Em nenhuma variável do universo eu imaginaria Meg e Mike juntos. Meg representa a Emily que gostava de beisebol, zombava dos próprios amigos nerds e era apaixonada por Will, um menino moreno e forte que usava brinco e tinha um sorriso arrebatador. Mike representa a Emily que precisou aceitar o mundo imposto e se superar. E isso significava dizer que eu precisaria caçar, matar, fugir, matar, lutar, matar e fazer o que precisasse ser feito para garantir que meia dúzia de psicopatas com conhecimento avançado em química e acesso irrestrito a compostos perigosos não exterminasse a raça humana e todo o seu legado revolucionário. Talvez eu esteja mentindo um pouco sobre o verdadeiro legado da humanidade, mas se será o nosso fim, que passemos uma última boa impressão.
Além disso, quem espera encontrar a irmã caçula morta e o antigo mestre morto no mesmo hospital? Respirando tão erroneamente que era fácil prever que eles sabiam sobre mim, sobre a minha presença.
Andei. Mas que fique claro que andar nunca fora tão difícil. Por que eu estava andando em direção ao que eu não poderia prever, entender ou acreditar.
O meu sexto sentido sussurrando para que eu fugisse. A teimosia me fazendo prosseguir. A mente borbulhando com as previsões. Os batimentos cardíacos se amontoando num só lugar. Prontos para me recepcionar. As lágrimas secas no rosto. O choque se atenuando até eu me sentir mais estável e segura do que jamais havia me sentido na vida.
"Não tenha medo" ouvi a vozinha dentro da minha cabeça dizer. Não. Não era a vozinha. Era Mike, entrando na minha mente.
Sua habilidade causava inveja entre os membros da nossa equipe. Até aqueles com força inumana ou controle total de habilidades que mataram grande parte da população mundial trocariam seus dons pelo que chamamos de hipnose sem transe. Mike era o cara que invadia os subconscientes e guiava as mentes para ver, ouvir, sentir, esquecer, ou fazer quase tudo que ele quisesse.
No começo foi engraçado assistir ele invadir mentes e provocar amnésias ou risadas descontroladas. Nada que a hipnologia não permitisse. As coisas ficaram complicadas quando ele começou a torturar nossas mentes usando nossos medos. O discurso era o de sempre. Tornar-nos mais fortes, resistentes, insuperáveis.
Eu dei trabalho para Mike no quesito "encontre o medo". Antes do medo dos hospitais, eu não imaginava nada que não pudesse superar. Então ele mudou o jogo para "encontre o trauma". E eu revivi cada cena de cada morte de cada pessoa que eu amava mais vezes do que conseguiria contar. Não me tornou insuperável, talvez só um pouco mais fria.
Lembro perfeitamente quando aconteceram. Vinte dias depois dos noticiários relatarem os surtos epidêmicos nos pontos chaves da Europa e ninguém sabia de onde vinha, como começava ou porque acontecia. Tudo que sabíamos era o potencial pandêmico do vírus que em uma semana matou a sexta parte do continente Europeu. Caso queira calcular, dará aproximadamente cento e vinte e quatro milhões. Em uma semana. Uma semana. Sete dias. Mais de oito milhões de pessoas morrendo por dia. Eu não quero começar a fazer comparações, mas perto disso, a peste bubônica parecia uma piada.
O silêncio da Organização Mundial da Saúde era o que mais aterrorizava a população. Pois se tínhamos que confiar em alguém para parar esse vírus, esse alguém teria que ser o órgão que erradicou a varíola. Mas o H6N3 era diferente. Era mais letal, mais rápido e diferente de tudo que qualquer virologista já havia visto. A última nota que foi feita era um tipo de "o foco está aumentando rápido demais e vamos todos morrer, despeçam-se". Mas de um jeito que causasse menos tumulto.
Nenhum organismo humano era imune ao vírus. Na melhor das hipóteses, mais resistente. E quanto maior a mutação genética, menor o tempo de vida. Algum idiota achou que a humanidade precisava de superpoderes e era basicamente isso que, em teoria, o vírus fazia. Se o hospedeiro infectado sobrevivesse à febre, dor de cabeça e sangramento, chegaria ao fim da "passagem" e iniciaria a fase da mutação. As diversas formas de alterações genéticas se espalharam. E quanto mais severas, menores as chances de sobrevivência. Os piores casos foram o dos homens chamas, homens elásticos e os que apenas viraram gelo e morreram assim. Pessoas literalmente queimando a própria carne ou virando gosmas borrachudas esparramadas no chão.
O caso de Jonas foi o do congelamento. Lembro-me dele comemorar o novo poder e se gabar do alto controle ao fazer a sua mão esfriar até congelar a água dentro do copo de vidro. Mas Lucas pressionou, queria mais que água congelada. E Jonas achou que poderia. Esfriou o copo até o vidro se estraçalhar. Estávamos tão atônicos com aquilo que não reparamos que Jonas também havia congelado. Só depois do alvoroço eu senti o frio na minha própria pele.
Olhei para Jonas e lá estava a estátua de gelo, coberta por uma espécie de casca transparente e gelada que me fez ter certeza que nenhuma defesa natural do seu corpo o esquentaria novamente.
— Minha nossa — Lucas falou — minha nossa, minha nossa, minha nossa! — seu desespero, seu medo, sua culpa.
— Vamos chamar a mamãe — eu disse, sem conseguir olhar a pedra com formato humano na minha frente.
— A sua mãe? Como assim? Ela não saberá o que fazer — Lucas tinha quatorze anos, mas já tinha certeza de que poderia resolver todos os problemas do mundo sozinho. — E se nós o esquentássemos? — sugeriu.
— Eu não sei, acho que ele derreteria. Acho que ele é gelo puro.
— Não. Ele só está coberto com gelo. Vamos derreter o gelo, não ele.
Enquanto discutíamos, a casca transparente ficava cada vez mais grossa e branca. A ponto de não enxergarmos mais a sua pele marrom, os seus olhos castanhos ou o seu cabelo encaracolado.
— Eu acho que é uma má ideia — insisti, enquanto Lucas se aproximava com o isqueiro que papai guardava na garagem.
— É só um isqueiro. Nós vamos testar com o dedo dele. Se o dedo não aparecer depois que começarmos a derreter, pensamos em outra coisa.
Incomodava-me a forma como ele me inseria no plano dele. Como se eu estivesse concordando com tudo. Eu não estava.
Lucas se ajoelhou e acendeu o isqueiro. Aproximou do dedo mindinho de Jonas e esperou. A chama tocando o gelo e o dedo intacto. Como se algo dentro de Jonas estivesse mantendo o seu dedo ali. Congelado.
— Não derrete — Lucas informou. — Como não derrete?
— Acho que é ele. Ele não quer ser derretido.
— Isso é bobagem. Eu acho que o isqueiro não é quente o suficiente. Precisamos de mais.
— Lucas, para — eu berrei. Minha mão foi para trás, acertando as costelas de Jonas a minha direita. E derrubando-o no chão.
— O que você fez? — Lucas perguntou, correndo na direção da estátua no chão.
Eu, por outro lado, paralisei. Levei as duas mãos a boca e tremi feito uma vara. Senti as lágrimas molhando as minhas mãos e fazendo um trajeto até os cotovelos. Uma atrás da outra, coreografadas.
Ele não tinha virado pequenos pedacinhos de gelo. Mas tinha uma longa rachadura no fim da barriga. Se aquilo se quebrasse seria tronco para um lado e pernas para o outro.
— O que vamos fazer? — forcei a minha voz a sair.
— O que vamos fazer? Você o derrubou. Você é que precisa dizer.
— Eu disse desde o começo que deveríamos chamar a mamãe — eu gritei, aos prantos. Descontrolada demais para pensar que ninguém poderia me ouvir e entrar naquela garagem.
— Fala baixo. Precisamos pensar. Não dá para colar.
— Vamos congelar — eu disse, tendo um insight. — Colocamos ele no freezer, e aí a rachadura congela e some. Pode funcionar?
— Pode, é uma boa ideia — ele respondeu. Seus olhos julgando o meu ataque acidental ao nosso melhor amigo congelado.
Trabalhamos na garagem durante o fim da tarde até o mais tardar. Sorte a nossa que o freezer da minha casa era grande o suficiente para que coubesse um menino de quinze anos congelado com o braço para frente. A parte difícil foi colocar ele lá dentro sem forçar a rachadura. E meu Deus, como ele era pesado.
Ofegante demais para falar, Lucas me deu tchau, saiu da minha garagem, pegou sua bicicleta e partiu. Foi a última vez que o vi. Sua mãe disse que ele não sobreviveu à febre. O mais lamentável foi ele ter morrido antes de saber que o plano do freezer consertara a rachadura em Jonas, mas ele nunca mais descongelou.
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H6N3
Science Fiction"Epidemias são sempre uma droga, mas antes fosse a peste bubônica, a varíola ou a malária. Não que essas tenham sido gentis, mas sobrevivemos. Eu não diria que sobrevivemos ao que chamamos de A Epidemia, para os mais cultos, H6N3. Até onde eu sei, s...
