Confronto

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— Não podemos ficar aqui esperando eles cercarem o prédio. Você e Rad vão pela Rua Spring. Eu e Meg vamos pela 4th Ave. Eu posso camuflar todos nós e nos encontramos na rua Madison. Tem algo na casa 384 que eu estava esperando para usar. Vamos.

Eu saí correndo do prédio enquanto Rad fingia que corria. Lento o suficiente para me acompanhar. A mochila saltitando nas minhas costas. O fuzil apontado para o céu, e a marcha sincronizada cada vez mais perto.

Era ação que você queria, Rad? Eu quis perguntar, mas, em vez disso, corri.

Pelos meus cálculos, a arma de Rad tinha sete balas, e o número de homens marchando em nossa direção era maior que cem. O que resulta em gente morta logo, logo.

Eu não confiava em Rad, assim como ele não deveria confiar em mim. Não digo isso por planejar algo diabólico e traiçoeiro, digo isso porque nós dois estamos vivos, o que significa que nós dois traímos Mike. E talvez, uma vez traidor, sempre traidor.

— Se dividiram — eu disse, baixo demais. Notificando apenas para mim. — Rad, eles se dividiram. Eles sabem sobre nós. A hipnose não está funcionando com alguém.

Eu sentia que a minha voz estava sendo levada com o vento matinal. Por isso falei mais alto.

Rad parou de correr e segurou o meu braço, me forçando a parar também.

— A hipnose só não funciona com outro como Mike. Ok, sem pânico.

— Precisamos chegar a casa, porque paramos de correr?

— Isso não é correr. Eu vou te colocar no colo e correr de verdade, tudo bem? — ele perguntou, tirando a minha mochila e colocando nas costas dele.

Nada bem. Ainda assim, disse sim com a cabeça.

Ele me segurou como um bebê e em seguida eu fechei os olhos. A sensação foi de deitar numa montanha russa em posição fetal. O vento, no começo agradável, me causou frio em alguns segundos. E lá estávamos nós, no número 384.

— Ele deve ter escondido um arsenal aqui, eu só preciso sentir o cheiro.

Aspirei profundamente e o cheiro de ferro e pólvora invadiu minhas narinas. Vinha do quarto, com certeza. Andei para lá, atravessando a sala de decoração duvidosa. Cada cômodo parecia parte de um asilo. Atrás do armário.

— Quer ajuda? — Rad perguntou quando me viu tentar empurrar um armário de cedro com dois metros de altura.

Ele veio me ajudar antes que eu respondesse. E eu não responderia. A situação de salve-se ou morra era urgente demais para eu enfiar meu sarcasmo.

Eu não era forte, nem ele, aparentemente. Porque o armário se moveu menos de três centímetros depois de nos deixar exaustos.

— Qual é? Não podia esconder embaixo do colchão?

— Não — Mike respondeu, entrando no quarto.

— Saiam de perto — Meg ordenou. Fazendo a carinha astuta de quem faria o armário levitar.

Andamos todos para trás de Meg, e esperamos ansiosos pelo showzinho. Eu mais que os outros, suponho.

Ela inclinou a cabeça para o lado direito num gesto rápido e o armário se arrastou e se chocou com a parede ao lado. Mas a parede atrás dele ainda parecia apenas uma parede.

Mike andou para ela e eu resolvi usar a visão de raio-x e acabar com toda a expectativa.

Era mais que armas, era um grande cofre. Aço reforçado. Não há nada mais sedutor que um cofre de aço reforçado cheinho de armas.

Mike tirou o papel de parede com toda sua agilidade, e logo, logo, Rad foi ajudar. Depois disso, ele usou um cartão que tirou do bolso e as portas se abriram. Foi milagroso.

— Peguem o que conseguirem carregar, vamos precisar de tudo.

— Granada? Você tem granada? — Rad disse sorrindo enquanto enchia seu sobretudo com elas .

— Diversifiquem — Mike ordenou, reprimindo Rad.

Eu tinha sincera paixão por fuzis. Consegui mais um M14 e agreguei um M16 ao jogo. Enfiei duas pistolas na cintura, e pentes para várias recargas. E só quando senti meu corpo pesar, parei de pegar as armas.

Meg nem tinha entrado no cofre. O que eu só notei quando tinha feito a minha parte.

— Você não vai pegar nada? — perguntei.

— Não preciso de armas — Meg respondeu.

Não era como se eu quisesse que a minha irmã de treze anos saísse por aí atirando nos outros. Mas eu acho que se houver a oportunidade de nos armar até os dentes, deveríamos nos armar até os dentes.

— Tudo bem — eu disse, andando para ela. — Mas se você for desligar o cérebro de alguém, veja se eu estou no clima para receber gente na minha cabeça.

— Eles estão aqui. Vamos subir — Meg disse saindo do quarto e subindo as escadas.

Fomos com ela. Do lado de fora, na grama, vários homens vestidos de preto com a boca e o nariz cobertos, com seus rifles apontados para cada canto da casa, e suas cabeças raspadas com números tatuados nas laterais. No asfalto, mais homens chegando.

No andar de cima, duas janelas de onde se podia ver a frente da casa, e é claro, o pequeno exército dispostos a nos matar, ou coisa pior.

— Tudo fechado? — Mike perguntou, destravando um fuzil.

— Quase lá — Meg respondeu. — Tudo fechado — disse depois.

— Five, você pega os pares e eu pego os ímpares.

— Certo. E Rad? — quis saber, pois ele também queria.

— Ele protege Meg. E Meg protege a casa.

Olhei para os três e fui para o outro quarto, com a outra janela.

— Dois; morto; abaixa. Seis; morto; abaixa — os tiros deles ricocheteavam muito perto de mim. — Quatro; respirando; abaixa; morto.

Um a um foi caindo. Como patinhos na lagoa dando tiros em vão.

— Não mata o 12 — ouvi Mike dizer.

Ok.

— Dez. Morto.

O doze e alguns outros números haviam sumido. Não por muito tempo. Olhei por toda a casa.

— Na porta da cozinha — avisei.

— Eu vou — Rad gritou, com suas granadas em mãos.

— Não, espera. — Mike comandou. — Você protege a Meg. Eu e Five descemos.

Passos silenciosos pela escada. O dedo engatilhado e disposto a estraçalhar qualquer coisa que se movesse. Mike na frente, eu, logo atrás. Os patinhos de preto cercando a casa. Alguns aglomerados nas portas. E então, tiros. Os nossos para eles, e os deles, voltando para eles.

— O doze, não mate o doze — Mike disse.

Todos no chão, e o doze sujo de sangue, suspirando, certo de que ninguém estava o vendo deitado no chão se fingindo de morto.

— Largue a arma e levante — Mike disse, saindo pela porta da cozinha e andando entre os corpos no fundo da casa.

A arma foi atirada para o lado e ficou em cima da barriga de um dos patos de preto.

O Doze levantou com a mão na cabeça e encarou Mike friamente, me fazendo congelar. Meg e Rad surgiram na cozinha e finalmente Mike deu a ordem.

— Pode desligar.

Meg desligou e um segundo depois, lá estava eu, de joelhos, recebendo Will. O menino moreno e forte que usava brinco e tinha um sorriso arrebatador. O menino por quem eu fui apaixonada desde a quinta série. O menino que está morto.

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