Eu posso fazer isso!!

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Corri para fora do colégio em direção ao trabalho, antes que Kenon saísse do vestiário

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Corri para fora do colégio em direção ao trabalho, antes que Kenon saísse do vestiário. Com certeza, ele estava surtando com o que eu tinha feito. Mas simplesmente não consegui ficar parada diante daquela situação. Odiava tudo o que acontecia naquele colégio, mas estava começando a me odiar ainda mais por só assistir e não fazer nada.

Na segunda-feira, passei na casa de Kenon, mas ele já tinha saído. Achei estranho, já que ele sempre me esperava. Segui sozinha até o colégio. Ao entrar, senti os olhares sobre mim enquanto cruzava os corredores em direção ao meu armário. Quando o vi, lá estava: uma fita vermelha pregada na porta.

Arranquei aquela porcaria com um puxão só, girei o cadeado e... nada. Tentei mais duas vezes, e então entendi. "Trocaram a combinação, que original", pensei, irritada. Desisti de pegar o livro de história e fui direto para a sala de aula, mas ao chegar lá, minha carteira tinha sumido. Todos riam, achando aquela piada infantil o máximo.

Dei a volta e, pela janela, vi minha carteira jogada perto das lixeiras no pátio. Respirei fundo e desci para pegá-la, mas antes que conseguisse chegar lá, algo frio e nojento caiu sobre a minha cabeça. Restos de comida. Olhei para cima e vi alguns alunos se contorcendo de tanto rir. E não satisfeitos, jogaram a lixeira também que quase me atingiu.

O resto do dia não foi diferente. Fui alvo de bolinhas de papel nas aulas, comida no intervalo e olhares maldosos o tempo todo. Mas o pior de tudo era não ter visto Kenon uma única vez. Onde ele estava? Seus pais disseram que ele tinha saído de casa cedo para o colégio.

Estava sentada em uma das escadas, tentando tirar um pedaço de queijo do meu cabelo, quando vi Kenon finalmente aparecer. "Kenon!", chamei, levantando e acenando para ele. Mas ele abaixou a cabeça e saiu andando rápido, na direção oposta.

Aquilo me pegou de surpresa. Meu melhor amigo... me ignorando? Fiquei parada por um momento, tentando entender. Mas antes que pudesse processar, senti meu corpo ser encharcado. Uma garota da minha turma, com mais duas ao lado, segurava um balde vazio, rindo da minha cara.

— Coitadinha, até seu amiguinho te largou — disse ela com desprezo.

— O que eu fiz pra vocês? — perguntei, sentindo a raiva subir.

— Você existe, esse é o problema — respondeu outra, com um sorriso cruel. — Alguém como você não deveria nem estar nesse colégio.

— Você é um estorvo, pobre coitada — a terceira completou, me empurrando.

Eu não sabia se reagia ou não. A imagem de Kenon me ignorando ainda rodava na minha cabeça. Senti as lágrimas começarem a se formar, mas me recusei a chorar na frente delas. Empurrei-as de volta e saí correndo.

Acabei entrando por uma porta de emergência que dava para uma escada de metal em caracol do lado de fora do prédio. Fiquei lá, sozinha, descontando minha frustração.

— Idiotas! Todos uns idiotas! — gritei, sentindo uma mistura de raiva e impotência. — Eu devia bater em todos  e ser expulsa de vez!

— Preferia não ser incluído nessa parte — uma voz disse de repente, me fazendo congelar.

Olhei em volta e vi Thomas, um dos quatro "intocáveis", sentado alguns degraus abaixo, folheando uma revista.

— Há quanto tempo você está aí? — perguntei, surpresa e sem saber o que esperar.

— Desde os grunhidos de ódio até a ameaça de agressão — respondeu ele, sem nem levantar os olhos da revista.

Fiquei parada, sem saber o que fazer. Ele, então, olhou rapidamente para mim e disse com calma:

— Pode descontar sua raiva em outro lugar? Esse aqui é meu espaço.

— Tudo bem — murmurei cansada demais para discutir e pronta para sair, mas ele me interrompeu.

— Espere, você parece ser quem está com mais problemas, então pode ficar por hoje.

Ele deu de ombros e subiu as escadas, desaparecendo. Fiquei ali sozinha, surpresa por ele ter me deixado em paz. E assim, passei o resto do dia sozinha ali, quieta, até o sinal tocar.

Quando saí do colégio mais animada, o sol já secava minhas roupas e cabelo. Apesar de tudo, estava mais tranquila. Quando vi Kenon me esperando na saída do trabalho, percebi que a raiva que eu tinha sentido dele já tinha passado.

— Oi — ele disse, quase num sussurro, claramente desconfortável.

— Oi, Kenon — respondi, caminhando até ele.

— Rachel, me desculpa por hoje. Eu sou um péssimo amigo, eu fui covarde, e vou entender se você nunca mais quiser falar comigo, mas... — começou ele, falando rápido como sempre faz quando está nervoso.

— Kenon, calma. Eu não estou com raiva de você — interrompi, sorrindo para acalmá-lo. — Eu entendo o que você fez.

— Jura? Mesmo depois de eu ter sido tão covarde?

— Fiquei surpresa, mas não estou brava. Além disso, eu provavelmente não vou ficar muito mais tempo naquele colégio então não faz sentido você se sacrificar .

Kenon soltou um suspiro de alívio, visivelmente mais tranquilo.

— Você é a melhor amiga que alguém pode ter — disse, pegando minhas mãos.

— Ok, mas isso vai te custar um milk-shake — brinquei, passando o braço por cima dos ombros dele. E assim, seguimos juntos, nossa amizade intacta.

Quando cheguei em casa, estava decidida a falar com minha mãe sobre sair do colégio.

— Cheguei! — anunciei ao entrar.

Minha mãe estava na cozinha preparando o jantar, enquanto meu irmão, Gustavo, desenhava no tapete da sala.

— Oi, querida! Como foi o dia? — perguntou ela, animada.

— Foi... tudo bem. Mas preciso conversar sobre o colégio.

Ela não me deu tempo de continuar.

— Ah, estou tão feliz que você esteja estudando num lugar tão bom. Deus ouviu minhas orações. Tenho certeza de que coisas boas estão por vir para você!

Eu senti um aperto no coração. Como eu podia dizer a ela que queria sair?

— Mãe, eu...

— Tenho uma surpresa pra você! — ela me interrompeu de novo, voltando da sala com um embrulho. Abri e vi uma mochila branca, de marca cara.

— Isso deve ter custado uma fortuna! — eu disse, chocada.

— Foi uma promoção, e vou fazer umas horas extras. Você merece.

Eu suspirei e a abracei. Não consegui mais falar sobre o colégio. Minha mãe estava tão feliz, e eu não queria tirar isso dela. Só precisava aguentar mais um ano.

Eu posso fazer isso, pensei. Afinal, o que mais de ruim poderia acontecer?

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