O sol da Grécia se punha atrás das colinas, dourando cada canto do jardim da minha casa. Os raios iluminavam as pedras da calçada, as flores que plantei e até os gatos que decidiram adotar o quintal como território. Era minha despedida deste período sabático, um ano em que me permiti existir longe da rotina, longe do barulho.
Puxei uma respiração longa e me peguei rindo sozinho ao lembrar da primeira vez que tentei preparar um prato típico — queimado em menos de dez minutos, com direito a fumaça invadindo a casa inteira. Ou daquela noite em que a energia caiu e, sem saber o que fazer, acabei improvisando uma festa particular à luz de velas, dançando desengonçado no meio da sala até cair no sofá de tanto rir de mim mesmo.
Mas não foram só momentos engraçados. Houve dias em que a solidão pesava, em que o silêncio parecia maior que qualquer pensamento. Foi nesses dias que aprendi a lidar comigo mesmo, a olhar para dentro sem fugir. Caminhei por vilarejos desconhecidos, conversei com senhores que nunca mais verei, e até arrisquei escrever cartas que nunca enviei. Descobri que o tempo, quando desacelera, pode ser tão generoso quanto cruel.
Enquanto eu guardava essas memórias, pensava também na Ariana. Ela, diferente de mim, não conseguiu ficar parada. Partiu semanas antes, em busca de novas aventuras pelos países gélidos. As mensagens que me enviava vinham cheias de neve, cafés quentes e pequenas trapalhadas que só ela sabia viver — como escorregar no gelo em frente a um grupo de turistas e depois rir até chorar. Era bom saber que, mesmo distantes, ainda partilhávamos esse espírito de recomeço.
Agora, aqui, com a mala encostada no canto e o coração acelerado, sabia que tudo isso havia me transformado. O riso, a solidão, as quedas e as pequenas vitórias. E, mesmo com tanto vivido, só um nome ocupava o centro da minha mente: Camila.
Ansioso. Essa era a palavra que mais me definia naquele momento. Mandei mensagens para Ariana, contando que poderia surtar se demorasse mais um pouco. Ela respondeu calma, de algum país gelado onde estava em sua nova aventura: "Fique calmo, tudo vai dar certo." Quase ninguém sabia que eu havia retornado; tudo precisava parecer natural, como se eu nunca tivesse saído.
Ariana tinha partido algumas semanas antes de mim, em busca de suas próprias experiências. Preferi esperar até me sentir pronto, até me sentir confiante diante das novas situações. Mas a situação Camila Cabello ainda deixava meus nervos à flor da pele. Agora, finalmente, eu iria enfrentar o Sr. Cabello.
Respirei fundo, andando pelo corredor da casa. O Rob já havia me avisado que Alejandro estava chegando. Pensei em encontrá-lo no jardim, mas parecia melhor dentro de casa, com privacidade. Minha palma suava, o corpo inquieto, a respiração acelerada.
Ouvindo três batidas firmes na porta, fui até ela. Sr. Alejandro apareceu, me abraçando com força.
— Garoto, quanto tempo! Estou surpreso por você nos procurar antes de qualquer coisa. Sinu não pôde vir, Kaki desconfiaria — disse, e eu ri, retribuindo o abraço.
— Está bonito e forte, malhando bastante aí? E essa barba... caiu muito bem — comentei, convidando-o a entrar.
Olhei para ele, nervoso, engoli seco e falei o que vinha guardando há meses:
— Alejandro, antes de qualquer coisa... eu preciso justificar o meu sumiço. Não foi covardia, não foi falta de amor pela Camila. Foi medo. Medo de arrastar ela para dentro do buraco que eu mesmo cavei. Eu me perdi. E quando percebi, achei que o silêncio era a única forma de poupá-la. Achei que, se eu sumisse, ela teria a chance de ser feliz sem carregar o peso das minhas falhas.
Engoli seco, meus olhos fixos nos dele, que permaneciam atentos e duros.
— Mas foi um erro. Eu não a poupei de nada. Só causei mais dor. Eu deveria ter confiado nela, no amor dela, em vocês... e não fiz isso. O tempo todo eu achei que estava protegendo, mas na verdade só destruía.
Me aproximei um passo, minha voz vacilando, mas firme:
— E é por isso que estou aqui. Porque eu não quero mais ser um fantasma. Quero ser o homem que a apoia, que a sustenta quando o mundo pesar. Quero ser parte da vida dela em todas as formas possíveis. Alejandro... eu gostaria de pedir a mão da sua filha. Não como um capricho, mas como o compromisso de que ela nunca mais vai enfrentar nada sozinha.
Alejandro me encarou, calado, os olhos marejando discretamente. Então passou a mão pela barba rala, respirou fundo e deixou a tensão pesar na sala.
— Lawrence... eu teria todos os motivos para mandar você embora agora mesmo. Vi minha filha definhar por sua causa. Vi ela chorar noites inteiras, se fechar para o mundo, duvidar até da própria luz. E não vou mentir: doeu em mim mais do que eu consigo colocar em palavras.
Ele me encarou fundo, a voz grave mas firme, sem raiva, só um peso de quem viveu e sentiu tudo junto.
— Mas também aprendi que o amor não é feito só de acertos. Vocês erraram feio. Você errou feio. E ainda assim, sei quem você é. Sempre acreditei que, se tivesse a chance de amadurecer, você poderia voltar diferente. E agora você está aqui, pedindo para ser o homem dela de novo.
Deu uma risada curta, quase irônica.
— Vocês dois foram os piores amantes que já conheci. Mas também sei que são os únicos capazes de se entender nessa bagunça que chamam de amor.
Aproximou-se, colocou a mão pesada sobre meu ombro e me analisou por mais alguns segundos, como se buscasse o menor sinal de mentira.
— Então escuta bem: eu aceito. Você volta a ser parte da família. Mas entenda, Lawrence... se algum dia minha filha voltar a sofrer por você, não vai ter perdão, não vai ter justificativa. A dor dela será sua em dobro.
Ele ajeitou o paletó, respirou fundo e sorriu, mais leve, quase paternal.
— Mas hoje... hoje eu escolho acreditar em você. E espero que não me faça me arrepender disso.
Ele sorriu de canto, mas o olhar ainda era sério. Bagunçou meu cabelo como se eu fosse o mesmo garoto que conheceu anos atrás.
— Estamos orgulhosos de você por ter enfrentado tudo sozinho. Sei que seus pais também estariam, aposto nisso. Mas... — a pausa dele me fez prender a respiração — não me faça usar meus contatos antigos.
Engoli seco. O peso daquelas palavras era maior que qualquer ameaça física. Era a lembrança de tudo o que Camila havia passado, e da chance única que eu estava recebendo. Respirei fundo, e só consegui abraçá-lo com força, murmurando baixinho:
— Obrigado.
Ele riu, mas ainda com aquela seriedade de pai que sabe exatamente a responsabilidade que está entregando. Em seguida, colocou um envelope e uma máscara nas minhas mãos.
— Aqui está o convite para o baile. É onde Camila vai lançar a nova campanha com a Guess. E... eu espero que ela aceite o que você tem a dizer.
— Ela vai aceitar? — perguntei, mais inseguro do que gostaria.
Alejandro ergueu a sobrancelha, abriu um meio sorriso e respondeu:
— Vai surtar, vai te xingar, talvez até te faça esperar um pouco... mas vai aceitar. Eu conheço minha filha. — Ele olhou para o relógio, ajeitou a jaqueta e caminhou até a porta. — Te vejo daqui algumas horas, Lawrence?
— Sim, Alejandro.
Ele deu uma última risada curta, mas o olhar agora era quase paternal, cheio de peso e de esperança.
— É muito bom ter você de volta. E Sinu está ansiosa para ver você também.
— Eu também estou — respondi, sincero.
A porta se fechou e, por um instante, a casa pareceu silenciosa demais. Apoiei a testa contra a madeira, respirei fundo e soltei num sussurro quase como uma oração:
— Agora só falta uma pessoa. Mãe, pai... espero que me ajudem nessa. O resto do mundo vai ser fácil de enfrentar, se Camila aceitar.
Fui até a janela. Do lado de fora, a noite já surgia sobre o jardim. O céu escurecia devagar, enquanto o reflexo das luzes se espalhava pela piscina. Era o prenúncio de algo maior. Ajustei a gravata com mãos ainda trêmulas. Estava na hora de me arrumar para a grande surpresa da noite, o momento que decidiria o nosso futuro.
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Lost // lj + cc // trans
FanfictionEntre marcas antigas e cicatrizes recentes, Lawrence tenta se reconhecer no reflexo da própria pele. Camila é refúgio e incêndio, porto seguro e vertigem. No choque entre desejo, medo e entrega, nasce uma história que queima como segredo: perdido po...
