Eighteen

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Semanas depois...

O sol da manhã atravessava a janela e, por um instante, tudo parecia calmo demais. Fechei os olhos e me vi novamente naquela lembrança estranha e doce: Camila e eu tentando montar uma luminária ridiculamente complicada no estúdio de gravação, rindo como se nada mais existisse. Ela resmungava e eu ria ainda mais alto, tropeçando nos cabos. No fim, a luminária não ficou reta, mas o riso ficou, gravado em mim.

Mas a realidade tinha pressa para me alcançar. O papel do contrato em minhas mãos e o peso da decisão me atingiram como um soco seco. Drogas, bebidas, a mídia dilacerando minha imagem, cada minuto transformando minha vida em caos. Eu me perdi nos pensamentos, até que Keana entrou com a prontidão de sempre.

— Lawrence, Terra chamando!

— Entregue isso ao manager da Srta. Cabello. Aqui estão todos os arquivos: fotos e vídeos. Neste HD preto com a tira vermelha estão editados. No vermelho com a tira branca, sem edição. E o contrato de rescisão como solicitado. Entendeu?

— Pode deixar.

Ela começou a organizar tudo em uma caixa pequena. Dentro dela cabia o fim de um ciclo inteiro, restos de uma história que nunca deveria ter se confundido tanto entre o pessoal e o profissional.

Me virei a janela e, por instinto, abri o Instagram. Eu já tinha parado de seguir Camila, mas ela ainda me perseguia através da tela, como se cada post fosse uma facada invisível. Hoje, o laço só seria oficialmente rompido porque advogados intervieram. Paguei duzentos mil dólares — mais que a multa original, para comprar distância.

Enquanto recolhia minhas coisas, outro flash me atravessou: estávamos no estacionamento do hotel, ela rindo enquanto eu tentava manobrar o carro, e acabamos rindo tanto que esquecemos o mundo inteiro por alguns segundos. Pequenas memórias como essa doíam mais que qualquer briga.

Foi então que a realidade bateu de novo. Olhei para a recepção e lá estava Camila. Alejandro ao lado, impecável, enquanto ela não percebia a minha existência no mesmo ambiente, abatida, quase tanto quanto eu.

— Lawrence, tem alguns minutos? — Alejandro quebrou o silêncio pesado.

Assenti. Caminhamos até minha sala. Ele recusou a cadeira, apoiando-se na porta.

— Sei que vocês brigaram demais, mas precisa mesmo acabar com o lado profissional? Nenhuma equipe vai se dedicar como a sua. Pensa bem, garoto.

— Sr. Alejandro, não posso. Preciso encerrar tudo. Quem sabe no futuro, mas agora não há espaço. Estamos destruindo um ao outro. E eu não quero ser o motivo de prejudicar a imagem da Camz ainda mais.

Ele suspirou, resignado, e me abraçou antes de sair. O perfume dele misturava-se à tensão, deixando o ar pesado.

Peguei minha mochila e confirmei se não havia esquecido nada. Senti os olhos de Camila queimarem minhas costas. Não virei. O orgulho ainda me mantinha preso.

— Lawrence.

A voz dela cortou o ar como lâmina. Eu congelei. Uma vontade animalesca gritava para que eu largasse tudo e fosse até ela, mas não.

— Camila.

Ela deu um passo à frente. Tom baixo, quase quebrando-se.

— Se cuide.

Os olhos dela estavam apagados, a pele pálida. Ainda assim, forçou um sorriso triste, aquele sorriso que sempre me destruía.

— Espero que você também se cuide, Cabello.

Ela me abraçou. Senti as lágrimas escorrerem, molhando minha camisa. Segurei-a, mas quase cedi. Cada centímetro daquele abraço falava do que não conseguimos ser, do que ainda queimava em silêncio e nos chamava.

Enquanto caminhava para fora, outro flash atravessou minha mente: um fim de tarde no estacionamento do estúdio, quando ela me ensinou a amarrar os cadarços de forma diferente, dizendo que eu precisava aprender a cuidar de mim. Era absurdo, bobo, mas carregava uma sensação de cuidado que eu jamais sentira. E veio na sequência outra lembrança: nós dois no café da manhã do hotel, tentando comer algo decente, mas rindo do pão queimado e do café frio, e eu pensando que nunca teria alguém que me compreendesse daquele jeito.

O primeiro semáforo tornou-se meu limite. Chorei até não conseguir enxergar. Outro flash, rápido, quase irônico: ela e eu rindo como idiotas dentro de uma cabine de foto, tirando fotos totalmente exageradas para ninguém ver, e eu sentindo, pela primeira vez, que poderia ser vulnerável sem medo.

E, então, a lembrança mais cruel veio como soco: o quarto de hotel, depois de mais uma briga, nosso beijo desesperado, implorando em silêncio para que não acabasse. Nossos corpos diziam "fica", mas as palavras frias e cortantes diziam "vai embora". Eu nunca soube se aquela noite foi um recomeço ou um enterro definitivo. Talvez os dois.

No bar, meu refúgio de sempre, recebi a sacola de Simon. Ele não disse nada. Não precisava. Eu já estava irreconhecível. Entre goles amargos e lembranças presas, como se nunca tivesse deixado meu corpo desde aquele hotel, eu percebi: os flashbacks vinham em ondas, aleatórios, desordenados, mas todos com um ponto em comum — Camila existia em cada pedaço de mim, mesmo quando o mundo dizia que eu deveria esquecê-la.

O gelo no copo soava como sinos, a música alta misturava-se às minhas lembranças, e eu me perguntava: será que algum dia vou conseguir permitir ser amado de verdade?

Lost // lj + cc // transOnde histórias criam vida. Descubra agora