Andrew só teve tempo de por uma roupa limpa, pois logo em seguida, um criado bateu na porta de seu quarto avisando que a Sua Majestade lhe esperava na sala do trono.
Saiu em disparada pelos corredores, e assim que chegou, as portas do lugar foram abertas sem exitar. Seja o que fosse, era importante. Adentrou o lugar e de longe pode perceber o olhar sério e um pouco abatido de Henry.
— Mandou me chamar, Majestade? — Andrew sorriu simplista.
— Não dormiu no Palácio. — Henry afirmou, e o sorriso do conselheiro vacilou por um segundo. — Fui ao seu quarto pela manhã, e você não estava lá.
— Saí muito cedo para feira de Scarborough. Fui atrás da senhora que estava me ajudando a estudar poções, acredito que acabei não lhe avisando que iria sair. Perdão, Vossa Majestade. — Andrew sentiu-se contente por ter pensado numa mentira muito boa e rápido.
— Sim, você me falou que era uma senhora que o havia ajudado. — Henry suspirou. — Mas os guardas me afirmaram que não o viram voltar ontem a noite.
Andrew engoliu em seco, para aquilo não tinha uma resposta boa.
— Mas voltei. — O conselheiro deu de ombros, tentando não olhar diretamente nos olhos do Rei. — Não me demorei ao falar com Camille.
Os olhos de Henry se fecharam e seu rosto se contorceu em amargura.
— E sua reação? — Ele perguntou.
— Ficou apenas muito chateada, não disse muito coisa. — Andrew se sentiu um pouco culpado por ter ficado consolando Camille de uma forma que só amantes se consolavam.
— Espero poder vê-la em breve.
Henry estranhou ao perceber que Andrew não havia respondido, como geralmente fazia. Pelo contrário estava com os pensamentos em outro lugar e com o cenho franzido.
— Depois que fui ao seu quarto, acabei encontrando Marie. Ela me contou que estava grávida. — Isso chamou a atenção de seu amigo de volta.
— Como o senhor reagiu?
— Confesso que acabei sendo um pouco rígido, o que deixou ela chateada, mas não deixei claro que já sabia da gravidez. — Henry passou a mão pelo rosto.
— Hen... Majestade. — Andrew se corrigiu, estavam cercados por guardas, tinha que manter um certo respeito pelo outro. — Sei que está sendo difícil para vós, mas para Marie também não está sendo nada fácil.
A sala foi tomada por um silêncio incômodo, Henry cogitando a idéia de pressionar mais Andrew e descobrir onde ele passou a noite, enquanto o conselheiro desejava sair daquela sala.
— Se me permite, preciso sair para ir à Scarborough Fair. — Andrew acabou com o silêncio.
— Mas você já não foi de manhã?
— Sim, andei por muito tempo, mas não cheguei a encontrar a senhora. A feira tem crescido muito.
Henry ergueu uma de suas sobrancelhas, doía pensar que seu amigo poderia estar traindo sua confiança.
— Permissão concedida. — O Rei disse por fim.
Andrew se conteve em apenas fazer uma breve reverência, assim que saiu da sala do trono pode suspirar aliviado. Mas no fundo sabia, Henry estava desconfiado de algo, e ele não deixaria esse assunto se encerrar.
[...]
A movimentação de Scarborough foi algo confortante para Andrew. Há muito não ia ali, e uma sensação de nostalgia se instalou ao ver a barraca de Camille ao longe.
Antes de se encontrar com ela, tinha que se encontrar com alguém antes.
Em vez de seguir em frente, deu meia volta. Não demorou muito ao avistar a barraca de ervas e a velha senhora, que cantava distraída a Cantiga que os músicos tocavam.
Assim que viu Andrew se aproximando, a mulher sorriu para ele.
— Olha, se não é o jovem nobre. — Ela disse um tanto animada. — Já faz algum tempo que não te vejo. Alguma boas novas?
— A poção... — Ele simplesmente disse, fazendo ela parar tudo que fazia e prestar muita atenção. — Ela funciona.
— É claro que funciona. - A velha deu de ombros. — Mas, como o senhor sabe?
Andrew narrou os acontecimentos entre ele, Camille e o Rei. Sabia que podia confiar naquela mulher, e também lhe contou que ainda havia sobrado dois frascos.
— Meu jovem, — Ela interrompeu o conselheiro. — Escute muito bem o que eu lhe digo, guarde muito bem esses frascos. Talvez, você precisará deles novamente.
— Mas...?
— Confie em mim, quando digo que eles vão salvar sua vida.
O conselheiro ficou quieto observando as feições amigáveis da velha senhora. O olhar de preocupação e de sabedoria, era o que mais intrigava.
Seus pensamentos foram interrompidos quando ouviu uma nova Cantiga começar a ser tocada, o que lhe chamou a atenção foi a voz conhecida que a entonava. Assim que olhou viu Camille no meio dos músicos, cantando a belíssima canção que falava sobre uma floresta mágica e um jovem apaixonado que vagava por ela.
— Acredito que seja a amada que a poção lhe trouxe. — Andrew voltou sua atenção a senhora novamente. — Vá até ela. Só não se esqueça do que eu disse.
— Muito obrigado. — Ele a reverenciou e foi em direção aos músicos.
Se aproximou e deixou duas moedas de prata perto de um deles, aquilo daria para ajudar o bastante, e começou a observar a camponesa que tinha uma belíssima e melódica voz.
Como sentisse que estava sendo observada, Camille olhou em sua direção e logo abriu um sorriso enorme ao lhe reconhecer. A música pareceu uma eternidade para acabar, mas assim que aconteceu, Camille se reverenciou para as pessoas que estavam ali. E disfarçadamente apontou para um lugar fora da feira, para que Andrew a seguisse.
Quando estavam longe da vista de todos, Camille se jogou em seus braços e logo trocaram um beijo romântico.
— Não sabia que cantava. — Andrew sorriu enquanto acariciava o rosto da amada. — Você tem uma voz linda.
— É só um dos meus milhares talentos. — Ela riu. — Há quanto tempo estava aqui?
— Não muito, eu ia diretamente na sua barraca, mas lembrei que tinha negócios a resolver.
— Com quem?
— Com a senhora que me ensinou a poção. — Ele suspirou com os pensamentos longe. — Precisamos achar uma forma de nos vermos hoje a noite.
— Concordo, gostaria de passar a noite em seus braços outra vez. — Ela ficou na ponto dos pés para selar novamente os lábios de Andrew.
O que era para ser um simples selar, se tornou um grande beijo, assim que o conselheiro entre abriu a boca. Suspiros apaixonados saiam pelos lábios de Camille, enquanto Andrew segurava sua cintura com força. O que sentiam era como um fogo ardente, difícil de se apagar.
Mas logo se separaram e Andrew lhe prometeu que se encontrariam ainda naquela noite. Havia pensado bem no que a senhora da feira havia lhe dito. Por precaução, entregaria um outro frasco da poção para Camille.
❁
[NOTAS]:
A música que está na mídia é a que eu imagino Camille cantando. Não tem nada com a história em si e não sei dizer se ela é realmente medieval, mas entrei no consenso de que ela é bonitinha e que eu queria usá-la para algo, haha! ❤
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Scarborough Fair
Ficção HistóricaVocê está indo para a feira de Scarborough? Não se esqueça de trazer salsa, sálvia, alecrim e tomilho. Iremos fazer uma poção para a senhoria, e quem sabe, tu terás o teu amor verdadeiro de volta? 🌿 (Inspirado na Cantiga Scarborough Fair) ➛ Lembre...
