As coisas ao redor daquele lugar já me pareciam mais vivas.
O ar era diferente — cheirava a terra úmida e folhas recém-banhadas pelo orvalho da manhã. As árvores eram mais verdes, o céu mais aberto, e os pássaros cantavam como se anunciassem algo importante. Quanto mais perto do grande portão chegávamos, mais alto o som das risadas infantis ecoava pelas ruas.
Mesmo com todas as histórias que ouvi quando criança, nunca consegui enxergar a verdadeira beleza daquele lugar.
A Aldeia da Folha.
Agora eu podia chamá-la de lar.
De casa.
— Foi aqui — minha mãe tocou meu ombro gentilmente — que seu pai e eu nascemos, crescemos e nos apaixonamos.
Olhei para meu pai. Ele sorria daquele jeito calmo que só ele tinha quando falava do passado.
Eles ainda se olhavam como dois adolescentes que haviam desafiado o mundo.
— Agora é sua vez! — os olhos negros dele se fixaram em mim. — Só não se apaixone.
Minha mãe gargalhou ao ver minha expressão indignada.
— Pai, eu tenho 13 anos!
— Exatamente. Só tem 13 anos. — Ele puxou o gorro da minha capa e bagunçou meus cabelos antes de seguir até o pequeno quiosque de segurança na entrada da vila. — Meninos…
Revirei os olhos, mas não consegui esconder o sorriso.
— Takashi! — um dos ninjas murmurou, surpreso. — Takashi Uchiha… é você mesmo?
Meu pai assentiu, rindo.
— Então não eram boatos. Você realmente voltou. — O olhar castanho do homem percorreu minha mãe e parou em mim. — Aia Hyuga…
Minha mãe inclinou levemente a cabeça, respeitosa.
— Essa é nossa filha — ela disse, orgulhosa. — Yuriko.
Sorri para os dois ninjas, que acenaram de volta.
— Podem entrar. Conhecem essa vila melhor do que eu. — Ele brincou. — Espero vê-lo de volta às forças policiais.
— Vou me estabilizar primeiro. Colocar Yuriko na Academia… — meu pai comentou.
Senti minhas bochechas esquentarem.
Eu sabia que seria a mais velha da turma. Na minha idade, muitos já eram Chūnin. Alguns até lideravam pequenas equipes.
E eu… mal era Genin.
— Sejam bem-vindos — concluiu o ninja.
Assim que atravessamos o portão, senti algo estranho no peito.
Era como se a vila estivesse me observando.
— Aquela é a Pedra dos Hokage — minha mãe apontou para a enorme formação rochosa com os rostos esculpidos ao fundo. — Atualmente, o Terceiro Hokage governa.
— E o Quarto? — perguntei, tentando ajeitar a touca da capa, sem sucesso.
— Ele morreu — meu pai respondeu, mais sério. — A Raposa de Nove Caudas atacou a aldeia. Ele deu a vida para selá-la.
Um silêncio breve caiu entre nós.
Eu ia perguntar mais, mas uma criança esbarrou em mim e caiu no chão.
— Você está bem? — me ajoelhei rapidamente.
Olhos azuis me encararam com surpresa. Não havia lágrimas — apenas algo mais difícil de entender. Desconfiança?
Acostumado a cair sozinho?
— Qual seu nome?
— Naruto.
Sorri e estendi a mão.
— Não me odeia? — ele perguntou, quase num sussurro.
Franzi o cenho.
Por que alguém odiaria uma criança?
— Claro que não. — Segurei sua mão pequena e o ajudei a levantar. — Só toma cuidado por onde anda, Naruto.
Ele me olhou por mais um segundo, como se estivesse memorizando meu rosto.
— Tchau, moça!
E saiu correndo.
— Vamos, filha!
Suspirei e me virei — apenas para colidir contra algo sólido.
Ou alguém.
Meu corpo perdeu o equilíbrio, mas antes que eu caísse, um braço firme envolveu minha cintura, puxando-me contra um peito quente.
O mundo pareceu silenciar por um segundo.
— Me desculpe.
A voz era grave. Suave. Controlada.
Levantei os olhos.
Íris negras. Profundas. Não havia arrogância nelas… mas também não havia inocência.
Havia silêncio.
Um silêncio pesado.
Meus dedos ainda estavam apoiados no tecido da roupa dele. Percebi tarde demais.
— Tudo bem — murmurei, afastando-me rapidamente.
Mas algo ficou.
Um arrepio lento subiu pela minha espinha. Não era medo. Também não era apenas curiosidade.
Era como estar diante de algo que eu ainda não compreendia.
— Filha! — ouvi meu pai chamar.
— Eu preciso ir… desculpe. — Curvei-me apressadamente e corri até meus pais. — Eu esbarrei ali.
— Sim… e quem era? — minha mãe sorriu de maneira suspeita demais.
— Não sei — respondi, tentando soar indiferente.
Será que dava para ouvir meu coração batendo?
Olhei para trás uma última vez.
Ele já não estava lá.
Como se nunca tivesse estado.
Seguimos pela rua principal até pararmos diante de outro grande portão.
Era como se houvesse uma aldeia dentro da própria Aldeia da Folha.
O símbolo em vermelho estava gravado no centro.
O leque Uchiha.
— Vamos morar aqui? — perguntei. — Por que ficamos separados?
Minha mãe suspirou levemente.
— Os Uchiha são um clã grande e influente. Muitos ninjas da vila pertencem a ele. Existem regras próprias… e orgulho demais também.
Assenti. Eu sabia.
Meus pais haviam sido afastados por se amarem.
— Assim como os Hyuga — meu pai completou. — Mas os Hyuga possuem uma hierarquia ainda mais rígida.
Respirei fundo antes de atravessar os portões.
Orgulho.
Tradição.
Silêncio.
A partir dali, minha vida mudaria.
E eu ainda não sabia que alguns encontros não eram acidentes.
E que certos olhares carregavam o peso do futuro.
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A Herdeira
Fanfic"Você me mostrou o que é o amor ao mesmo tempo em que me ensinou o que é o ódio" Quando os pais de Yuriko Uchiha voltam para a aldeia depois de tantos anos sendo renegados, a jovem herdeira de duas das mais poderosas famílias do local começa uma vi...
