A voz de Jo toma conta do cômodo e me pega de surpresa. Meu corpo fica paralisado e continua a bloquear a porta de trás da cabana.
— Emma! Abre a porta! Por favor! — Alex grita do outro lado e só então consigo me mover.
Saio da frente da porta e ele entra ofegante. Não consigo desviar meu olhar de Jo, mas Alex nem percebe que ela também está aqui.
— Emma, me desculpa, eu não queria... — ele começa a falar mas assim que acompanha meu olhar sua boca fica muda, seus olhos encontram os dela e ele engole em seco. — Jo.
— "Jo"... — ela repete com uma risada irônica. — Sério, Alex? Parece até que viu um fantasma.
Ela caminha até ele e pressiona seus lábios pálidos em seu maxilar. Ela é baixa demais para conseguir atingir a boca de Alex e ele não faz esforço nenhum para que ela consiga. Assisto a cena com um nó no estômago. Tudo que eu quero no momento é desaparecer.
Jo percebe que estou desconfortável e abre um sorrisinho satisfeito.
— Mas então, quem vai responder minha pergunta? — ela diz, soltando-se de Alex. — Que merda tá acontecendo?
— Nada, não tem nada acontecendo. — Alex diz rapidamente, na defensiva, mas ele sabe que Jo não acredita.
— Por favor... Eu não sou idiota — ela fala enquanto caminha até mim. Ela segura meu maxilar, levantando meu rosto levemente. — Essa cara de choro, os cotovelos ralados... — ela observa, enquanto balança a cabeça em descrença e volta a encarar Alex. — O que aconteceu?
Ele fica sem reação. Sua boca está levemente aberta, mas nenhum som é emitido. O ambiente fica extremamente quieto, tanto que daria para ouvir uma agulha caindo no chão. Sinto calafrios subirem pela minha espinha e sei que a última coisa que quero é que Jo descubra que estou aprendendo a lutar. Então antes que Alex conte tudo à ela, eu falo primeiro:
— Eu tentei fugir — minha voz sai baixa e não é nem um pouco crível.
— O quê? — Jo fala, como quem não ouve direito.
— Eu tentei fugir — repito, dessa vez com mais firmeza. — Mas caí e Alex me alcançou. Por isso o cotovelo ralado.
Jo fica um tempo quieta, me encarando, como se analisasse cada palavra que saiu de minha boca. Quando termina, olha para Alex, que respira aliviado.
— É verdade — ele diz.
— Você nunca aprende, não é?
— Parece que não — respondo, sem transparecer a satisfação que estou sentindo por ver Jo acreditando em minhas mentiras.
Ela me dá as costas e vai até sua mochila, que está jogada em cima da cadeira em que eu costumava ficar presa.
— Eu tenho algo pra você — ela fala, apontando o dedo para mim enquanto retira da mochila papéis de textura acinzentada. Ao que tudo indica são jornais.
Ela joga as folhas para mim e as pego antes mesmo que possam tocar o chão.
— O que é isso? — pergunto, mas não obtenho resposta alguma.
E nem preciso. A matéria principal do jornal faz meu coração parar e meus olhos se encherem de lágrimas. Lá está ele com seu terno azul marinho escuro perfeitamente engomado, acenando para o público. Meu pai. Ele ganhou. Ganhou as eleições. A notícia me atinge de um jeito inesperado. Eu esperei por esse momento há meses, mas nunca imaginei que aconteceria assim. Nunca imaginei que não estaria com ele quando ele conseguisse. E o pior é que não consigo ficar feliz. Não da forma que esperei ficar. Não sinto nada além de surpresa e saudade. Fora isso, meu peito é um espaço vazio.
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Sequestrada #Wattys2016
Sonstiges"- A partir de agora, eu quero que você esqueça tudo o que você acha que sabe sobre sua família." Quando um atentado a um avião do governo matou centenas de pessoas, a última coisa que Emma Wright poderia imaginar era que sua família tives...
