Capítulo Dezenove

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Quando ninguém estava vendo, Henry chorou. Em seu quarto, ele tirou a máscara de indiferença e finalmente pôde liberar as lágrimas de uma amizade importante e um amor perdidos, tudo de uma vez.

Sentia seu peito doer, enquanto seu rosto era molhado  por suas lágrimas que escorriam sem parar.

Logo, Andrew estaria morto por conta de sua traição. Henry queria se sentir bem, pensando que seria vingado, mas o resto de compaixão que ainda tinha em seu peito, o tentava fazer voltar atrás com o julgamento.

Seu corpo se encolheu na cama, assim que escutou uma batida na porta e a mesma ser aberta.

— Henry... — Ele escutou a voz doce de Marie, pronunciar seu nome com cautela.

— Vá embora. — Com um pouco de força que ainda tinha, conseguiu dizer com a voz rouca.

— Não posso... — Ela respondeu e se aproximou da cama do marido, sentando-se na beira. — Eu, como uma boa súdita, tenho que cuidar do meu Rei.

Marie colocou sua mão no ombro de Henry, o que o fez se encolher ainda mais. Um longo silêncio incômodo surgiu, até que Henry segurou a mão de sua esposa e a apertou.

— Eu não queria que as coisas tomassem esse rumo. — Ele conseguiu dizer depois de um longo tempo.

Marie se aproximou ainda mais, e como Henry estava de costas para a Rainha, não viu o seu movimento sutil.

— Você é o Rei. — Ela sussurrou em seu ouvido. — Pode mudar tudo.

O arrepio que percorreu o corpo do Rei, o fez acordar de seu devaneio. Henry se levantou rápido da cama, fazendo Marie se afastar bruscamente.

— Não posso, já está decretado.

[...]

A noite foi difícil para Camille, pois em nenhum momento conseguiu parar de chorar. As coisas de seu quarto foram revirados em um momento de raiva e tristeza profunda.

Nicholas e sua mãe, não sabiam o que fazer para lhe consolar, então apenas assistiram a camponesa chorar por horas com o coração estilhaçado.

— Camille — Nicholas a chamou assim que entrou no quarto, seu coração partiu-se assim que viu a irmã encolhida no chão frio e soluçando. — Minha irmã, você precisa comer algo.

Ele se aproximou da garota, mas foi surpreendido com a mesma, que pulou em seu pescoço e o abraçou, procurando algum conforto no irmão.

Eu preciso fazer algo, eu preciso fazer algo... — Ela repetiu deliberadamente, enquanto seu irmão a abraçava com força.

— Escute — Nicholas puxou seu rosto para que olhasse em seus olhos. — Não há o que fazer, principalmente se foi decretado perante todos os nobres.

Camille estava pronta para murmurar alguma resposta em meio as lágrimas, quando seu olhar focou em algo perdido em meio ao caos de seu quarto.

— Coma e descanse, Camille. — Seu irmão limpou as suas lágrimas, mas ela não conseguia focar no que ele dizia. — Eu e vossa mãe precisamos ir à Scarborough Fair para cuidar da nossa barraca, você pode ficar aqui descansando. Se cuide, por favor.

A camponesa apenas acenou concordando enquanto inspirava e expirava com calma. Antes de seu irmão sair, o sentiu depositar um selar carinhoso em sua testa.

Camille esperou que todos os barulhos e vozes da casa cessassem, para que levantasse do chão e andasse hipnotizada até um certo frasco que estava em meio a sua roupa no chão.

A poção do amor verdadeiro.

Seu cérebro começou a trabalhar e logo lhe veio lembrança de Andrew lhe falando que aquilo poderia ajudar.

A garota não pensou duas vezes e logo estava correndo para fora de sua casa com o frasco em suas mãos.

[...]

— Será que não entende, Marie? — Henry explodiu, assim que a rainha tornou a repetir. — Ele traiu a minha confiança e roubou o meu único amor!

Marie ergueu a cabeça para ficar altiva e disfarçar os olhos que lacrimejavam.

— Ela nunca foi sua, Henry.

Isso foi o bastante para o Rei pegar um vaso pequeno e jogar na direção de Marie, que por pouco não a atingiu. A Rainha o olhou com medo, e com um instinto protetor, pousou sua mão sobre ventre para protegê-lo do homem irado à sua frente.

— Saia do meu quarto. — A voz gélida de Henry, causou diversos arrepios pelo corpo de sua esposa. — AGORA!

Ainda assustada, Marie saiu do quarto com rapidez e correu para os jardins do Palácio, o seu refúgio, para poder chorar. Estava em pânico, com raiva e triste. Henry só conseguia pensar em si mesmo?

Ela caiu em meio ao gramado do jardim, onde chorou de soluçar, pois não pôde fazer nada pelo seu amigo e por pouco não saiu ferida nessa história. Em seu exterior, na verdade, pois seu interior estava destruído.

[...]

Além de estar vermelho, o maxilar de Andrew estava dolorido. Se ele tinha alguma dúvida, agora tinha certeza de que os soldados de Henry eram fiéis à Sua Majestade, ou apenas gostavam de machucar seus prisioneiros.

Estava sentado no chão, enquanto tentava mastigar um pedaço de pão duro e engolir com a água, que lhe entregaram num copo velho e enferrujado. Tinha a completa certeza de que sua hora estava chegando e não conseguia pensar nada além de Camille.

Andrew suspirou tentando trazer alguma paz para si. Pelo menos, tinha certeza de que Henry jamais machucaria a camponesa.

Sentiu seu coração dar um sobressalto quando escutou sua cela ser aberta e dois soldados adentra-la. Percebeu que não era soldados comuns e sim o príncipe Hector e ao seu lado o general Harry.

— Andrew.— Tinha um certo pesar na voz do general. — Chegou a hora.

Andrew se levantou com certa dificuldade, mas logo estendeu as suas mãos para serem amarradas pelas cordas que Hector carregava.

— Eu sinto muito, meu amigo. — O príncipe sussurrou em solidariedade, enquanto prendia o pulso do ex conselheiro com as cordas, que apenas fez um gesto negando.

— Tudo bem, já aceitei o meu destino. Mas Hector, Alteza — Andrew se corrigiu rápido. — Se puder, diga a uma certa camponesa que a amo demais, sempre amei, na verdade.

— Farei o possível. — Hector ofereceu um singelo sorriso, enquanto imaginava quem era a camponesa.

— Vamos, acredito que a Vossa Majestade não gostaria de um atraso nesta sentença. — O general não olhava diretamente nos olhos de ninguém ali. Sentia o pesar desse julgamento e estava sendo difícil até mesmo pra ele, que tinha visto os dois príncipes e o nobre crescerem juntos.

— Certo. — Andrew acenou concordando. — Vamos terminar logo com isso.

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