Fugindo de lembranças dolorosas e de pessoas perigosas, Luíza vai para a capital do estado em busca de um recomeço. Quando a jovem pensa que poderá viver sem medo o passado ressurge, abrindo suas feridas.
Giovanni é um empresário de sucesso mas guar...
Tocava "Come As You Are" no rádio do carro. Tamborilava os dedos no volante enquanto esperava o sinal abrir. As vezes me pegava pensando em como minha vida estava diferente agora. Para alguém que atravessou o inferno, ter dias monótonos era a minha definição de segurança.
Algumas coisas ainda eram muito difíceis, e talvez nunca deixassem de ser. Eu me sentia deslocada. Apesar de ter uma boa convivência com os colegas do trabalho e da faculdade, eu não conseguia criar laços. Recusava a maioria dos convites para qualquer confraternização, falava pouco sobre mim, mas era uma boa ouvinte. O que eu poderia falar sobre mim? Na maior parte do tempo, sentia que me tornei um fantasma do que fizeram comigo. Me tornei o que sobrou da violência que eu vivi.
Enquanto o professor explicava a importância das redes sociais na publicidade, lembrei do rapaz que conheci no bar. Me perguntei porque ele não ligou. Me repreendi por ter dado meu número para ele. Que merda eu fiz, talvez ele até tenha namorada. Eu definitivamente não estava pronta pra conhecer alguém.
A tela do meu celular se iluminou sobre a mesa. Era uma mensagem da Amanda.
"Almoço no lugar de sempre?"
Sorri lendo a notificação. Respondi.
"Claro. Saio da aula e te encontro lá"
Se com todo o resto do mundo eu sentia dificuldade de me conectar, com a Amanda isso aconteceu da forma mais sincera, natural e íntima possível. Se almas gêmeas realmente existem, a minha é minha melhor amiga. Claro, eu não poderia falar isso em voz alta, o namorado dela odiaria ser confrontado com isso.
Apesar de termos todos a mesma faixa etária, as vezes me sentia como uma filha adotiva para Amanda e Thalles. Eles sempre foram um casal muito amoroso, e enfrentaram juntos muitas adversidades. Talvez por isso nossa amizade fosse tão intensa, éramos três pessoas quebradas lutando contra nossos traumas.
Após a aula, caminhei até o restaurante onde eu e Amanda sempre almoçávamos. Mesmo restaurante, mesma mesa, mesmos pratos. Era a nossa tradição de melhores amigas. Me acomodei na cadeira e chequei minhas redes sociais enquanto a esperava.
Na internet, eu era Luísa Alves. Com S, e outro sobrenome. Todos os posts eram restritos, e a foto de perfil não mostrava o meu rosto, nunca. Amanda insistiu que eu criasse uma conta no Instagram e no Facebook, me mostrou como usá-los de forma segura, para que eu nunca fosse encontrada. Ela dizia que era um pequeno passo para retomar minha "vida normal", mas minhas listas de amigos se restringiam a pessoas mais próximas, colegas de trabalho ou de faculdade. Somente quem eu conhecesse pessoalmente.
Quando finalmente chegou, cumprimentei Amanda com um beijo no rosto e notei estar estressada;
- Manhã difícil? - perguntei.
- Ai amiga, manhã péssima! - suspirou. - O Estevam é um idiota, minhas colegas de trabalho são umas piranhas competitivas e pra completar o Thalles não atende minhas ligações. - reclamou soltando tudo em um folego só.
- Você não poderia ser transferida de setor, talvez? Aí não teria mais que trabalhar com esse cara.
- Já fez teu pedido? - indagou, mudando de assunto.
Fiz sinal negativo com a cabeça. - Estava te esperando.
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