As memórias me seguiam como sombras, cada rosto, cada toque, cada promessa quebrada. Amor, pertencimento... zonas proibidas, onde eu nunca consegui permanecer. No meio disso tudo, só havia Simon.
A tarde queimava dentro de mim. Bati na mesa com força, o eco reverberando pelo escritório vazio.
— Simon, FODA-SE! — gritei, a raiva pulsando no peito. — Eu quero mais. Tenho dinheiro.
Ele ergueu o olhar, um sorriso frio se formando. Sempre calmo, sempre controlando tudo.
— Lawrence... cuidado. Você pode se queimar.
Ri. Curto, seco. Carregado de ameaça. Me aproximei, cada passo calculado, medindo o silêncio entre nós.
— E isso faz diferença pra você? — disse, firme. — Então entrega logo o pacote.
Ele abriu a gaveta lentamente. Cada movimento parecia calculado para me testar. Tirou o pacote branco pequeno e o deixou sobre a mesa, como se fosse um troféu, e não um objeto qualquer.
Joguei 2.500 dólares à sua frente. Ele contou as notas com uma calma irritante, como se cada segundo fosse um desafio à minha paciência.
— Pode sumir daqui, Jauregui — disse, a voz baixa e carregada de veneno. — Mas saiba... não mexa com o que não entende.
Me aproximei ainda mais, encostando o rosto perto do dele. Cada palavra minha era lâmina.
— Ouça com atenção, Simon. Quem mexe com fogo...
Ele sorriu, sem medo. Um sorriso que não prometia amizade, só desafio.
— ... queima sozinho. — completei, frio.
O ar entre nós era denso, pesado, como chumbo. Ele recuou um passo, mas o olhar nunca deixou o meu. O jogo de poder era silencioso, mortal, e eu sabia que qualquer gesto em falso poderia ser o último.
— Jauregui... sai daqui. — sua voz era baixa, mas cada sílaba carregava ameaça. — Antes que alguém nos veja.
Assenti, enfiando o pacote na mochila. Caminhei para o elevador, sentindo o peso da tensão ainda nos ombros. Antes que as portas se fechassem, deixei minha última mensagem pairando no ar:
— Boca fechada. Ou você já sabe.
Ele revirou os olhos. Silêncio. A porta se fechou, e junto com ela, senti a pressão no peito aliviar, mas só por instantes. O corredor vazio ecoava meus passos, a adrenalina queimando como motor prestes a explodir. L.A. lá fora parecia distante, indiferente, e eu era o único perigo naquele instante.
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O calor seco da tarde me atingiu assim que saí do carro, fazendo meus olhos lacrimejarem. Diante de mim se erguia minha casa de verão, branca e imponente, com paredes caiadas refletindo o sol forte do Mediterrâneo. As janelas amplas deixavam entrar a luz dourada, e o vento trazia o cheiro do mar próximo, misturado ao perfume intenso de alecrim e lavanda que cresciam entre as pedras do jardim. No horizonte, as colinas suaves se perdiam em uma sequência de casas brancas e oliveiras retorcidas, e, mais adiante, a água azul profunda se encontrava com o céu sem nuvens. Cada detalhe parecia pedir silêncio, reflexão, um lugar onde o tempo podia existir sem pressa, sem interferências externas.
"Despedidas doem demais, então um 'até logo!' é melhor. Me desculpe por não estar aí quando você acordou, mas seria pior do que já está sendo. Eu amo você. Se cuide, mi cariño.
Atenciosamente,
K.C."
Segurei o papel entre os dedos, sentindo um aperto no peito. Camila não estava ali, mas suas palavras ecoavam mais firme do que qualquer presença física poderia ser.
Uma mulher pequena, com cabelos castanhos presos em um coque simples, surgiu no corredor e sorriu. — Boa tarde, Lawrence. Sou Demi, estarei por perto enquanto você estiver aqui. Seja bem-vindo.
Assenti, tentando absorver o ambiente. O hall de entrada exalava calor e luz, com pisos de mármore branco que refletiam o sol, tapetes finos espalhados, e móveis de madeira de oliveira polida. Pequenos detalhes traziam vida ao espaço: vasos de cerâmica pintados à mão, cortinas brancas que balançavam suavemente com a brisa do mar, livros empilhados de forma despretensiosa sobre mesas baixas. A brisa carregava o som distante de gaivotas e o farfalhar das folhas de oliveiras, compondo uma música natural que se misturava à calmaria do lugar.
Larguei minha mochila e mala no chão e caminhei devagar pelo quarto. O espaço era simples, mas cheio de charme local: a cama de casal estava coberta por lençóis brancos de linho, frescos e impecáveis, com travesseiros fofos que pareciam convidar a descansar; um cobertor leve, em tons de areia, estava dobrado ao pé da cama. As paredes eram caiadas, quase refletindo o sol que entrava pelas amplas janelas de madeira pintada de azul, e o chão de terracota quente contrastava com tapetes de fibras naturais espalhados, trazendo textura e conforto.
Ao lado da cama, o criado-mudo tinha um vaso pequeno com flores silvestres que exalavam um perfume suave. O guarda-roupa de madeira clara estava discretamente entalhado, com portas que rangiam levemente ao abrir, lembrando a rusticidade elegante do lugar. A escrivaninha, encostada à parede, tinha um caderno em branco e uma caneta antiga, como se convidasse a escrever ou desenhar, enquanto a luz do sol refletia nas superfícies, fazendo tudo parecer mais vivo, mais respirável.
Afastei a cortina e encarei o mar: a água cintilava como se estivesse coberta de diamantes líquidos, o vento trazia o aroma salgado que se misturava ao perfume intenso de lavandas, alecrim e hibiscos do jardim. As oliveiras próximas balançavam suavemente, suas folhas sussurrando histórias antigas enquanto o canto das gaivotas completava a trilha sonora do lugar. Pequenos detalhes do quarto — a cerâmica pintada à mão, a jarra de vidro com água fresca, a luz dourada tocando cada canto — tornavam tudo acolhedor e leve.
Segurei o bilhete de Camila novamente, o cheiro de papel misturado à brisa fresca me lembrando dela. — Preciso que você me ajude... — murmurei, como se o vento pudesse carregar minhas palavras até ela.
Pela primeira vez em muito tempo, senti a calma preencher meus ombros. O calor do sol, o aroma das oliveiras e lavandas, o som do mar e das gaivotas — tudo parecia me lembrar que, por alguns instantes, eu podia respirar. Nenhum mundo externo, nenhum contrato, nenhuma câmera ou expectativa. Apenas o azul do céu, o mar profundo e a sensação de que eu podia, finalmente, existir sem peso.
Fechei os olhos, apoiando a testa na janela aberta. A casa era minha, mas eu tinha ignorado por tanto tempo que havia esquecido a sensação de pertencer a algum lugar. E, mesmo longe de Camila, o bilhete me lembrava que ainda havia laços que valiam a pena, mesmo que fossem sutis e silenciosos.
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Lost // lj + cc // trans
FanfictionEntre marcas antigas e cicatrizes recentes, Lawrence tenta se reconhecer no reflexo da própria pele. Camila é refúgio e incêndio, porto seguro e vertigem. No choque entre desejo, medo e entrega, nasce uma história que queima como segredo: perdido po...
