Nineteen

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Encostei no balcão e John, como sempre, foi o primeiro a me encarar com aquele jeito de quem já sabia onde a noite ia dar.

— Espero que hoje você não precise de ajuda pra ir embora.

Soltei uma risada curta, amarga, enquanto fitava seu rosto cansado. John era um cara de meia idade que parecia durão, mas no fundo era uma das melhores pessoas que já conheci.

— Quero o de sempre.

— Como deseja, Lawrence.

Ele pegou a garrafa pela metade, um copo pesado, e voltou para frente do balcão. Serviu uma dose firme, me encarando com aquela calma que sempre me deixava desconfortável.

— Sabe... vi a Cabello na TV agora há pouco. Acho que entendo porque você anda assim. Mas, se me permite, vocês dois parecem estar machucados.

Dei uma gargalhada seca, quase sem ar, e virei a dose de uma vez só.

— Ela é demais. E eu? Eu sou só... — minha voz falhou na tentativa de se manter forte — ...um cara cheio de erros, medos e bagagem que nem eu mesmo quero carregar.

Ele empurrou a garrafa para mais perto.

— Você precisa ser mais otimista, L. Vai conseguir ser algo na vida dela. Talvez não agora, mas futuramente.

Balancei a cabeça, esfregando a nuca.

— Não sei se é verdade... Amanhã vou sumir do mapa. E só volto daqui a um ano? Quanta coisa pode mudar até lá?

— Muitas. Mas esse tempo pode ser o que você precisa. Você vai amadurecer, evoluir. Às vezes só o tempo sabe ajeitar as coisas.

— Tempo ao tempo... — repeti, debochado.

Ele me lançou aquele olhar de quem já tinha visto demais nesse balcão.

— Você vai ver. Agora, não exagere. Não quero ter que te carregar de novo.

— Pode deixar, John. E... obrigado.

Ele acenou e foi atender outro cliente. Eu segurei a garrafa e caminhei até a mesa mais afastada, o canto onde sempre me refugiava. Cheirei algumas carreiras sobre a madeira fria, o pó queimando meu nariz antes de anestesiar o resto. A cada pessoa que entrava, inventava uma história. A cada dose que virava, me perguntava no que eu tinha me tornado.

Acendi um cigarro que peguei de um cara qualquer e, mesmo com a fumaça preenchendo meus pulmões, era sempre ela que voltava — Camila. Sempre Camila.

O ar frio da madrugada bateu no meu rosto e, por um instante, achei que fosse me despertar, mas só me deixou mais tonto. A rua estava quase vazia, com o som distante de carros e o latido ocasional de um cachorro quebrando o silêncio. Sentei na calçada, encostado na parede, e bebi direto do gargalo.

O gosto queimava a garganta, mas era a única coisa que ainda fazia sentido.

Cada gole, cada tragada, tentava afastar o rosto dela da minha cabeça. Mas quanto mais eu tentava esquecer, mais ela voltava. A garrafa acabou rápido, junto com qualquer noção de tempo. Outras doses, outros flashes de memórias, e já não havia fronteira entre a rua e meu próprio corpo. Cambaleando, levantei-me e, sem pensar, atravessei a porta do bar. O chão girava sob meus pés, e o céu parecia desabar em estrelas inventadas.

Foi quando senti as mãos firmes nos meus ombros.
— Lawrence, você não aprende mesmo, hein? — disse John, erguendo-me com esforço.

Ele me colocou no carro e me levou até em casa. Ao sair, cambaleando, quase perdi o equilíbrio, mas ele me segurou firme. Rob apareceu ao nosso lado, como sempre pronto para ajudar.

Lost // lj + cc // transOnde histórias criam vida. Descubra agora