9 meses depois...
Estava arrumando o jardim, resolvi dispensar o Heitor e fazer essa tarefa. Tem dias que aqui parece sufocante, mas em outros tudo é bom. Falta pouco, e estou contando os dias para ter minha vida novamente — com decisões diferentes.
Já não sentia mais dor ou desejo por drogas. Minha vida tinha mudado drasticamente nesses últimos meses. Preparava a terra quando Ari me chamou, correndo com uma caixa mediana nas mãos.
— Chegou pra você. — falou meio ofegante. — Da sua amada. Roubei da mão da Demi.
Fiquei receoso de pegar, mas quando ela ameaçou abrir, arranquei de suas mãos. Como ela tinha conseguido meu endereço? E depois de tanto tempo? Será que vinha com raiva? Rancor? Ou felicidade?
Ari me tirou dos pensamentos:
— Coloque as rosas na frente, são bonitas demais pra ficar escondidas. E você sabe bem que vou querer saber o que tá escrito aí, né!?
Concordei e beijei sua testa. — Pode ficar tranquila que você vai saber.
Demi apareceu logo atrás e chamou:
— Ari, vem me ajudar com o que você tinha pensado pra mudar a sala.
Nós dois rimos, e Ari, antes de correr, me abraçou apertado.
— Até depois, Jauregui.
Neguei com a cabeça. Ariana era pior que criança quando queria algo. Voltei ao jardim e, com calma, deixei as rosas bem cuidadas. Separei uma para colocar no quarto dela — minha amiga de fé, que me aturava nos piores dias, como eu também fazia com ela.
Deixei a caixa sobre a cama e fui tomar um banho para relaxar.
A água quente escorria, e com ela as lembranças. Camila surgia sem pedir licença: seu sorriso, seu toque imaginário, a voz chamando meu nome, seu perfume suspenso no vapor do banheiro. Fechei os olhos e deixei o corpo reagir sozinho, cada gota deslizando sobre a pele despertando memórias, desejos e saudades. O calor da água se misturava à tensão contida, e cada respiração tornava-se mais profunda, mais urgente, como se o corpo inteiro estivesse tentando sentir o que a mente lembrava tão vividamente.
A mão que buscava alívio se movia de forma quase automática, guiada pelo corpo e pelas lembranças dela, o pensamento sobre seu sorriso e seu perfume se misturando ao calor da água. Cada suspiro e cada estalo de prazer ficava preso na garganta, abafado, mas a mente recordava, intensa, o que eu queria que ela estivesse me dando sem sequer precisar tocar. A tensão acumulada se desfez em um único êxtase silencioso, enquanto o vapor carregava o eco de seu nome.
Quando a tensão transbordou, foi o nome dela que escapou de mim, rouco e trêmulo, preso entre respirações. Abri os olhos, exausto, e a caixa parecia observar em silêncio.
— Que droga, Camila... até nos meus fantasmas você me tem inteiro.
Saí do banho, envolto em uma toalha, e encontrei na cama algo leve para comer — deixado por Ari ou Demi. Sentei, tomei um gole de suco e murmurei:
— Como você descobriu eu não sei...
Peguei a caixa. Meu coração disparava, e o cheiro que escapava dali invadiu minha mente. Abri com cuidado. Dentro havia uma carta e uma Polaroid dela sorrindo na Torre Eiffel. Neguei com a cabeça, mas não resisti: respirei fundo e me deixei levar.
Deitei na cama com a carta aberta ao meu lado. Cada palavra de Camila era como lâminas finas que cortavam o peito e, ao mesmo tempo, aqueciam a alma. Ela estava cansada, frágil e ao mesmo tempo feroz em seus sentimentos. A intensidade de tudo o que ela escreveu me deixou sem ar.
"Lawrence, você não precisa abrir isso agora. Nem amanhã. Nem quando achar que está pronto. Mas, se algum dia quiser me encontrar, ou apenas sentir que ainda existe alguém que se importa, a caixa estará lá. Não para cobrar nada, apenas para lembrar que ainda há algo entre nós que vale a pena. — Camila"
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Lost // lj + cc // trans
Hayran KurguEntre marcas antigas e cicatrizes recentes, Lawrence tenta se reconhecer no reflexo da própria pele. Camila é refúgio e incêndio, porto seguro e vertigem. No choque entre desejo, medo e entrega, nasce uma história que queima como segredo: perdido po...
