— Nada me fará partir com vocês. Essa não é a minha irmã — apontei para a garota com o meu sangue correndo nas veias — e você não é o Mike. Não o que me protegeu, me deu esperanças e me disciplinou. Para mim já chega! — dei as costas para eles e andei em direção à porta.
Silêncio. A caminhada pareceu mais longa do que realmente era. E a sensação de que a qualquer segundo eu seria impedida de partir ficava cada vez maior. Parei um instante. Rad estava logo atrás de mim.
— Você não entende — ele disse. — Falem para ela. Contem o que me contaram.
Olhei para Mike e Meg e eles se mantiveram em silêncio. Provavelmente arquitetando um grande plano para controlar o mundo. Mas que mundo, afinal, ainda havia para ser controlado?
— Rad tem razão. Você não entende — Meg disse.
Era esse o plano? Fazer eu me sentir tola até implorar por alguma explicação? Não havia nada para ser entendido, ou, pelo menos, nada com que eu me importasse o suficiente para tentar entender.
Bufei e continuei andando para a porta.
— Não se importa com o nosso pai? — a voz de Meg soou, me congelando a dois metros da saída.
— O que você pensa que sabe sobre o nosso pai? — berrei, caminhando ruidosamente até ela. — Você o matou. Você o fez se matar.
Meu rosto de repente aquecido pelo nervosismo e molhado pelas lágrimas. Eu não sabia que ainda era capaz de chorar. Não assim, tão depressa. A sensação era de alívio. Chorar é um sinal, um bom sinal. Um que diz que ainda estou viva e com a humanidade em dia.
As minhas palavras eram tão cruéis quanto falsas. Meu pai se matou por que perdeu as esperanças. Não é sempre essa a razão? Ainda assim, a falta de esperança não é algo que possamos odiar e culpar. E quando alguém morre, é importante ter alguém para odiar e culpar.
— Eu pensava que sim. Mas é muito pior que isso — Meg rebateu. Inabalável.
Seja lá o que a mutação fizera com a mente de Meg, ela era o ser mais poderoso que já conheci desde o H6N3. Não sei se ela ouve a vozinha que está falando na minha cabeça ou se sonda sinapses. Sei que a sua telepatia é muito mais aprimorada que os meus sentidos 2.0. E isso não só me incomoda como também me assusta.
— Queria minha atenção? Ela é toda sua — eu disse. E alcancei novamente as cadeiras desconfortáveis.
— Agora sim — Rad disse, andando para mim. — Vamos, contem tudo. Ou melhor, mostrem.
Olhei para Rad, confusa. Meg e Mike se entreolharam.
E era óbvio que havia diálogo entre os dois. Mais do que gestos faciais entre pessoas com alta intimidade. Havia diálogo com palavras e tudo o mais.
— Five, — Mike disse, usando a voz persuasiva — Meg acha que não está pronta. Mas eu confio em você, e acho que está.
— Pronta para quê? — essa era a informação importante. Nada mais.
— Para o tanque — Rad disse, se sentindo muito esperto.
Olhei para coisa cilíndrica e cheia de água. Senti medo.
— Vocês querem me afogar? Como fizeram com Rad? Não. Eu só quero saber a droga da verdade. É tão difícil dizer a verdade? — eu berrei, sentindo-me cansada. Como se eu tivesse nadado quilômetros na tentativa de ultrapassar algum recorde e no fim, estivesse exausta demais para conseguir nadar o último metro.
— Eu disse, ela não está pronta — Meg falou.
E tudo que eu queria fazer era gritar com ela. Colocar a garota de castigo e dizer bem alto que ela não era a dona da situação. Que eu era a irmã mais velha e que ela não deveria me fazer parecer tão tola, frágil e medrosa. Meg ainda me irritava, mesmo agora, por motivos tão confusos, ainda me irritava.
E quem essa garota pensa que é para falar de mim como se eu não estivesse presente?
— Não é sobre estar pronta — Mike interviu. — Ela só não ajoelha sem saber latim.
Tudo bem, eu havia entendido a metáfora e até considerava um elogio, mas ainda me incomodava a conversa sobre mim enquanto ignoravam a minha presença.
— Não temos tempo para isso, Mike. Sabe que não temos — Meg disse. Eu e Rad observávamos o diálogo como cães observam partidas de tênis.
— Precisamos dela. Temos tempo para isso — Mike respondeu.
— E eu preciso de respostas. Respostas. Alguém? — acenei.
— Seu pai não se matou. Não estávamos afogando Rad, apenas o ensinando. E eu e a sua irmã chateamos alguns caras maus, e eles estão vindo — Mike disse. Tudo de uma vez, só para saber até onde eu poderia aguentar.
Engoli em seco.
— Meu pai. O que sabem sobre ele? — olhei para os olhos claros de Mike.
— Sabemos que quem matou o seu pai está vindo procurar a gente. Sabemos que ele encontrou a cura ou chegou muito perto. Sabemos que eles acham que vocês duas têm grande potencial genético e sabemos que eles querem fazer testes com as filhas de Ed Patterson. E voltamos à coisa do tanque. Se algum de nós for pego, precisamos ter controle da nossa mente e por fim, do nosso corpo. E foi assim que chateamos os caras maus. Sabendo demais.
— Quando dizem que precisam de mim, na verdade querem dizer que precisam de mim por perto porque sou uma ponta solta que pode colocar todos em risco?
— Sim — Meg respondeu.
— Não — Mike retrucou.
— Precisamos de você porque é tão parte disso quanto nós — Meg confessou.
— É tudo muito confuso, ainda — eu disse.
O meu único desejo era uma grande torta de chocolate com um imenso pote de sorvete de morango e mais algumas horas sozinha, ganhando o tempo e o espaço necessário para pensar e respirar. Eu me sentia sufocada. E acho que eles sabiam disso. Acho que eles sabiam de tudo.
— É verdade que não temos tempo, mas tudo bem se você quiser voltar aquele prédio chique e respirar um pouco. Se decidir partir conosco, pode nos encontrar no acampamento X, as 17:45. Aqui está o meu relógio. Se não aparecer, precisaremos te matar — Mike disse. Seu humor sádico. Mas eu não tinha certeza se suas palavras eram só uma piada. E não me confortava muito eles saberem o meu endereço e eu saber que jamais poderia rastreá-los, mesmo que quisesse muito.
Eles podiam estar logo atrás de mim e eu não sentiria o cheiro, ou os veria ou sentiria o calor de seus corpos ou ouviria o batimento dos seus corações. Todos os meus sentidos podiam ser controlados com a coisa da hipnose. E eu, a essa altura, nem alcancei a visão de raio-x. Que para outros como eu, nem era grande coisa.
Definitivamente, eles não precisavam de mim, mas eu precisava deles. E eles sabiam disso.
Continua...
VOCÊ ESTÁ LENDO
H6N3
Fantascienza"Epidemias são sempre uma droga, mas antes fosse a peste bubônica, a varíola ou a malária. Não que essas tenham sido gentis, mas sobrevivemos. Eu não diria que sobrevivemos ao que chamamos de A Epidemia, para os mais cultos, H6N3. Até onde eu sei, s...
