Seventeen

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Antes mesmo do grito escapar da minha boca, a lembrança me pegou como uma faca escondida. Um festival, a primeira grande cobertura, o nervosismo me deixando em pedaços no backstage. Eu tremia, não conseguia prender a respiração. Foi quando ela me puxou num canto, sem aviso, e encostou os lábios nos meus. Rápido, urgente, quase um segredo. Um beijo que não era sobre paixão, mas sobre sobrevivência. Um gesto que dizia: você consegue. Foi assim que entrei em ação, com o gosto dela ainda na boca.

Agora, no meio de Los Angeles, esse gosto tinha se tornado tão amargo quanto um remédio que você engole na escola achando que é bala e, claro, ninguém explicou direito como tomar sem fazer careta. O sangue correndo rápido, o álcool queimando, a raiva borbulhando... tudo misturado com aquela sensação absurda de que o mundo inteiro estava assistindo à tragédia particular que tornei minha vida amorosa. E, ainda assim, a ironia me fazia querer rir de mim mesmo, porque, convenhamos, se Shakespeare tivesse visto essa cena, teria escrito como comédia dramática.

— Talvez eu não seja suficiente pra você, Camila. Então sai daqui. — As palavras saíram tão automáticas que mal percebi a aproximação de Shawn, perdido nos meus próprios fantasmas.

O soco veio sem aviso. Estalo seco, direto no nariz. O chão me recebeu áspero, e o gosto metálico me invadiu.

— Isso é pra você aprender a ser homem, Jauregui — Shawn cuspiu, a voz carregada de um rancor que parecia maior do que a situação. — Eu sou amigo dela. Só isso. Nós fomos pegos desprevenidos, você sabe o que significa? Ela passou o caminho inteiro tentando falar com você, mas Simon tinha sempre alguém por perto. Se você acha que ela não se preocupou, é porque prefere ver só a sombra. E já que insiste em agir como um moleque, cresça. Seja homem. E para de achar que o mundo gira em torno de você.

"Ser homem." As palavras queimaram mais que o soco. Sempre essa maldita sentença, como se minha existência precisasse de atestado.

Levantei cambaleando, o coração já em brasa. Pulei nele. Soco contra soco, ódio contra ódio. Não batia só nele, batia em todos os olhares que me pesaram, em todas as vozes que me mediram. O corpo de Shawn era o corpo de um mundo inteiro que me dizia: você nunca será homem o bastante.

Camila gritava meu nome, mas era como se o sangue tivesse tomado meus ouvidos. Até que, no impulso cego, empurrei-a quando tentou nos separar.

O tempo parou. O choque nos olhos dela me atingiu mais fundo que qualquer pancada. O vestido negro tremia com a respiração curta, e ainda assim ela ergueu o queixo, gélida. Shawn se levantou e, contra minha vontade, me puxou do chão. Ela avançou em minha direção, olhos de gelo.

— Amanhã conversamos, Lawrence. — A voz dela saiu firme, mas atravessada de dor. — E saiba que, neste momento, o Shawn está sendo muito mais homem do que você.

Meu corpo tremeu todo.

— Homem? — gritei, a garganta arranhada. — Eu pelo menos não abandonei meu melhor amigo quando ele mais precisou de mim! Você se vendeu pra um empresário de merda, virou produto!

E de repente, outro corte se abriu dentro de mim: a maca branca, o cheiro de hospital, o frio que me subia pelas mãos antes da cirurgia de mastectomia. Eu tentava me acalmar, respirando devagar, mas a ansiedade queimava mais que qualquer anestesia.

— Lawrence, precisamos ir para sala pré-operatória — disse a enfermeira, apertando a prancheta. — Sua mãe já está aqui, ela vai te acompanhar até a sala. Fica tranquilo!

Olhei em volta, procurando por ela, e meu peito se contraiu.

— Mãe... ela vem? — perguntei, a voz trêmula.

Minha mãe segurou meu braço com força, tentando transmitir calma, mas a expressão no rosto dela dizia outra coisa.

— Lawrence... você sabe que ela queria estar aqui, mas... a sessão de fotos atrasou tudo. Ela vai te dar notícias assim que puder. — Ela apertou minhas mãos geladas, tentando me confortar, mas não havia calor capaz de preencher o vazio que eu sentia.

Lost // lj + cc // transHistórias para pegar e não largar. Descubra agora