu.
Lembro-me da primeira vez que a vi. Ela estava com o mesmo olhar arrasado.
Era uma tarde de domingo e uma chuva fina caía sobre mim. Eu estava preparado. Apesar da dor e da raiva, eu estava preparado para deixá-lo ir. Porque no fundo eu sabia que George iria pagar pelo que fez. Eu mesmo iria garantir isso.
O cemitério estava cheio. Fizeram uma espécie de memorial e todos os corpos das vítimas do atentado seriam sepultados no mesmo dia. Eu queria ficar sozinho com meu pai, mas não reclamei. Ele estava sendo lembrado e aquilo me fazia bem, apesar de tudo.
A cerimônia foi demorada, algumas homenagens foram feitas e preces foram dedicadas. Durante todo o processo eu não me pronunciei, continuei parado perto do caixão de meu pai. A madeira ficando cada vez mais molhada com os pequenos pingos de chuva. E ali fiquei, mesmo quando a maioria já havia partido.
Fiquei para ter certeza que seu corpo seria enterrado devidamente. Que George não tiraria aquilo de mim também. Fiquei.
E quando finalmente estava pronto para ir embora, algo me chamou a atenção. Algo, não, alguém. Jo.
Ela estava, assim como eu, em pé perto do caixão de seu pai. Ela não chorava, seu olhar era triste, mas não haviam lágrimas. Eu entendia, porque também já não chorava mais. Acho que chega um momento em que as lágrimas simplesmente secam. Jo segurava um retrato contra seu peito e observava enquanto o coveiro descia mais um caixão para debaixo da terra.
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Sequestrada #Wattys2016
Random"- A partir de agora, eu quero que você esqueça tudo o que você acha que sabe sobre sua família." Quando um atentado a um avião do governo matou centenas de pessoas, a última coisa que Emma Wright poderia imaginar era que sua família tives...
