𝐂𝐚𝐩𝐢́𝐭𝐮𝐥𝐨 𝟎𝟒𝟏

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Ela dormia.

O abajur ligado clareava somente seu rosto e seu corpo encolhido na cama, abraçado a um travesseiro. Pelo som de sua respiração seu sono era profundo.

Melhor assim, ele poderia ir rápido. Sem poder permanecer a mirando, sem poder conter seus malditos olhos e seu coração, engoliu o choro, tomando coragem para fazer o que tinha que fazer. Pegou a mochila, lentamente abriu o armário e silenciosamente depositou ali uma troca de roupas, um casaco grosso e sua carteira. Do banheiro pegou apenas uma pasta de dente e uma escova. Tirou a passagem do bolso a enfiando também na mochila. Deixou o banheiro após lavar seu rosto. Sentia-se fraco, sentia-se tonto, baqueado. Deu uma mirada no quarto, percebendo que não esquecia de nada. Nada ali era dele, exceto a mulher que adormecia na cama.

Seus olhos caíram sobre ela e seu coração deu um salto ao perceber que ela não dormia. Apenas o mirava, com os olhos bem abertos e emocionados. Permaneceu ali de pé sem poder se mover, entrelaçando seus olhos com os olhos dela, respirando de forma ofegante, confiando a si mesmo que sim, estava partindo.

Ela se sentou na cama sem deixar de o mirar, mostrando um rosto melhor do que o da última vez que a vira, mas seus olhos... Oh Deus aqueles olhos permaneciam os mesmos, exatamente os mesmos.

O que se dizia em um momento de despedida?

O que dizia um homem como ele, para uma mulher como ela, após intensas noites de amor e entrega, após inimagináveis descobertas e perdas de controle, após um sentimento como amor surgir com fúria, arrebatando ambos em um mar fundo, intenso, de ressaca? Piscou para poder enxergar no meio das lágrimas que seus olhos formavam, negou com a cabeça, vendo como ela esperava por uma palavra, por um adeus, qualquer coisa...

— Eu não posso. — Foi o que ele disse, deixando a mochila no chão, aproximando-se dela na cama, notando que ela nunca esteve realmente adormecida. — Não posso Dulce, acabaria com você, comigo... — Baixou a cabeça, sentando-se na cama. Um sentimento estranho lhe estalou no peito. Sentimento esse que fez com que Christopher a segurasse pelos dos dois lados do rosto, beijasse sua testa com carinho. — Mas eu quero que você saiba que foi verdadeiro, é verdadeiro. — Dulce não dizia uma única palavra, seus olhos permaneciam ali, bem abertos, com os sentimentos correndo pelos mesmos como uma forte correnteza. — Perdoa, mas eu não posso.

Ela por fim fechou os olhos, encostando sua testa na dele, entrelaçando seus dedos como faziam nas noites de entrega e paixão. Preparou-se para o pranto que novamente iria se apossar de seu corpo.

Mas então ele a beijou.

A beijou como forma de despedida. O gosto era de despedida, as lágrimas salgadas eram de despedida. Dulce o abraçou com força, soluçando pela primeira vez, sabendo que não tinha o direito de implorar que ele ficasse.

— Lute. — Christopher murmurou. — Eles vão cuidar de você, mas, lute.

— Morrerei a partir do momento que deixar esse quarto.

— Não diga... — ele novamente voltou a lhe beijar os lábios, deslizando sua mão pelas costas e pela cintura de Dulce a apertando, a marcando como sua. — Não diga isso. — lhe beijou a bochecha e a testa inúmeras vezes. — Eu sinto muito. — Acariciou o rosto, afastando sua franja dos olhos como gostava de fazer. Então se levantou de forma brusca, como se soubesse que se não o fizesse dessa forma perderia a coragem.

— Não faça isso comigo. — Dulce murmurou, o mirando de forma assustada, como uma menina após um pesadelo. — Não faça isso comigo, Casillas.

Mas ele fez.

Deixou o quarto e em um instante tudo se encontrava silencioso, escuro, frio.

E a Rainha permaneceu ali sentada na cama, com o coração aos saltos, os olhos assustados e o corpo prestes a explodir em uma quebra de controle e sentimentos inimagináveis.

Um Lindo HomemOnde histórias criam vida. Descubra agora