Four

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Quando entendi quem eu sou hoje, enlouqueci. Todos os dias me via negando partes de mim, tentando caber em corpos e rótulos que nunca me pertenciam. Lembro do colégio, dos corredores que pareciam campos minados, das risadas que queimavam como ácido, das piadas cruéis e dos olhares que julgavam antes mesmo de me conhecerem. Tentei duas vezes acabar com minha vida, afogar o medo e a vergonha em silêncio. Mas meus pais foram o abrigo mais seguro, e meu irmão e minha irmã, sempre ao meu lado, me levantando, mesmo quando eu caía. Ainda assim, há dias — como hoje — em que o passado invade meu peito e deixa um frio que nem o sol mais quente consegue derreter. Ser uma pessoa trans é intenso, exaustivo, mas também é resistir, lutar e sobreviver à própria história.

Camila sempre foi — e será — meu porto seguro. Enquanto terminava de cuidar do corte recém-aberto na mão, senti aquela mistura de dor e conforto que só ela consegue proporcionar. No começo da transição, era a ela que recorria quando não sabia como agir, quando o mundo parecia gritar que eu não pertencia. Depois, com rotinas diferentes, mergulhei sozinho no trabalho, buscando respostas no clique da câmera, na luz do dia, na tentativa de me encontrar dentro de mim.

Dinah e Normani moram em outro país, mas nunca deixam de fazer FaceTime. Ally, minha constante, nunca falha nas mensagens de incentivo, sempre lembrando que eu sou digno de existir, de me amar. Sinto falta delas. Sinto falta da tranquilidade que meus dias poderiam ter. Mas a vida não espera; força a gente a se adaptar, a se refazer, a resistir.

Camila é uma cantora mundialmente famosa, e eu, um fotógrafo conhecido em vários países. Ainda assim, às vezes penso que jamais daria certo com ela: ela é areia demais para meu caminhãozinho. E, mesmo assim, aqui estava ela, com mãos suaves no meu cabelo, presença firme ao meu lado, como se dissesse que minha instabilidade não a afastaria.

— Lawr, eu sei que nos afastamos durante as minhas turnês, mas eu sempre vou estar com você. — O sussurro dela atravessa minha mente como um bálsamo, e eu assinto.

— Sei de tudo o que você passou no começo... mas você é um rapaz forte, inteligente e bonito. Não precisa se preocupar com o que os outros vão achar. Você tem as melhores pessoas ao seu lado. E, mais importante, pessoas que te amam.

O silêncio se estendeu por alguns segundos. Suspirei, e deixei escapar:

— É tão difícil... não saber lidar comigo mesmo, mesmo depois de anos. Essa instabilidade não me deixa em paz.

— Olha pra mim. — Ela segura meu olhar com firmeza, como se pudesse enxergar minha alma inteira. — Você é muito mais do que aparência. Não ligue para o que os outros pensam ou dizem. Você sabe quem você é. E foda-se os outros.

Fechei os olhos, e por alguns segundos, deixei que a memória da transfobia no colégio, o corte recém-aberto na mão e todos os medos do passado se dissolvessem no conforto do agora. Aqui, com Camila, podia simplesmente ser, respirar e existir.

O sol do fim de tarde atravessava a cortina do quarto de hotel, iluminando o rosto dela com tons dourados que pareciam feitos sob medida. Cada fio de cabelo, cada curva, cada olhar parecia uma pintura viva. O aroma dela misturava-se ao calor do quarto, e meu peito acelerava, sentindo a presença que me sustentava.

Ela acariciava meus cabelos enquanto eu sentia a tensão acumulada evaporar aos poucos, transformando o medo e a dor em algo quase palpável: cuidado, afeto, e o toque firme que dizia — estou aqui, você não está sozinho.

— Está com fome? — perguntou, quebrando o silêncio que se tornava confortável.

— Não... não tenho fome quando estou assim.

Ela sorriu, e se levantou:

— Entendi, mas mesmo assim vou pedir algo leve pra gente comer, ok?

— Tanto faz... — murmurei.

Ela pediu algo simples, que nos permitisse continuar naquele instante sem precisar de atenção demais. Voltou para meu lado, sentou e abraçou-me com a mesma intensidade que a luz dourada parecia abraçar a pele dela. Rimos, respiramos juntos, e por alguns minutos apenas existimos ali, lado a lado.

— Ei, vou ficar aqui. Relaxa.

E eu fechei os olhos, deixando cada toque, cada cheiro, cada presença se instalar dentro de mim. Tudo o que importava estava ali: Camila, seu sorriso, seu abraço, seu jeito de me fazer sentir que eu podia ser inteiro.

Senti que, mesmo em silêncio, estávamos curando não apenas o corte na minha mão, mas também todas as feridas invisíveis que carregava desde o colégio, desde a rejeição e os olhares cruéis. Estava seguro. Estava amado. Estava vivo.

Fechei os olhos e pensei:

"Só quero que isso passe logo".

Lost // lj + cc // transOnde histórias criam vida. Descubra agora