Arrumei as coisas, desci da van primeiro e fiz o check-in no hotel o quanto antes. Todos estavam animados com a energia dos brasileiros, mas eu só queria silêncio, um espaço vazio onde pudesse respirar sem julgamentos. Peguei o cartão da mão do atendente e fui direto para o elevador, sentindo cada passo pesado como se carregasse não apenas bagagem, mas também pensamentos cortantes.
— Anda logo, droga! — resmunguei, a voz ecoando só para mim.
A porta se abriu, vazia. Entrei e apertei o sétimo andar. Antes que fechasse, vi Camila me olhando de longe. Seus olhos carregavam uma preocupação silenciosa, mas balancei a cabeça em negação e deixei a porta se fechar. A separação repentina me atingiu como um golpe, e o corredor parecia interminável.
No quarto, a porta se fechou atrás de mim e desabei no chão. A respiração veio curta, acelerada; cada batida do coração parecia uma martelada na cabeça. As lágrimas vieram, quentes, salgadas, misturando-se à raiva e à frustração acumulada.
Minutos depois, alguém bateu. O som foi quase insuportável, e minha vontade era desaparecer. Mas me forcei a caminhar até o banheiro, arrastando o corpo pesado. Arranquei o tênis, a calça, a camiseta branca pelo caminho, cada movimento carregando uma tensão física que traduzia o turbilhão interno.
No espelho, me encarei: olhos vermelhos, rosto inchado, ombros tensos, mandíbula travada. Um corte recém-aberto na mão pulsava, lembrando-me de quem eu era e de quanto ainda precisava suportar. Sem pensar, bati levemente a mão contra a pia; a dor física parecia mais suportável que a tempestade dentro de mim.
Tomei um banho gelado, sentindo a água cortante descendo pelo corpo, levando embora, por alguns segundos, a raiva e a ansiedade. Vesti a bermuda e a mesma camiseta branca amassada do dia anterior, cada movimento uma tentativa de recompor-me. Juntei os cacos no banheiro e caminhei até o quarto de Camila, ainda sentindo o calor da adrenalina misturado à vulnerabilidade.
Alguns toques na porta. Ela abriu, e o mundo pareceu desacelerar. Seus olhos me analisaram com cuidado e compaixão, como se pudesse enxergar cada fenda da minha mente. Fiz sinal para que ela não se aproximasse ainda, a voz rouca e pesada:
— O que aconteceu, Lawrence?
Mostrei a mão com o corte recém-aberto. O silêncio se alongou, pesado, carregado de tensão e compreensão mútua. A voz saiu baixa, quase sussurrada:
— Só me livra desses demônios.
Ela segurou minha mão com firmeza e, sem hesitar, me puxou para dentro. O cheiro dela, a presença calorosa, fizeram meu corpo relaxar um pouco.
— Vem. Vou cuidar de você.
E ali, naquele instante, mesmo sem palavras, senti que podia soltar uma fração daquilo que me corroía por dentro. O quarto era um abrigo, o toque dela um escudo. Cada respiração compartilhada, cada gesto silencioso, carregava a promessa de cuidado e entrega — um refúgio da tempestade que ainda queimava em mim.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Lost // lj + cc // trans
FanfictionEntre marcas antigas e cicatrizes recentes, Lawrence tenta se reconhecer no reflexo da própria pele. Camila é refúgio e incêndio, porto seguro e vertigem. No choque entre desejo, medo e entrega, nasce uma história que queima como segredo: perdido po...
