Capítulo 9 - Corte

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Abro os olhos assustada.

Eu estava correndo. Correndo por entre árvores gigantes. Tão grandes que minha vista não alcançava suas copas. E, então, eu caí. Caí em buraco escuro e sem fim. As árvores começaram a ficar cada vez mais distantes, até que tudo à minha volta se tornou escuridão.

Tento me agarrar à alguma coisa. Qualquer coisa. Até que percebo que não estou mais caindo. Estava tendo um pesadelo. Solto o ar que prendia dentro de meus pulmões. Meu coração está acelerado.

Essa noite eu não dormi no colchão. Depois que voltei para o quarto ontem, eu nem me movi. Não conseguia. Nem um dedo sequer. Estava presa ao chão, feito chumbo. Tudo o que se passava em minha cabeça era Alex e o ódio expresso no seu rosto, nos seus olhos, no jeito como ele me sacudia contra a parede.

E agora, isso é tudo o que eu sinto também. Ódio. Repulsa. Confusão. Tudo misturado.

Ouço barulho de chaves na fechadura da porta e me arrasto para sair da frente. Dennis entra no quarto. Ele não traz nada consigo. Nenhum prato de comida, nenhum copo de água.

— Vamos — ele diz, me levantando pelo braço. — Hora de levantar.

Dennis me segura forte, mas já estou acostumada. Ele me arrasta pelo corredor e acho que estou sendo levada para mais uma sessão em que eles tentam me colocar contra meu pai, mas me engano. Dennis passa direto pela cadeira em que sempre me colocam e me carrega até a porta de saída da cabana.

— Espera, onde tá me levando? — pergunto, tentando fazê-lo parar, sem sucesso.

— Alex acha que você já pode sair um pouco do quarto.

Olho para Dennis, sem entender nada. Mas ele não retribui o olhar, ao invés disso, ele continua me levando até a porta e quando a abre, a claridade do dia quase me deixa cega.

Pisco várias vezes para tentar me acostumar com a luz. Nem sei quantos dias fazem desde que estou presa dentro da cabana. Um vento frio me atinge e deixa os pelos de meus braços ouriçados. Estamos no meio do outono e o chão está repleto de folhas secas. Respiro fundo, sentindo o cheiro das árvores. Cheiro esse do qual nunca fui muito fã, mas que agora é o melhor perfume que já senti.

Fecho meus olhos, mas Dennis não me dá muito mais tempo para apreciar o momento, pois volta a me arrastar até a escada da varanda. Ele me faz sentar à força, e depois amarra meus braços na coluna da sacada, me deixando presa novamente. Solto um gemido angustiado.

— Você ainda é a nossa prisioneira, Emma — ele diz, quando termina.

De repente, escuto barulho de passos. Eles vêm de entre as árvores e parecem chegar cada vez mais perto. Dennis escuta também e coloca uma das mãos sobre a minha boca, para impedir que eu grite. Ele me dirige um olhar ameaçador e tira um canivete de seu bolso, o posicionando bem abaixo de meu queixo. Ele não precisa dizer nada para que eu entenda o recado.

O barulho continua a ficar mais alto e começo a suar frio. A lâmina afiada do canivete de Dennis quase perfurando minha pele. Fecho os olhos, com medo de descobrir o que vai acontecer quando os passos chegarem à cabana. Mas nada acontece. Posso sentir a respiração aliviada de Dennis sobre mim. Abro os olhos para encontrar Alex e Jo saindo de entre as árvores. Jo está pendurada em seu braço e os dois conversam na maior tranquilidade. Sem perceber que eu e Dennis estamos aqui.

Dennis retira o canivete de meu pescoço, mas não antes que Alex possa vê-lo em sua mão, finalmente notando nossa presença.

— Dennis! — ele grita, na mesma hora, se soltando de Jo e caminhando em nossa direção. — Que merda é essa? — pergunta, pegando o canivete das mãos de Dennis.

Sequestrada #Wattys2016Onde histórias criam vida. Descubra agora